- Então... Me chamo Demon. Você não vai me dizer o seu nome?
Qual jogo ele estaria jogando? Não sei se posso joga-lo. As nuvens já ganhavam alguma cor no céu e eu tinha preça em matar o Mikael. Mais um dia entre humanos e eu me contagiaria com o fluxo que eles seguem. Fluxo que parece atrasa-los bastante.
- Mas você é um anjo. - Falei o obvio, obvio.
- Você notou? - Brincou ele.
- Não brinque. O que quer?
Sabe, nunca fui de agir de maneira tão evasiva, mas se tratava de um anjo, um ser, aparentemente, superior. Não podia epenas espanca-lo com um saxofone quebrado e fingir que ele nunca esteve ali. Não podia? E porque não? Ergui uma das mãos...
- Você também não vai querer fazer isso. - Falou.
- Isso o que?
- Me bater, com um saxofone quebrado. Você não vai querer fazer isso. De que adiantaria?
- Adiantaria?
- Não!
- Então não devo bater?
- Não.
-Mas você é um anjo, e isso não é um elogio.
- Eu sei. Acredite, eu sei.
- Mas você é um anjo, anjo.
- Eu sei, sei. E você ficar repetindo não vai me tornar mais anjo e nem menos anjo. Então, para com isso de uma vez, certo? Não é agradável.
Agradável era uma palavra que eu conhecia muito bem, o seu adverso também não me era incomum.
- Nós não deveríamos estar nos confrontando ou algo...?
- Aí é que tá. A gente podia...
- O que você quer afinal? - Interrompi com impaciência.
- Lhe responder as perguntas que tanto me faz, mas você nunca deixa. Que saco! - Nossa! O anjinho se mostrou visivelmente alterado, pela primeira vez, desde que o vi, ele desceu de sua nuvem de absolutismo e falou como um igual. O que era bem estranho, não me sentia de maneira nem uma igual a ele. - Vamos por partes, que nem Jack.
Riu, sozinho. Ao ver que não entendi a piada, ou se quer rir para agrada-lo, ele voltou a morder a maçã e ainda enquanto mastigava explicou:
- O que eu quero... O que eu quero. Hum. De inicio saber o seu nome, afinal foi a primeira pergunta que lhe fiz.
- ...
- Então...?
Ouvi-lo era mais agradável doque dialogar com ele. Acho que não gostava muito da minha voz. Nesse meio tempo cheguei a conclusão de que os humanos que pensam muito fazem isso porque não gostam de suas vozes. E os humanos que falam demais devem não gostar dos seus pensamentos.
- Angelus.
- Angelus?
- Angelus!
- Que nome estranho para um demônio.
- Preciso comentar do seu?
- Demon é só um apelido para Demetrius Divinum Cardiam. Achei que ficaria mais fácil de se pronunciar se eu abreviasse um pouco, mas não fez muita diferença não, já que lá ninguém se chama pelo nome.
- Lá?
- É, lá de onde eu venho.
- Céu?
- Com queira. Não faz muita diferença mesmo.
- E como fazem?
- Com números. Lá é tudo muito organizado, uma chatice só. Tem também o grande numero de pessoas que vivem lá. Enfim, lá nos organizamos em números, assim fica mais fácil manter o controle. E ninguém precisa ficar decorando nomes como: Demetrius, Victorus, Miguelios, coisas assim.
- Hum.
- Quanto a termos que nos confrontar... Eu sugiro...
- Como assim?
- Sugiro uma trégua.
- ...
- Olha. - Mordeu a maçã outra vez, parecia gostar do som que sua boca fazia ao mastigar e falar ao mesmo tempo. - Você... Você não faz nada que me irrite e eu... Eu não lhe faço nada desagradável.
Os argumentos eram fortes, ou eram as palavras, a voz... Não sei ao certo, mas talvez a ideia de poder evitar qualquer incomodo tenha me deixado satisfeito.
- Como vou saber se fala a verdade? Como saberei o que te irrita ou não.
