Angelus.
É calor aqui dentro e faz muito barulho lá fora, não entendo porque tanta espera, não há mais ninguém aqui. Nunca fui chamando aqui, aqui é pros rebeldes, os lutadores, aqueles que por motivo algum sentem alguma coisa que os mantem erguidos, nunca entendi os rebeldes, os lutadores. Ainda assim espero bastante, essa espera se torna meu verdadeiro inferno. Qual tortura seria pior doque me por aqui sentado a esperar, sozinhos com meus pensamentos? Pensar é um luxo que não se adequa a mim. Quem seria capaz de deixar um criatura a sós com os seus próprios pensamentos?
- Entre – Me chamou a voz lá de dentro.
Entrei, haveria de me esconder de mim mesmo em qualquer outro lugar com mais informações. Lá dentro era bem mais quente, e lá fora se escutava barulhos intensos, de gritos, gemidos...
- Qual o nome? - Perguntou o cara do balcão, aparentemente se chamava Boss.
- Angelus!
- Expulso!
- Expulso? Por quê?
- Não lhe interessa.
-É de bom tom ao menos me deixar ciente do que está acontecendo.
O Boss me olhou com uma cara de impaciente, bufou três vezes antes de recomeçar a falar.
- Você tem causado muita dor e sofrimento? - Me perguntou tentando manter os dois olhos abertos.
- Não, eu...
- Expulso! - E carimbou alguma coisa numa pilha de papeis encima da sua mesa.
Boss me deu uma pasta amarelada, havia uma foto dentro, um ser extremamente descritível, daqueles que você vê e sabe que é humano.
- Quem...
- Mikael Galati. Não precisará de mais nem uma informação. - Quanto mais Boss falava, mas me confundia.
- Mas o que...
- Um cristão aqui, um outro católico ali, mais um grupo de estudos com uns trita religiosos fanáticos. Tudo isso ele fez.
- E eu supostamente deveria...
- Mata-lo! - Boss como que regesse uma orquestra gesticulou a mão enquanto falava. - Me diga uma coisa, garoto. Gosta daqui?
- Sim.
- Então mati-o e tudo voltará a ser quente e barulhento outra vez. - Com uma das mãos, que era enormemente maior que a outra, Boss bateu na mesa e gritou: - Expulso!
Eu não tive muito tempo de pensar durante a viajem. Pensei no quanto estranho era esse sujeito Boss, e que não me recordava de ter falado com ninguém antes dele. Depois pensei que se devia matar o Mikael teria que andar entre os humanos. Pensei também que se eu estava vindo do inferno porque diabos eu estava caindo? Que castigo esse, em? Não tenho só que matar um humano, como também tenho que pensar sobre isso. Opa, o chão!
Segunda-feira.
Ep. 1. - Aprendendo com as cabras.
A queda nem foi tão horrível assim, mas sentia algumas agulhadas no corpo e ficava me perguntando para que ter um corpo se a úncia coisa que eu conseguia fazer era pensar. Estava pensando desde que entrei naquela sala. É como se meu castigo por não causar tanta dor e sofrimento tivesse começado antes mesmo de começar. - Ai! Uma fisgada na coxa. - e olha que eu ainda nem estava tentando ficar em pé. Na verdade, a temperatura do asfalto naquele momento estava extremamente agradável. Os carros faziam barulho de buzina, de pneu, de portas batendo, era como se a terra dos humanos estivesse me dando boas vindas. Eu tentei me levantar, apóie-me nas mãos, depois fiquei de quatro igual a um bezerro, depois só de joelhos podendo deixar a coluna ereta, parecia-me importante ter a coluna ereta, depois me equilibrando com mal jeito consegui ficar de pé. Não foi difícil não, tive apenas que imitar as pessoas que ali passavam. Depois vou aprender como faz esse olhar recriminador que eles tanto me lançam, quem sabe assim posso me misturar com mais facilidade. Pois é, estou oficialmente andando entre os humanos.
- Ô, filho de uma puta! Saia da frente. - Alguem de dentro de um desses carros me chingou e eu adorei. Os palavrões me lembravam de como é quente lá em casa.
