Tudo começa com uma historia. Minha historia. A historia do dia em que decidi sair de casa. Eu tinha dezesseis e estava convencido, faria exatamente a mesma coisa de sempre.
- Pai, posso sair?
- Pergunte a sua mãe.
- Mãe, posso sair?
- Fale com o seu pai.
- Fale com o seu pai.
Peguei minha bicicleta, o bornal e parti.
Se nem um dos dois teve argumentos necessários pra me manter em casa, para mim, não haveria problemas na hora de ir embora. Eu também nunca achei quele bom motivo pra ficar em casa.
Nunca houve lugar algum pra ir, a cidade era pequena e se você quisesse sair dela teria que faze-lo pelo mesmo lugar que se entra. Havia sim uma alternativa de se esconder, uma velha ponte perto da floresta. A ponte começava em solo firme e claro, tinha apenas um poste de iluminação na entrada, há uns dez metros de distancia podia-se ver onde a neblina começava. Era sim um bom lugar de se esconder, depois que a ponte se partiu em duas e a neblina começou a tomar conta do outro lado da cidade, toda a população se mudou para o centro, a parte baixa da cidade, como chamam. O lugar nunca fora grande, pareceu bem menor depois da divisão de terras. As pessoas que ali permaneceram morreram todas, ou simplesmente nunca mais se ouviu falar. Dizem que mais uns quarenta metros pra dentro da neblina a ponte se acabava e que todo o resto da ponte que ligava a cidade baixa a alta fora totalmente destruído. “- Será possível só o acesso aéreo.” Disse o prefeito na época, mas eu não me lembro muito bem das coisas, era muito criança quando tudo aconteceu. O mais engraçado sobre a ponte são as historias que contam de como ela foi destruída. Infinitas vezes ouvi minha vó contar historias sobre uma tribo que vivia nas montanhas, hoje a parte alta da cidade, e que foram expulsos de lá quando a cidade começou a crescer. O que minha vó dizia era que essa tribo voltou pra recuperar suas terras e destruiu a ponto na tentativa de fazer isso da forma mais pacifica possível. A tribo nunca foi vista, antes ou depois da ponte ser destruída, ou até mesmo construída. Os mais jovens na época diziam que um homem, um assassino, fugindo da policia veio se esconder aqui, e vendo que a neblina estava tomando conta da parte alta da cidade resolveu destruir a ponte e se esconder por lá. Com certeza era um ótimo lugar para se esconder, pra sempre se assim desejasse. Existem registros de que esse misterioso homem existiu, saiu até foto no jornal. Um homem feio, estragado, com vários ferimentos pelo corpo, arrastando uma cadeira de rodas em direção a ponte. Ele passou em frente a nossa casa, minha mãe ficou apavorada. Na metrópole só se falava desse assassino. No entanto, quando o homem foi visto caminhando pela cidade a ponte já havia sido destruída e todos moradores já haviam sido transferidos.
E aqui estou eu, frente a frente com a misteriosa ponte. Não vim aqui descobri seus segredos, vim apenas me esconder. Tinha a permissão de quem pouco ligava e não tinha motivos nem um para não faze-lo. Pedalei pela ponte, dez metros depois e eu não enxergava mais nada, não havia um só lugar para onde olhasse, a neblina estava sempre densa. Pedalei sem muita velocidade por mais ou menos vinte minutos. Havia medo em mim, a qualquer hora a ponte poderia acabar e eu despencaria de uma altura que nunca soube qual era. A neblina piscou. Julguei como cansaço, sono, sei lá. Ela piscou outra vez, e outra, e mais outra. Nessa terceira vez a neblina ficou amarelada e menos densa. Consegui sentir o vento fresco das colinas vindo de uma direção que eu não sabia exatamente qual era. Continuei pedalando e observei a cortina amarelada ir se dissipando aos poucos. Olhando pra cima e um pouco ao longe eu podia vim de onde vinha a cor amarelada da neblina. Era um poste. Um outro poste por traz de todas aquelas nuvens. Desci da bicicleta e a carregando comecei a caminha cuidadosamente observando tudo a minha volta. Podia ver formas através da neblina. “- Será o fim, onde a ponte se partiu?” Pensei. As formas foram ficando nítidas e cada vez mais nítidas, as nuvens foram desaparecendo, eu podia ver as montanhas, podia ver o poste e sua lampada piscando, podia ver... podia ver tudo. Havia um carro parando antes do fim da ponte, os faróis estavam ligados e uma das portas aberta. Era um Chevrolett, desses bem antigos, vermelho, botino e em bom estado. Por traz do carro podia se ver a cidade que foi deixada pra traz, casas, lojas, igreja, tudo. Lá não havia luz, mas a lua a iluminava bem essa noite. A outra parte da ponte fora realmente destruída. Em baixo de mim um pequeno córrego, de aguas limpas. Era bonito ver o reflexo do céu em suas aguas. Havia lixo perto do velho Chevrolett, não entendi muito bem como aquilo fora parar ali. Larguei a bicicleta no chão e caminhei ansioso até o carro para ver o que tinha dentro, ao chegar perto um helicóptero rompeu o silencio da noite naquele lado da cidade , passou rasgando o céu e iluminando com um canhão de luz algumas partes da cidade morta. Ouvi um barulho vendo da parte de baixo da ponte, como se alguem arrastasse alguma coisa incrivelmente pesada em minha direção. Quis ver de onde vinha, mas tudo ecoava nas paredes das montanhas, era impossível identificar de onde vinham os sons. Barulho de garrafas de vidro se batendo, muitas garrafas de vidro. Olhei pra traz e nada, corri para um lado da ponte e olhei para baixo, apenas o córrego por lá. Corri para o outro lado da ponte e quando olhei só pude ver o reflexo da lua. Quando cogitei a possibilidade de estar ficando louco, uma caixa vermelha, dessa de plastico de guardar garrafas de vidro, apareceu na frente, atrás do carro. Me aproximei, e logo vi um braço se apoiando na ponte, vindo de baixo, de onde a ponte termina. Depois veio o outro braço e seguido dele um homem.
- Ah! Você chegou. - Disse ele tirando a sujeira das roupas surradas. - Demorou tanto assim pra tomar coragem de atravessar a neblina.
O helicóptero passou de volta com o canhão de luz focado no córrego dessa vez.
- Esses bostas! Eles nunca vão parar com essa enganação. - Falou pegando uma das garrafas que havia dentro do engradado. A abriu no dente, cuspiu a tampa fora e tomou um gole. - Você quer?
... 

Arrocha Tchê!
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