- Faremos regras quando o sol nascer. - O que não iria demorar, pois os primeiros raios de sol já se refletiam nas paredes espelhadas dos prédios e iluminavam as calçadas. Era bom, não bonito. O calor do dia me agrada e aquele frio de madrugada já estava me dando náuseas.
Mais uma vez, frente a frente, esperamos o tempo passar. Existia algo em mim que não me deixava partir. Não antes dele revelar quais eram as tais regras. Era agradável saber que ele podia fazer alguma coisa pra eu parar de sentir incomodo. Ele comia a maçã. Comia, comia, comia. A cidade ia clareando aos poucos, uma hora ou outra conseguia-se ouvir os bocejos daqueles que acordavam. Pensei: “ Engraçado esses homens, são quase silenciosos só quando dormem, mas até para acordar essas criaturas precisam fazer qualquer ruido.”. Pratos e talheres, camas rangendo, mulheres que gemem, barulho de agua, cheiro de fogo, barulho, barulho e barulho. As pessoas finalmente estavam acordadas,o calor estava aos poucos conquistando seu espaço sobre o fresca brisa da madrugada, o sol pintava o chão das ruas de luz, e o barulho dos carros que saiam da garagem... Ahr! Tudo isso me lembrava de casa... Mas tudo durou apenas alguns segundos.
- E ai?
- Porra!
- Quê?
- Eu tava pensando, aproveitando. Estava agradável, saca? Você tinha mesmo que interromper?
- Desculpa, mas o dia nasceu.
- E daí?
- Eu tinha te dito que criaríamos regras assim que o dia nascesse.
- E então?
- Não sei, você pensou em alguma coisa?
- Quê? Você é maluco, não é? Disse que inventaria regras e...
- Tenha calma. Me diz, qual sua missão?
- Mata-lo?
- Mata-lo ele? O Mikael?
- LOGICO!
- Tenha calma, peste. E ai? E depois?
- Depois? Depois volto pra casa e paz.
- Foi pra isso que lhe mandaram?
- Aquele Boss filho de uma puta, não me falou nada sobre anjos.
Eu disse que preferia escuta-lo e não dialogar com ele, toda vez que ele falava era como se não fosse só voz, vários outros sons se misturavam e... Toda vez que eu falava...Bom, toda vez que eu falava parceia um... um tapa. Um tapa desses que se da em si mesmo pra despertar.
- Boss?
- É! O cara que me mandou pra matar. Criatura estranha, ok? Muito estranha! - Silencio por um tempo. - Pode parar de fazer perguntas? Sinto uma obrigação de responde-las, sei lá. Para! Simplesmente para.
- Tudo bem. Faria você as perguntas?
- Se prometer deixar as respostas longas, sim.
- ...
- A sua missão, qual é? Protege-lo?
- Livra-lo de todo mal, sim. Amem!
- De mim?
- Não ache que é o único demônio que veio aqui mata-lo. Estou aqui pra protege-lo de tudo. De você, das pragas, dos parasitas, dos acidentes, acasos...
Ele fez como pedi que fizesse, alongou as respostas para as minhas perguntas estupidas. Era bom, era bom ouvi-lo falando, mesmo as vezes quando falava de boca cheia. As coisas ao redor iam perdendo o som e as palavras do anjo me lembravam o sopro musical que ouvi naquela noite, eu não prestava atenção no que ele dizia, apenas o escutava. Escutava apenas.

Terça-feira.
Ep. 2 - O saxofone.
- E então, o que acha dessas condições?
O dia nascera por completo, quem trabalhava de manhã já não estava mais em casa. O sol de um lado queimava meus olhos e do outro lado, um anjo, um demônio e uma maçã bem vermelha. Demon estava a minha frente encostado no carro que provavelmente seria do humano que vim pra matar, há minhas costas a casa de Mikael. Não me movi muito desde que encontrei o anjo. Na verdade, desde que nos olhamos nos olhos nem um de nós saiu do lugar.
- Hem? Desculpe?
- Você não escutou nada do que eu disse?