Eu estava nu, não que eu ligasse, mas minha nudez estava causando muito impacto naquelas pessoas eufóricas que passavam para lá e para cá, sempre com aqueles mesmos olhares. Eu precisava me vestir, só assim poderia me misturar com mais dignidade, mas o que eu vestiria. Mais uma vez me peguei pensando. “Como supostamente alguem que foi recentemente expulso do inferno se vestira para caminhar entre os mortais?”. Lembrei do Boss, como ele se vestiria? Um terno, provavelmente. Ele iria querer fazer a linha social pra disfarçar o porco que é. Cogitei a possibilidade de me vestir igual aqueles góticos, com pulseiras, colares e anéis de metal. E eu usaria uma daquelas camisas com um mortal com a cara pintada de vermelho, caninos afiados, e dois córneos na cabeça. Acho essas camisas um barato. Mas parece que o grande segredo do disfarce é você se torna o que mais aparenta ser. Tive um ideia! Havia uma loja de tecidos a minha frente, e não foi difícil achar um pedra que pudesse destruir aquela vidraça. Foi uma sensação tão extraordinária ver aquela vidraça inteira virar milhões de pedacinhos de vidro. Entrei na loja, a porta estava aberta, não havia necessidade de quebrar a vidraça, mas foi divertido. Tinha um tecido branco ao meu alcance eu me enrolei nele, assim cobrindo a minha nudez, depois fui embora pela mesma porta que entrei. Não foi preciso quebrar mais nem uma vidraça, infelizmente.
O ser humano possui instintos, tentei seguir os meus, mesmo sabendo que não iam me levar a lugar algum, mas não havia pra onde ir quando não fazia a minima ideia de onde o Mikael Mortal estaria.
Por falar nele, tenho que bolar um plano para mata-lo. “Bom, eu posso, quando encontra-lo, me apossar de um corpo mais forte que esse e estrangula-lo”. Perfeito! O plano já foi feito, muito simples, nunca o fiz antes, já ouvi alguem comentando, mas não pode ser tão mais complicado do que manter a coluna ereta o tempo todo.
Passei por um ser, um humano que tocava alguma coisa, era um barulho irritante,harmônico, me causava náuseas. Ah, como era irritante. Pensei em começar todo aquele lance de estrangulamentos com ele, mas não era o meu foco, não ainda. Tenho pena desse senhor se depois que o Mikael estiver morto, me sobre algum tempo pra caçar esse desgraçado. O estranho é que as pessoas lhe davam dinheiro. Este senhor que tocava um saxofone deixava uma caixa preta a seus pés, provavelmente o lugar onde guardaria o seu instrumento de tortura depois, para que, as pessoas que se incomodassem com o barulho jogassem algum tipo de agrado, para que ele pudesse parar de tocar. Mas ele não parava de tocar, eu me encontrava admirado com a cara de pau de um ser humano que não tinha em nem um escrúpulo...
- Aí, Cristo! - Falou o homem do saxofone para mim. - Porquê você não multiplica todo esse dinheiro e ai, quem sabe, não te pago um sopa mais tarde.
Não foi ele me chamar de Cristo que mais me irritou, mas ele queria ver seu dinheiro multiplicado e me ofereceu apenas uma sopa, quanta bondade. Espera ai, dinheiro?! Então é isso que é dinheiro, a verdadeira força que rege o universo? Ótimo, preciso dele.
Peguei a caixa preta com todo o dinheiro dentro e sai.
- Ei, irmão. Vai pra onde com isso? - A voz rouca do senhor do sax me condenava tal qual os olhares da multidão.
Eu pensei que por ele achar que eu era seu salvador talvez não se incomodasse se talvez eu precisasse de algum dinheiro emprestado.
Ô, irmão. Trás de volta isso aqui, mané.
Não sei porque mas a palavra irmão me dava uma certa ânsia, queria cuidar para que ele nunca mais chamasse ninguém de irmão. Ele achou que tinha algum poder porque me fez voltar de onde estava para, imaginou ele, lhe devolver a caixa preta. Foi falar alguma coisa, mas antes que ele pudesses construir alguma sentença eu arranquei o saxofone do seu pescoço e o bati contra seu rosto duas vezes. O homem caiu ensangüentado no chão, todos que passavam pela calçada me olharam boquiabertos. Comecei a me sentir realmente como o salvador. Pus o sax na caixa preta junto com o dinheiro e mais uma fez sai andando, dessa vez com a estranha certeza de que ninguém iria me interromper.
De volta ao plano, com o dinheiro eu poderia me adaptar com mais facilidade, mas ainda não havia completa certeza de como deveria me vestir. Não poderia sair por ai fantasiado de Jesus Cristo, por mais confortável que as sirenes me fizessem sentir, sabia que se elas chegassem muito próximas de mim, minha missão se tornaria um pouco mais longa. Preciso de uma outra ideia, enquanto ela não aparece vou pensar no motivo que me fez trazer esse instrumento comigo. Não sei toca-lo, odiaria se soubesse, ele pesa em uma das mãos, o que torna minha caminhada um tanto quanto cansativa... Eu não posso voltar com isso para o inferno, que desculpa daria? Que trouxe isso como como um suvenir para o Boss? Imagino o que ele diria.
