- Não, obrigado! - Falei tentando não transparecer o medo que sentia.
- Ora, mas é claro que quer. Onde vai conseguir a coragem que precisa pra morrer? Toma. - Arremessou uma das garrafas de vidro no ar, a segurei com as duas mãos. - Isso nos poupará algumas horas.
Ninguém havia falado em morte. Ele falou! Via me matar? Ficava cada vez mais difícil esconder o medo. Decidi não falar.
-Anda, bebe! - Ordenou o homem.
Obedeci, não sabia exato o que se passava pela cabeça daquele sujeito, mesmo assim não o queria ouvir falar de morte outra vez. Olhei o nevoeiro que formava um denso muro de nuvens as minhas costas. Sabia que se quisesse poderia voltar, mas eu não queria. Abri a cerveja com a ajuda da barra da minha camisa e tomei um gole. Estava mesmo quente e ruim. Tentei não fazer careta para não provocar o homem, mas não consegui.
- Horrível, eu sei. - Falou o homem enquanto puxava uma caixote de madeira para sentar-se. Sentou, descalçou os pés e encostou-se no carro. Tomou toda a cerveja da garrafa de um gole só e depois reclamou. - Nessa velocidade que está não vamos sair daqui hoje. Esses maricas, nunca tiveram a decência de me trazer uma cerveja gelada. - Abriu uma nova garrafa, coçou a barba e me encarou fixamente nos olhos.
Ele tinha olhos horríveis, eram de um obscuridade estranha, avermelhados, fundos em sua face. Seu rosto todo era magro e sujo, muito sujo.
- Eu não entendo essa onda de vocês. Até entendo, mas eu não acredito que tantos outros como você sejam tão corajosos a ponto de... Por quê, em? Qual é o grande motivo? Eu perguntei aos dois outros, mas eles também não souberam me responder.
Eu não fazia ideia do que o homem estava falando, apenas sabia que haveriam conseqüência se não o respondesse.
- Bebe logo isso ai. - Gritou ele. - Acha que eu tenho tempo pra vocês suicidas? - Levantou-se e saiu mancando até a porta malas do carro. - Tempo eu tenho, o tempo todo do mundo, mas me falta a paciência. Isso eu não tenho. - Abriu o porta malas do carro e tirou de lá uma corda grossa. - Isso vai ajudar. - Mancou até o outro extremo da ponte e sentou-se ao lado de uma pedra que, de vista, parecia muito pesada. - Essa maldita perna, não se acostuma nunca. Só essa também, a outra é como se estivesse nova. É castigo, só pode ser castigo. Você tem sorte garoto. Não achei que você passaria pelo nevoeiro, por isso nem trouxe a carga toda de lá debaixo. Mas você tem sorte, ainda tinha umas dessas cordas guardadas no carro. - Amarrou com muita força uma das pontas da corda na pedra. - Essa era pra mim, mas existem muitas outras dessas lá embaixo, eu pego quando precisar.
Tentei prestar muita atenção nos atos do homem, na esperança de que pudesse entende-lo, mas não fui capaz. Claro, a ideia de morte não saia da minha cabeça, mas... Ainda não encontrara uma explicação qualquer para as cordas, pedras e cervejas.
A cerveja esquentava na minha mão fria de medo. E ele sempre me olhando. Olhava a cerveja, depois olhava pra mim. “ - Beba isso.” Ele dizia. “É pra dar coragem.” Para quê tanta coragem? Não quis mais pensar. De um gole só bebi toda a cerveja.
- Quer outra? - Perguntou o homem.
- Não vejo no que me ajudaria.
- Ahhh. Você é dos fortes. Engraçado, nunca lhe vi fumando bagulho. - Levantou-se mais uma vez, dessa vez sem mancar, foi até o porta malas outra vez. - Até que fim um decente. Você tem sorte, garoto. Guardei essa aqui pra uma ocasião especial. - Ergueu um saco plastico cheio de mato dentro.
- O que é isso? - Curioso.