Não. Logico! Apenas a voz, mas eu não diria isso a ele.
- Claro que escutei, apenas não consegui raciocinar direito. Você falou muito rápido.
- Vou repetir, preste atenção.
- Tá.
- Não queremos entrar em confronto, certo?
- Fale por você.
- Você quer?
- Não. Apenas acho que é o que faríamos... sei lá... numa situação normal.
- Não vai acontecer. Você terá paz e eu não me preocuparei, nas horas que mais gosto de ficar calmo.
- Vai, diz logo.
- Bom, eu adoro a noite... - A maçã em uma de suas mãos já estava no final, completamente mastigada. Ele a jogou no ar e a pegou com a outra mão. Uma maçã inteira, nova e mais vermelha caiu em sua mão no lugar da outra velha e cheia de mordidas. Levou a mão que a segurava até a boca e recomeçou a come-la. - Então seria legal se a gente combinasse de você não tentar mata-lo a noite.
- O que você tem com a noite?
- Eu gosto de sair, fazer coisas. A cidade é tão mais viva a noite, sabe? É quando as pessoas não estão seguindo uma enorme rotina. Caminha entre os humanos fica até mais divertido.
Divertido? Ele não quis dizer agradável?
- Divertido?
- É! - Riu. - Você ainda tá nessa de agradável e desagradável, não é?
- Como?
- Olha, você precisa começar a dar outros nomes a essas sensações. Por exemplo: Divertida é uma coisa extremamente agradável, tão agradável que te deixa feliz, rindo a toa.
- Como vou saber que nomes dá?
- Existem uma coisa aqui entre eles que te faz simplesmente aprender, nada fica difícil demais. É como se fosso um...
- Fluxo.
- Exato! É como se fosse um fluxo que eles seguem, basta se encaixar e deixar fluir. Logo você terá nomeado todas as sensações sem se quer se preocupar com isso.
Hum. Que nome se dar quando você ouve alguma coisa que não estava acostumado a ouvir, é uma coisa bem agradável... Digo, divertida. É algo que te chama bastante atenção, que aos poucos faz você ficar se mexendo ao som daquilo.
Tentei com todas as palavras que conhecia explicar pra ele o que senti quando ouvi aquela musica assoprada na noite passada.
- Ritmo.
- Ritmo?
- Hunrun. Na verde o ritmo desperta em você diversas outras sensações que juntas fazem você dançar.
- Dançar... É isso! Faz sentido.
- Viu? As coisas simplesmente se encaixam. Quando a musica assoprada... Chama-se assobio. Eu estava assoviando quando vi você dobrando a esquina.
- Então era você?!
- Hunrun.
Estranho não ter notado, mas a voz dele era mesmo tão “divertida” quanto a musica naquele instante.
- Como vou saber se estou nomeando certo as coisas que eu senti?
- Não se preocupe. Se não aparecer nem um nome convincente na cabeça, invente um. Os humanos fazem isso toda hora, dão nomes pra um monte de sentimentos que eles não fazem a minima ideia de como funcionam.
- Certo. Mas... Ei! Será que você pode me ensinar a assobiar?
- Claro, mas outra hora. Olha, o Mikael já vai sair. Não vai querer nos encontrar na porta dele a essa hora. Vamos sair daqui.
-Tudo bem.
Saímos, fomos a uma pequena praça que tinha por ali por perto. As roupas do Demon estavam diferentes, mais claras. Pensei que fosse por causa das influencias do sol. Engraçado. Pensar já não me incomodava tanto. Sentamos em um desses bancos de praça e começamos a conversar. Engraçado. Havia acabado de conhecer o anjo e já nos falávamos como antigos amigos. Amigos é uma palavra nova, preocupação também. E eu estava preocupado com o que o Boss acharia se soubesse que eu estava perdendo o tempo da minha missão conversando com um anjo.
- Eu também não gosto muito de alturas.
- Quê?
- Falo porque a gente poderia combinar de você não mata-lo no trabalho.
- E onde ele trabalha?