“ - O que é isso, garoto? Chama isso de presente? Olha, próxima vez que voltar para o inferno me traga um politico, um coroinha ou o proprio Kenny G. Não me traga uma dessa coisa sem utilidades.”
Definitivamente não poderia leva-lo comigo de volta ao inferno. Ops, ideia chegando, penso sobre o sax mais tarde.
Havia uma loja de esquina na calçada que eu seguia, entrei. Todas as atendentes me receberam com uma enorme surpresa. Coloquei a caixa preta no chão perto dos meus pés, me despi na frente as atendentes, todas elas vestidas de maneira bem curiosa, e disse: - Como vocês acham que uma pessoa como eu deveria se vestir? - Em seguida abri a caixa preta com um dos pés, e algumas notas do dinheiro que estava ali dentro começaram a voar. Dinheiro que milagrosamente havia sido multiplicado enquanto estava dentro da caixa. Quando as funcionarias viram a quantidade de notas de cinqüenta que flutuavam no interior da loja a minha nudez se tornou a segunda coisa mais interessante daquele lugar.
Então, vistam-me.
Foi fácil, como tudo que tentei conseguir desde que aqui cheguei. A loja me vestiu em menos de cinco minutos com roupas tão curiosas quanto as das pessoas que lá trabalhavam. Quando perguntei o que era tudo aquilo, me explicaram que eu havia entrado em uma loja de cultura indiana (e eu lá sabia o que era isso) e que a únicas roupas que elas tinham eram aquelas ou outras bem parecidas. Já havia gastado muito do meu tempo que não tinha importância nem uma, mas achei mesmo que já estava na hora de ir, as roupas não eram das mais bonitas, mas aparentemente eram confortáveis, achei-as frescas demais, mas já era mesmo hora de ir. Tirei todo o dinheiro que ainda havia na caixa e o entreguei a uma das atendentes. Peguei a caixa com o sax dentro e fui embora. As atendentes explodiram em alegria com todo aquele dinheiro em seu poder, eu apenas encarei a rua e pensei como é que ela me levaria ate Mikael Galati. Desde que cai aqui pude perceber que os humanos não sabem pra onde vão, eles não fazem ideia, os humanos apenas seguem um fluxo que alguns depois chamariam de destino. Talvez, se eu tentar não pensar para onde estou indo e apenas tentar seguir o fluxo como um rebanho de cabras, eu possa acha-lo mais facilmente. Segui as primeiras costas que vi. Enquanto andava mais uma vez pela calçada vi que um homem invadira a loja indiana, ele estava armado, disparou alguns tiros, matou algumas atendentes e depois fugiu com algum dinheiro. Humanos... Ganancia... Nunca entendi a relação entre essas duas coisas.
As ruas me levaram para vários lugares, mas nada nunca parecia com o lugar onde eu deveria ficar. Segui varias costas para varias direções diferentes e a essa hora o sol já estava se pondo e o saxofone já tinha deixado um dos meus braços completamente dormente, e quando eu já estava começando a achar que essa seria a primeira tarefa complicada da minha missão algo me atingiu com força. A caixa preta se abriu e o sax caiu no chão, algumas peças rolaram. Vi ali minha oportunidade de me livrar do instrumento incomodo.
- Por favor, me desculpe. Esse deve ser o seu ganha pão. Ando tão distraído ultimamente. Minha mulher me bipou, ela está gravida, sabe? Fica histérica quando não estou em casa quando ela mais precisa. Minha sorte é que trabalho perto de onde moro, assim posso sempre estar lá quando ela chamar. Mas ando tão distraído, meu Deus, me desculpe!
Que figura estranha, enquanto falava recolheu os pedaços do saxofone e os colocou junto com o instrumento inteiro dentro da caixa. Se levantou e me entregou a caixa preta.
Bom, sei como são essas coisas, mas não se preocupe, faço questão de pagar o concerto. Olha, logo ali tem uma loja de instrumentos musicais, eles fazem manutenção também. Vai lá e depois me liga que eu faço questão de pagar, tudo bem por você? Aqui esta o meu cartão. - Ele apalpou os milhões de bolsos que tinha, tempo suficiente pra eu me da conta de que eu não possuía nem um bolso. Finalmente ele achou o seu cartão, entregou e saiu apressado, dizendo: - Amanhã mesmo, me liga. Trabalho aqui nesse prédio e moro apenas a duas quadras daqui. Toma isso como garantia. Tchau, até amanhã.