- Não se assuste, é que eles sempre mandam, e eu não gosto de fumar sozinho. - Sentou-se mais um vez no caixote de madeira e encostou-se no carro vermelho. Pegou uma cerveja e a arremessou pra mim. - Bebe outra ai. Eu vou enrolar o verdinho aqui. - Sorriu alegremente.
Não pensava mais no que fazer, abri a cerveja e a tomei de um gole só, como fiz com a outra. Joguei a garrafa no chão e vi a minha bicicleta. Ela estava lá, jogada. Pensei em pega-la, sair correndo daquele lugar, mas eu já estava um pouco tonto. Lembrei que minha bicicleta por muito tempo tinha sido a minha mais próxima companheira, o mais próximo amigo. E agora tinha quele homem, me oferecendo cerveja e enrolando um baseado. Tinha cabelos vermelhos, o homem. Era ruivo e só agora tinha notado. Devia ser o tom de vermelho escuro que disfarçava. Eu nunca fumei um baseado, mas sempre tive vontade de saber como era. Minha bicicleta, por muito tempo fomos só eu e ela.
- Vai sentir falta, né? - Chamou minha atenção enquanto lambia a seda. - Vai deixa-la pra mim?
- Hen?
- A bicicleta. Vai deixa-la pra mim? Eu não sei andar, mas que se foda. Não deve ser mais difícil que uma moto ou um carro.
- Não é.
- Então, vai deixa-la pra mim?
Não sei responder metade das perguntas que ele me faz. Caminhei até uma das bordas da ponte e olhei para baixo. Um pequeno riacho passava por ali. Imaginei que a agua estaria muito fria para um mergulho.
- Você não vai pular agora, vai? - Mais um vez o homem me falou enquanto enrolava a maconha. - Acabei de terminar. Venha, sente aqui.
Não fui.
- Que é? Não vem? - Coçou a barba. - Olha se vai pular é melhor fazer isso do outro lado. Ai não é tão fundo, vai quebrar uma perna ou morrer lentamente de frio. É doloroso, você não quero sofrer tanto assim, quer?
Ergueu a mão em que segurava o baseado e me sorriu alegre. Pela primeira vez vi um brilho timido em seus olhos. Caminhei até ele, bem devagar. Ele ficou animado e foi logo acendendo a maconha. Sentei no chão ao lado dele e também encostei-me no carro. Acendeu o baseado e deu a primeira tragada. Passou pra mim.
- Eu nunca soube o porquê. Eles nunca me disseram. Você ai me contar o seu motivo?
Coloquei o cigarro de maconha na boca e puxei forte. Me engasguei com a fumaça e comecei a tussi descontroladamente. Ele riu, riu descontroladamente.
- Forte esse, não é? Não é como as outras que você e seus amigos fumavam. Essa os oficiais que me deram. - Ele parecia bem satisfeito em estar conversando com alguem. - Aliás, onde é que vocês fumavam o bagulho. Eu nunca consegui ver você fumando daqui.
Me ver, como assim?
Levantou-se rápido, abriu a porta do carro e apanhou um binoculo.
- Veja, lá. Bem ali. - Colocou o binoculo em minhas mãos e me apontou uma direção. Depois pegou o bagulho e sentou-se mais uma vez. - Vamos acabar logo com isso.
Olhando pelo binoculo na direção que me apontara eu pude ver, através de uma leve fumaça a cidade baixa. Ela toda. Vi minha casa, vi minha mãe sentada em frente a TV, vi o meu pai lendo alguma coisa na mesa da cozinha, vi as duas casas vizinhas. Stefano mora ali, Luci mora na casa seguinte. A pergunta que o homem me fez, eu não entendi, mas se pudesse responder eu diria que foi por causa do Luci.
- Não se tem muita coisa pra fazer por aqui, observa-los é meu hobbie. Assim como você faz com aquela menina que mora ao seu lado. Não é divertido? É como uma novela, mas no volume baixo, muitas vezes eu tive que criar diálogos em minha cabeça. E o nome dela, em? Qual é o nome dela? Bom, não faz diferença mesmo. Ela sempre será Selena, a fria.