- Aquele prédio ali. - Me apontou um prédio comercial no começo da rua. - Decimo sétimo andar.
Eu já estava muito preocupado com o atraso da missão, e agora me vem Demon com mais restrições. Que chatice. Ei, esse meu vocabulário está ficando bom.
- Espera. Nós já não combinamos de que eu não poderia mata-lo a noite?
- É que tenho pavor de altura. Ia ser extremamente irritante ter que subir todos aqueles andares pra defende-lo de você.
- Eu não sei se posso passar muito mais tempo cedendo aos seus...
- Eu te ensino a assobiar!
Ele era um anjo com argumentos muito bons. Aceitei o acordo, com a minha condição de que não haveriam mais condições da parte dele. Fiquei me sentindo meio... Meio... Arrependido, acho que era essa a palavras, mas acho que no fundo, no fundo fora uma boa troca. Passei algum tempo perguntando sobre o significado de algumas palavras que escutava. Ele sempre sorria, mordia a maçã e me explicava logo depois.
- Como foi que você chegou aqui?
- Você diz: Quando fui enviado pra proteger o Kael?
- É.
- Bom, todo humano tem direito a um anjo da guarda, que necessariamente não precisa vim do mesmo lugar que vim. Alguns humanos tem como protetores animais, imagens, outros tipos de espíritos, demônios e até outros humanos. Quando lá ficaram sabendo que Mikael teria uma grande importância pra humanidade... Claro, por quê pra nós que não somos daqui, pouco importa, mas decidiram que esse homem deveria ter uma representação mais forte. Daí o Chef sorteou meu numero, 114, e eu vim pra cá. Com corpo e alma definidos, eles cuidam disso muito bem lá.
- Chef é Deus?
- Deus? - Riu alto – Não. Que Deus que nada. Chef é Chef, esse é o nome dele, Chef. O homem que me mandou pra cá, o cara que sorteou meu numero, 114, Chef.
- Era outra coisa que queria te perguntar. Você passa o tempo todo comendo essa maçã aí, o pessoal de “lá” não se incomoda não?
- E você acha que eles tão ligando? Você realmente acha que eles estão monitorando os meus passos? Que nada! Olha, como você existem milhões espalhados por ai, loucos pra matar pessoas como o Kael, mas que pra isso terão que enfrentar gente como eu. Não da pra acompanhar tudo que acontece. Nem Deus acompanha. Por exemplo: Só fiquei sabendo que você viria dez minutos antes de encontrar com você. Se a noticia tivesse chegado um pouco mais tarde não haveria sentido em avisar, haveria?
- O humano já estaria morto.
- Exatamente. E por falar em humano, olha ele ai.
Mikael saiu de casa e como usualmente fazia, foi andando para o trabalho. Sei que ele fazia isso todos os dias porque ele tinha a palavra “Fluxo” estampada no rosto. Eles parecem viver no automático quando aceitam a tal rotina. Minha mão se fechou apertada, vê-lo vivo me fez crescer uma raiva, uma aflição, um ódio. Palavras que a dez segundos atrás eu não conhecia o significado. Meus dentes rangeram, meus olhos ficaram parados, fixos no rosto do humano e a raiva estourou na cabeça. Não era noite, não era alto. Seria agora o momento de sua morte, humano. E ainda me restaria algum tempo para aprender a assobiar. Com o corpo em chamas, no sentido figurado, é claro, me levantei pra correr em direção ao humano, mas algo me segurou forte na mão e eu fiquei impossibilitado de sair do lugar.
- Espere ai, valente. Você não vai querer fazer isso aqui na frente dessas pessoas, a essa hora da manhã, vai? - Falou Demon, ainda sentado no banco da praça e segurando com uma das mão o meu braço direito. Com a outra mão, Demon segurava uma pagina de jornal. - Eu não vou deixar.
Com calma ele foi soltando meu braço. Desviou o olhar para Mikael e disse: - Ótimo, ele nos viu.
Demon usou um tom que mais tarde eu conheceria como sarcasmo.