Que inútil, agora tenho um instrumento quebrado e igualmente pesado.
Eu deveria liga-lo mesmo pela manhã, quem sabe lhe marcar um encontro com a morte. É claro que eu estava desconfortável com toda aquela perda de tempo, agora as ruas estavam desertas não haviam mais costas pra seguir, e nem precisaria, pois quando olhei o cartão que o sujeito me deu, li: Mikael Galate, corretor de seguros.
O meu corpo humano me dizia que eu não deveria segui-lo, não por agora. Dizia que eu devia sentar-me em algum lugar, admirar as coisas, as ruas, respirar... Eu nunca fora acostumado a respirar, de quê me servia? Alem disso, quanto mais rápido o humano fosse morto, mais depressa eu me livraria das obrigações que tinha para com aquele corpo.
Ahh... O silencio das ruas desertas na tão próxima noite... É extremamente irritante. Como não faz nem um sentido um sopro fazer mais barulho que passos.
Sopro que alias eu não fazia ideia de onde vinha, me lembrou o som do saxofone, porem agradável. Ah! O saxofone, finalmente ele começou a fazer algum sentido, mas ainda assim pesava igual.
É logico que vou segui-lo. Quem sabe até possa usar os pedaços do sax para faze-lo sofrer antes de mata-lo.
Que sujeitinho engraçado era o Mikael, me pegava rindo da sua morte antes mesmo de provoca-la. Senti então uma coisa inédita; seguir alguem de longe era bem mais divertido.
Ele dobrou uma rua, e depois parou em frente a uma casa de portão verde, que cor desagradável, apalpou mais uma vez os milhões de bolsos até achar o que procurava: - Chaves, é claro. Como um humano pode entrar em casa sem ter chaves? - Quanto mais os observava mais os achava parecido com um rebanho de cabras. Ele entrou e fechou o portão, acho que pensou que isso o livraria de todo mal, amém. Vou me sentir bastante satisfeito em mostrar pra ele que eu não preciso de nem uma chave. Andei devagar pela calçada que me guiaria até a casa de portão verde, fui quase dançando ao som daquele sopro musical que ficava cada vez mais alto e bonito. Não foi muito e eu já sentia quele corpo humano balançando o esqueleto ao som da musica ritmada que vinha de qualquer lugar. Em outra situação eu me viria preocupado, mas como faltava pouco para eu me livrar dos caprichos daquele corpo irritante, acabei não dando muita atenção pra repentinas coisas estranhas.
“- Por isso que existe uma nuvem tensa entre os humanos, eles se preocupam com coisas demais, coisas que provavelmente seriam irrelevantes, extremamente irrelevantes.” - Pensei.
De frente para a casa de portão verde eu estiquei minha mão em direção ao cadeado, meus pés ainda acompanhavam o ritmo da musica assoprada, o cadeado se abriu, eu abri o portão e me preparei pra entrar. A musica misteriosa simplesmente parou de tocar, nas ruas o silencio xarope se perpetuou, ao menos até eu ouvir:
- Hum... Não é uma boa ideia.
As ruas estavam desertas. Haviam eu, uma musica que de repente sumira, um homem em casa esperando pra ser morto e só. Mas agora me aparecera uma voz doce que me dizia que não era uma boa ideia. Me virei para checar de onde vinha a tal voz. As minhas costas havia um homem, trajava preto e segurava uma maçã estupidamente vermelha em uma das mãos. “Vermelho é uma cor legal.” Pensei. Se eu era o zero dos seres humanos, numa escala até dez ele era nove e meio. Ele sorriu e os meus olhos arderam, saiu fumaça de sua boca, e só depois pude ver seus dentes, que me pareceram bastante agradáveis. Quando olhei em seus olhos tudo parou. O tempo, o mundo, as minhas irritações, até meus pensamentos pararam. Que sençassão mais agradavel. Não senti passar, mas quando o tempo voltou a correr normalmente já era madrugada do dia seguinte. Ele riu e emitiu um som que me lembrou um pigarro.
- Run...
- PUTA QUE PARIU O JEGUE! UM ANJO, PORRA?!
Ele levou a maçã até a boca, deu uma mordida suculenta e ainda mastigando se apresentou.
- Demon, prazer.
...

Arrocha tchê.