- O nome dela é Luci.
O homem olhou para os dois lados procurando algo.
- Não faz diferença, já disse.
Me passou o baseado e pegou o binoculo. Eu tentei tragar mais uma vez, a fumaça queimou minha garganta e outra vez tussi. Mais uma vez ele riu. Segurando o binoculo disse: - Tente outra vez. Essa é forte. Vamos, tente. - Eu tentei e senti a ardência descer até meus pulmões dessa vez, tussi, mas bem menos dessa vez.
- Você conseguiu. Olha ali. - Me passou o binoculo e pegou o baseado da minha mão.
Olhei na direção que ele me mostrou, mas não entendi o que ele queria que eu visse. - Mas pra cima. - Disse ele. A única coisa que eu consegua ver era a antiga casa de Erico. Os pais dele se mudaram quando ele sumiu.
- Ele foi o primeiro. - Falou o homem cuspindo a fumaça do cigarro. - Achou que a vida não fazia sentido porquê os pais não compreendiam suas escolhas. Era viado, você sabia disso? Bom, eu sabia. Toda vez que os pais iam trabalhar o Paulo Sérgio fazia um visita.
- Paulo Sérgio?
- Nomes não são importantes. Olhe!
Empurrou meu olhos nos buracos do binoculo e moveu minha cabeça um pouco para a direita.
- Vê a casa verde? É ali que ele mora, o Paulo Sérgio. Chorou quase duas semanas depois que cancelaram as buscas. Esses viados, não sei não. Dias depois já recebia visitas de outro cara, um mais velho que ele. Nunca dei um nome pra esse cara. Ele aparece pouco na cidade.
Erico era gay? O seu relacionamento com a mãe e o pai não era mesmo bom, mas eu nunca soube que ele e o... Quando o Erico sumiu a cidade parou. Organizaram uma comissão de busca na cidade inteira. A policia ajudou, mas nunca acharam ele, nem o corpo dele.
- Está me dizendo que quando o Erico saiu de casa veio para cá? - Perguntei a o homem que admirava a fumaça que fazia. Antes que ele começasse a responder peguei o cigarro da mão dele e traguei.
- Foi. - Respondeu. - Fez exatamente como você. Estava discutindo com os pais, provavelmente sobre o fato de gostar de empurrar outros garotos pra dentro. Saiu batendo a porta e veio direto pra cá. Quando vi que ele cruzara a esquina da ponte desci pra pegar mais bebida, mas ele demorou bastante pra enfrentar a neblina. Passou dois dias inteiros do lado de lá, só atravessou quando ouviu as sirenes da policia chegando perto. Fechou os olhos e passou correndo, se eu não o segurasse ele teria caído direto no rio.
Dei mais uma tragada e tossi. Ele sempre se divertia quando eu o fazia.
- Continuando... Ele desmaiou, sei lá por quê. Quando acordou não quis beber a bebida que lhe trouxe, chorou mais uma vez e se atirou da ponte.
-Ele se matou?! - Não sei ao certo, mas acho que senti uma pequena vontade de rir.
- Foi, aquele viado! Caiu nas pedras, bateu a cabeça, morreu na hora. Viado! Os oficiais iriam me fazer tantas perguntas. Amarrei a cintura dele em uma dessa pedra grande e o atirei no rio. Evitei uma dor de cabeça futura.
- Por isso nunca acharam o corpo?
Aconteceram apenas três em minha cidade. O sumiço de Erico, um nevoeiro que devorou a cidade alta e um homem com uma péssima aparência cruzando a cidade arrastando uma cadeira de rodas. Comecei a rir.
- É mesmo engraçado, não é? - Falou o homem. - Mas eu nunca soube porquê ele quis se matar, nunca tive a oportunidade de conversar com ele. O segundo me trouxe esse carro. Eu adorei ter um lugar onde eu pudesse guardar minhas coisas.
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