O humano realmente nos viu, pior que isso, sorrio e veio andando em nossa direção. Senti meu interior pegar fogo, todas as coisas se embrulhavam dentro de mim, era uma mistura de ódio e uma coisa que eu ainda não tinha dado nome. O sol fazia seus cabelos loiros brilharem com força, e ele se aproximou tanto que pude ver que em seus olhos existiam algum verde brigando pra ocupar um grande espaço. Ficamos assim por um tempo, em pé, parados, apenas olhando um no olho do outro.
O anjo nos interrompeu: - Bom dia, Mikael. - Parecia estranhamente perturbado. Era fácil ler e entender o comportamento dos humanos, mas não conseguia decifrar o que fazia o anjo mudar tanto o seu temperamento.
- Ah! Olá, Demi. - Sorriu um branco sorriso o humano. - Bom dia!
Logo depois virou pra mim com o mesmo sorriso, e me perguntou se eu tinha concertado o meu instrumento. Demon mostrou-se irritado e respondeu no meu lugar: - Sim, concertou já.
- Mas já, tão cedo? - Falou o humano.
- Não quis que ele esperasse a loja abrir, Kael. Eu mesmo concertei.
- Você?
- Foi sim. - Sorriu Demon.
Eles não me deixavam falar. Não que eu quisesse falar, mas...
- E quanto foi que ele cobrou pelo serviço? - Perguntou o humano me cortando o raciocínio.
- Han? - Não entendi o que ele falou.
- Não cobrei nada, é claro. - Entrometeu-se outra vez na conversa. - Quando soube que foi com você o tal acidente, fiz questão de dar um jeito sem que ele ou você precisassem pagar nada.
- Ora, Demi. Você sempre tentando fazer minha vida parecer mais fácil. Muito obrigado, como sempre.
- E como sempre: Não a de quê.
- Bom, já que tudo está acertado eu tenho que ir. Bom dia, Demon. Bom dia, er...
O humano me esticou a mão. Um comprimento comum, mas que eu não sabia se podia faze-lo. Apertar a mão de quem eu deveria matar? Não fazia muito sentido.
- Ângelo. - Disse Demon metendo-se na conversa outra vez. - O nome dele é Ângelo, e ele não é muito de falar.
Não era mesmo muito de falar, mas naquele momento não falei porque não deixaram.
- Ótimo, aparece pra a gente ouvir a sua musica, Ângelo.
O humano bateu em meu ombro logo após dizer adues, o anjo reagiu de maneira estranha e acenou para as costas de Mikael, e eu, o demônio, senti toda raiva, ódio e confusão se despedirem do meu corpo.
- E agora o que? - Perguntei a Demon.
- Quê? Não posso deixar que fale com ele, se não ele vai confiar em você e isso facilitarias as coisas, não é?
- Não acha que as coisas já estão difíceis de mais pra mim não?
- Isso não problema meu. Temos um acordo, estou fazendo exatamente o que tenho que fazer.
- E eu estou fazendo exatamente o que não tenho fazer por causa desse nosso acordo.
- Vamos?
- Vamos? Para onde?
O anjo já havia pego o instrumento e partiu em direção ao sol. Eu o segui.
- Para onde vamos?
- Vamos ao parque.
- Mas eu tenho que...
- Você não come? Não sente fome? - O anjo, como muitos dos humanos, fazia perguntas das quais já sabia a resposta. - Você precisa comer alguma coisa. Vamos ao parque, lá tem uma lanchonete ótima.
Fomos então ao parque e a tal lanchonete ótima. Não havia nada de mais lá, só comida. Ele me pagou um sanduíche, dois pedaços enormes de pão com muitas coisas nojentas dentro. Já vi muita gente chegar no inferno por causa dessas coisas. Enquanto eu comia ele abriu a caixa preta onde estava o saxofone, pagou o sanduíche com um trocado que achou lá também e mexeu no instrumento como se já o conhecesse intimamente.
- Você sabe o que esta fazendo? - Lhe perguntei quando vi que ele não conseguia encaixar as peças no lugar onde queria.
