quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Acampamento Shamanico EP. 3

O homem me contou sobre o segundo rapaz, o que teria deixado o carro pra ele. Não morava em nossa cidade, o homem disse que estava nervoso, parecia querer fujir ou algo assim. Quando perguntei se ele também tria se matado o homem riu e ficou vermelho de tanto o fazer, uma veia grossa bombava em sua testa.

- Não, ele não se matou, tinha muito medo de tudo. Por isso estava fugindo. Acontece que achou aqui um lugar perfeito pra se esconder, não contava que no final da ponte haveria eu. Ficou tão apavorado o puto que saiu correndo. Tive que impedi-lo, né? Não podia deixar que ele saísse por ai contando o que viu.
- E o que aconteceu com ele? - Eu já estava rindo do final da historia antes do homem termina-la. Eu estava estranhamente rindo de tudo.
- Eu o matei, que outro jeito?

Ri alto. O homem me disse que dera um tiro em um dos joelhos do rapaz e que ele caiu sangrando e gritando alto.

- Fiquei com medo dos oficiais ouvirem. Sabe, o eco aqui é uma coisa poderosa. O segundo tiro não foi mais limpo, a bala saiu de uma orelha a outra. Infelizmente os homens ouviram o segundo disparo. Desceram aqui e tudo mais. Foi um inferno, mas não falaram comigo, eles mesmos cuidaram do corpo e das desculpas. Queriam até levar o carro, mas eu não deixei, levaram então as armas. Uma droga, viu? Nunca mais cacei alguma coisa pra comer, ele que vivem agora me mandando enlatados e mais enlatados de coisas. Eu tive que ameaça-los para eles não levarem a espada do caolho. Foi um presente, sabe?
- Não fizeram nada com você por ter matado o cara? Digo, fora ter levado suas armas e tal?
- Não, minha segurança aqui vale mais que a vida do cara. Eu o batizei de David.
- Por quê?

Tinha um CD de um desses americanos no carro dele, David Blow alguma coisa. Eu sempre preferi as fitas, mas já não fazem mais dessas hoje em dia.

- Você não poderia ter sido preso por ter matado um inocente?
- Eu já fui preso algumas vezes e nunca foi muito bom pra eles. A comida era melhor, sim, e havia mais diversão, com mais freqüência. Eu nunca me importei muito com andar, mas quando vivia na cadeira sempre quis dançar, por isso que uma vez ou outra eu peço pros federais me mandarem uns discos de musica pop, dessas americanas mesmo, dessas boas de dançar.

Eu já estava me acostumando com as contantes mudanças de assunto da parte dele, mesmo assim a curiosidade me fazia querer me perguntar mais. A maconha parecia ter me escondido o medo.

- Por quê foi preso?
- De que vez? Da primeira? - Estava com o binoculo na mão observando alguma coisa. - Foi por existir. O cara que tinha a cadeira antes de mim achou ruim que eu a tomasse dele, tive que mata-lo também. A policia achou que eu devia ficar preso por isso, mas não conseguiram me manter lá por muito tempo, não é? Lá pela quinta vez eles pararam de ligar os corpos espalhados pelas ruas à mim. Eu quase tive paz, mas as polemicas... Ah, o ser humano é uma merda! Começaram a falar coisas sobre mim e outros tipos de aborrecimento começaram a aparecer. Eu te contado todas essas coisas, você vai me contar qual é a dela?

O homem me passou o binoculo e me apontou uma direção, quando olhei pude ver a janela do quarto da Luci. A luz estava acessa e ela estava em pé em frente ao seu guarda roupas.

- Vai sair, não vai? Vai se encontrar com o Guto.

Eu ri, percebi que ele tinha dado um outro nome pra Stefano também.

- É, eles sempre saem a essa hora.
- Ele gosta dela.
- Gosta muito.
- E ela...
- Não gosta de ninguém.
- Ou de todo mundo. Por isso que a chamo de Selena, a fria.
- Só eu e o Stefano que nunca ficamos com ela.
- Eu sei.
- Na verdade, acho que ela nem sabe que eu existo.
- Foda, né? E vocês são vizinhos.
- Ela falou comigo algumas vezes, mas nada que desse pra puxar algum assunto depois.

Algo aconteceu no meu estomago. O homem se levantou.

- Sei como se sente. Bom, na verdade não, mas... Quer outra cerveja, não quer?

Aceitei. Ele abriu mais duas garrafas de cerveja quente e me deu uma. Foi até o porta malas do carro e tirou de lá um livro empobrado e com paginas amarelas.

- Vamos ver o que diz aqui sobre isso.

Folheou o livro, que parecia manuscrito, procurando alguma coisa. Algumas paginas estavam soltas, mas ele tinha muito cuidado com aquele objeto.

- Olha só: - Leu em voz alta. - No Morte nunca teve espaço para uma paixão. Não se há amor no meio de tanta escuridão e dor. O Morte não sentia nem ódio, o mais próximo de sentimento que possuía era o rancor, porem isso nunca o atrapalhou em nada, se quer o interferia. O homem era vazio e resistente como um rocha, e com a força de uma rocha ele esmagava qualquer possibilidade de sentir qualquer coisa se não dor.

Tirou os olhos do livro e olhou na direção do porta-malas do carro. Pensou.

- É uma parte muito boa desse livro.
- Que livro é esse?
- O Morte Movel.
- E é sobre o que?
- É sobre mim.



...

Arrocha tchê!