- Coma. Deixa que eu resolvo isso aqui.
Eu podia estar matando um humano. Não, não podia. O humano estava no trabalho, no decimo sétimo andar de um prédio. O diabo do anjo não gosta de alturas.
- Humpuf. O DIABO DO ANJO. - Pensei em voz alta.
- Quê?
- Nada não.
Acabei de descobri que posso ser engraçado. Achei melhor ficar calado, já que se falasse qualquer coisa ele me mandaria voltar a comer. Comi o sanduíche todo, com gosto, ao final das contas ele poderia me levar de volta pra casa, se eu tivesse sorte. Sorte... Sorte são para os humanos. Eu poderia estar matando algum... Não, não poderia. Droga! Droga de acordo. Droga de falta do que fazer. Não entendo porquê os humanos gostam tanto de comer, isso faz com que os pensamentos lhe dominem. Os humanos parecem não gostar muito de pensar. Queria que houvesse mais algum trocado dentro da caixa do saxofone, assim eu poderia comprar um outro sanduíche e quem sabe ir pra casa mais depressa. Talvez eu desse sorte... Não! Sorte não é pra Demônio.
-Concertei! - Exclamou Demon feliz. Tinha alguma coisa em seu sorriso, que eu não sei, me paralisava. Acho que funcionava como algum tipo de escudo. Os meus pensamentos ficavam mais calmos e o tempo passava mais suavemente, sem exercer nem um peso no meu corpo humano.
- Como? Ei, suavemente é uma boa palavra?
- Sem duvida. Eu consegui encaixar as peças no lugar certo, o seu instrumento está concertado.
Não comemorei. Porquê o faria? O instrumento de nada me serve.
- De nada lhe serve? - O Anjo mais uma vez cortou meu pensamento.
- Olha, você tem que parar com isso. Eu nunca sei quando você está escutando ou não.
- Você não sabe tocar o sax?
- Claro que não! Eu o tirei de um cara que estava me irritando. Depois disso não soube mais o que fazer com ele, acabei o trazendo comigo.
- O que o cara tocava?
- Não sei, mas era horrível.
Depois o Boss me disse que o tal do Kenny G inventará tais musicas para torturar os humanos. Demônio legal o Kenny G, mas muito sofrido o coitado.
O anjo saiu outra vez na frente. Perguntei para o moço da lanchonete se “horrível” era uma boa palavra da definir uma coisa muito ruim. Ele disse que sim. Então agradeci pelo sanduíche horrível e fui atrás do Demon.
Não muito longe dali encontrei Demon sentado embaixo de uma dessas arvores cheias de maçã e tentando tirar algum som do saxofone.
- O segredo é assoprar – Disse... - Colocar as notas depois se torna fácil. Pronto, é como as palavras, elas se encaixarão depois que você souber assoprar direito.
Eu tinha mesmo que ficar na cola desse cara? Não, não tinha, mas algo me fazia ficar. Achava divertido a cara dele assoprando o instrumento sem conseguir tirar nem um som dele. Pensei em sair por ai, conhecer lugares, até a hora que o humano deixar o prédio com altura. Mas tinha realmente muita gente dando por aquele parque. Se fosse seguir o fluxo dos humanos até o Mikael outra vez, isso demoraria um certo tempo. A noite chegaria e eu não poderia mata-lo. Viver nesse mundo cheio de condições é mesmo uma coisa totalmente... Haviam horas que as palavras simplesmente não apareciam. “FON”. Ouvi aquele barulho irritante do saxofone outra vez.
- Viu? Peguei o macete, agora é só deixar fluir o ritmo.
Mesmo, ele estava certo. Consegui assoprar uma vez e já conseguia tocar notas legíveis. Viver entre eles era bem mais fácil pra nos, seres... Mais uma vez a palavra fugiu. - Melhores, seres melhores. - Pensei, dessa vez em voz baixa.
- Me veja tocar. - Ele estava realmente feliz com o seu sucesso. Estava tão cheio de si, me ameaçava com aquele sorriso a todo tempo.
Estava sentando, levantou-se e encostou no tronco da arvore. Começou a tocar, musicas completas, como se fosse profissional. Talvez ele, ser melhor, crie com mais facilidade uma intimidade com as coisas. Tocou, tocou, tocou bastante. Não era um musica chata ou de tortura, era uma coisa diferente, mais agitada, mais alegre, tinha... er... tinha... Ritmo! Nunca havia escutado aquele tipo de musica, era quente, fervorosa, parecia cubana, latina, não sei. As palavras que me faltavam logo me bombardearam, as que não me faltaram também. Meus pés batiam no chão acompanhando a musica que o anjo tocava no saxofone, minha cabeça fazia sim, aceitando o ritmo e os meus dedos estalavam como se quisessem fazer musica também.
- Viu, isso é ritmo. - Falou o anjo sem ao menos parar de assoprar o instrumento.
- Como?
- Ouça. Está vendo? É claro que está. Melhor, está sentindo.
Ele tinha essa enorme necessidade de monologar comigo. Eu adorava.
- É coisa de Deus. O meu, o seu, não importa. O que importa é que é coisa de Deus. Veja. Veja como eu tenho poder sobre você, veja. Isso é o ritmo criado para manipular os seres, e os humanos o transformou em um mero entretenimento. Veja o que posso fazer. Veja como posso atrair eles pra cá, para mim. Sinta todo esse poder que exerço sobre eles, sinta.
Demon estava eufórico. Depois tirei um tempo pra aprender o significado dessa palavra que na minha cabeça tinha acabado de inventar. Ele estava se sentindo um máximo com aquela musica. Uma multidão de pessoas que andavam pelo parque começou a se aproximar. Todos que ouviram a musica tocada pelo anjo chegaram mais perto pra ver. Seus pés batiam no chão, suas cabeça diziam sim ao ritmo, milhões de dedinhos estalavam. Tinha aqueles que mexiam quase todas as partes do corpo. E o anjo queria que eu visse o poder que ele exercia sobre aqueles humanos. Minha nossa, que patético! Eu preferia mata-los do que reinar sobre eles. Foi por isso que não passei muito tempo vestido igual ao salvador. O fluxo me dizia baixo no ouvido – aproveite a situação. - Eu não sabia bem o que ele queria dizer, mas... Abri a caixa preta onde guardava o instrumento e a coloquei aos pés do anjo. Entre aplausos e gritos um humano ou outro colocava umas moedas na caixa. Espero esta aproveitando o máximo que posso a tal situação. Pensei em quantos sanduíches eu poderia comer com todo o dinheiro arrecadado até o final do dia. Assim eu não precisaria de sorte para voltar pra casa mais cedo. Sorte... Os humanos tem sorte.
Eu estava me divertindo. Era bom, sabe, se divertir? O ritmo me fazia arriscar sorrisos, não sabia qual era a nescidade, mas mesmo assim me pegava sorrindo as vezes. Era agradável ver o anjo tendo um momento dele. Quis ser ele naquele momento. Era inveja! Olhe só, o ritmo melhorava até o meu vocabulário. Todos os humanos do parque estavam lá para escuta-lo tocar, eles batiam palmas, tentavam cantar alguma coisa, e até dançavam juntos. Estavam todos dominados... Digo, ritmados. Eu juntei os lábios e comecei a assoprar. Que tolice a minha, ele ainda não teria me ensinado a assobiar. Mas eu estava me divertindo... Ouvi alguma coisa, um barulho, um grito fraco, uma risada estranha. Todos estavam do mesmo jeito. Como? Eles não ouviram nada? O anjo me olhou e piscou o olho pra mim, me fez sorrir outra vez, mas eu queria saber o que foi aquilo que aconteceu, eu estava... er... curioso.
“ Ei, Demon, aconteceu alguma coisa.” - Pensei, mas ele não me escutou e continuou tocando para os humanos que em troca lhe jogavam algumas moedas.
Humanos idiotas, se distraem muito fácil, por isso não percebem as coisas que acontece ao seu redor. Não agüentei, fui olhar. Passei mais uma vez pela frente do lanchonete o dono me olhava com uma cara de raiva, não sei o que lhe fiz. Passei por um lago e umas casinhas de pato, umas arvores, mais arvores até que vi alguem passar correndo por mim. Esbarrou em mim e nem sequer olhou para a minha cara, mas eu vi a dele, vi o sorriso amarelo que ele carregava na boca. Eu o reconheci, homem engraçado, vivia correndo. A ultima fez que o vi correndo eles estava com o mesmo sorriso amarelo e entrando numa loja para roubar algum dinheiro e matar algumas atendentes. Mais afrente vi alguem deitado no chão, provavelmente o dono do grito fraco, possivelmente morto, e agora sem grana. Eu fui olhar seu rosto, curiosidade de saber como é que eles ficam antes de irem pro inferno. Meu corpo humano gelou, e de repente comecei a rir. Eu estava gargalhando na frente de um corpo sem vida, e tinha entendido o sorriso amarelo no rosto do rapaz que corria. Não é que o morto era o cara do saxofone. Ele mesmo, o dono do instrumento, mortinho da silva. Eu só o reconheci por causa das cicatrizes que eu mesmo lhe dei de presente. Que coisa engraçada. Espere! Deve haver mais diversão pro ai. Quem será o próximo a morrer nas mãos do moço que corre? Pior que gostei desse nome, “O moço que corre”, tanto que vou chama-lo assim pra sempre, até depois que o encontrar lá no inferno. Ainda podia se ver as costas de um casaco marrom que que corria pela mata. Mais um vez quis seguir o fluxo, dessa vez um fluxo bem mais rápido e divertido. Podem haver mais sorrisos amarelos nesse novo fluxo e quem sabe ate sorte. Não, sorte é para os tocadores de saxofone. Me peguei rindo da minha própria piada, me senti meio anjo naquele momento. Corri, corri atrás do moço que corre, fui seguindo seu fluxo no ritmo da musica que o Demon tocava. Era bastante legal sentir o vento arrastar meus cabelos longos e sujos na direção contraria, certas hora me lembrava o assobio do anjo, outras horas me lembrava do homem morto no parque. As duas coisas me faziam sorrir muito, minhas bochechas estavam até doendo e os pelos que saiam do meu rosto me fazia coça-lo. Refiz todo o caminho de volta segundo esse fluxo de sorrisos amarelos, passei por lugares que já havia visto: O trabalho do humano, a praça onde ele nos encontrou, a casa dele. Parei um instante para admirar o lugar e recordar do momento em que encontrei Demon, ainda podendo ouvir, mesmo que bem baixo a musica que ele tocava no parque.
" -Angelus. - Angelus? - Angelus! - Que nome estranho para um demônio. - Preciso comentar do seu? - Demon é só um apelido para Demetrius Divinum Cardiam. Achei que ficaria mais fácil de se pronunciar se eu abreviasse um pouco, mas não fez muita diferença não, já que lá ninguém se chama pelo nome."
Foi o que consegui lembrar naquela hora. Demetrius Divinum Cardiam, que nome estranho para um anjo.
Quando voltei meu olhar para o objetivo anterior ele não estava mais lá. Parado e ao som da musica distante que o anjo tocava, procurei acha-lo e vi que um casaco marrom havia entrando em um restaurante perto dali. Corri para o lugar, estava cheio de humanos, todos sentados e comendo. Havia muito barulho, de gente conversando, de talheres, de mastigação errada... Não encontrei o Moço que corre. Fique desapontado comigo mesmo, o deixei escapar, droga. Minha chance de diversão sumiu junto com aquele de casaco marrom e dentes amarelos. Até a musica que tocava no parque parou de tocar. Que chatice. Uma mão pesada tocou meu ombro. Me virei no susto e com violência e escutei uma voz conhecida que me disse: - Então é aqui que você almoça, hem? Somos dois.
...
