quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Carta aberta à Trenzalore, de Trenzalore.




Carta aberta à Trenzalore,
de Trenzalore.








-          - Oi, alô. Alô! Essa coisa velha ainda funciona? Alô... Alô! Ah, sim! Legal. Enfim, agora, todos vocês podem me escutar. Habitantes de Trenzalore. Desculpe ter hakeado o antigo sistema de vocês... Em minha defesa, nunca achei que isso fosse realmente funcionar, mas aqui estamos.  Já faz um tempo, han? Um ano inteiro ou quase isso. Um ano que minha nave perdeu completamente o controle de si mesma e teve que parar aqui para repousar. Era isso ou nada! Quando cheguei aqui de nada sabia. Todos vocês eram estranhos e eu tive que fingir tanta coisa pra poder tentar ser aceito. Eu não sabia que todo aquele teatro no começo de tudo nunca fora necessário com vocês. Trenzalore, quem diria? Trenzalore... Ainda parece que foi ontem que desci da minha nave cambaleando e senti o primeiro toque da branca neve que quase nunca para de cair por aqui. Nunca senti tanto frio... Na barriga. Quando alguns de vocês se aproximaram de mim, me perguntando se estava tudo O.K, eu fiquei tão nervoso que quase cheguei a desmaiar. – Mas tenho que ser forte! – Pensei comigo mesmo. – Se esses forem iguais aos outros, brutos e covardes... Não parecerei fraco prante a eles!  Mas as poucas pessoas que haviam em Trenzalore naquele dia não me pareceram hostis. Muito pelo contrario. Um deles me estendeu a mão e disse: - Posso ajudar?  Eu que não gostava de ajuda. Eu, velho e chato, que sempre preferiu fazer todas as coisas sozinho. Naquele dia eu precisava mais de ajuda do que de ar pra respirar. – Posso EU ajudar? – Perguntei tentando não parecer muito pedante ou misterioso. Aquele pequeno planeta distante parecia ser a ultima das minhas paradas, a ultima fagulha de esperança... Não poderia ser rude com os habitantes de lá. Não poderia deixar meu humor áspero e constrangedor aparecer assim, sem aviso. Mas pra minha surpresa o moço que me estendeu a mão esbouçou um simples e belo sorriso no rosto e me apontou em direção à uma pequena casa não muito longe das arvores onde minha nave havia caído. – Lá você poderá descansar e ficar mais confortável. Depois falaremos sobre a ajuda que um pode dar ao outro. – Falou o moço de sorriso simpático. – Isso foi um sim? – Pensei enquanto tentava me levantar sem mostrar tanta dor. – Como é possível? Um sim tão simples depois de tantos não severos? Esse lugar era mesmo diferente. - Me levaram até o casebre e me deixaram repousar, mas eu não dormi muito naquele dia. Não pelo frio de Trenzalore, que me era até confortável, muito menos pelo medo que ainda tinha de que as coisas não dessem certo, mas porquê minha cabeça não parara de imaginar quantas possibilidades aquela mão estendida me oferecera naquele momento. Era um universo inteiro de coisas que podíamos fazer com aquele planeta tão simples e promissor. Eu poderia transformar aquilo em MEGA lugar. Minha cabeça estava em chamas de tanta coisa que havia pra pensar, que nem notei que horas haviam passado e que eu não repousara absolutamente nada. O moço de sorriso gentil bateu na porta e entrou com uma bandeja na mão. – Quer chá? – Ele perguntou. Eu não consegui conter minha ansiedade e comecei a falar sem parar: - Grande planeta vocês tem aqui! Como se chama? Cara, você sabe o que  da pra fazer com isso? Quantas coisas a gente pode construir? O que você acha de construirmos uma coisa juntos? O que você acha da gente botar em pratica algumas ideias que tive durante a noite? Era noite não era? Não sei dizer! Mas elas são muito boas, as minhas ideias, vai melhorar muito isso aqui. Acredite! – O moço sorriu mais uma vez e perguntou de novo: - Quer chá?  - E mesmo antes que eu pudesse responder serviu-me uma xicara de chá que cheirava à uma manhã de chuva. Empurrou a xicara para perto de mim e disse: - Beba. Vai se sentir melhor. – Bebi o chá achando que depois de um gole ou dois a gente poderia voltar a conversar. Um gole. – O que acha? – Perguntei sem parecer colocar pressão. – Acha uma boa ideia?Trenzalore! – Ele respondeu. – Esse é Trenzalore! E por enquanto estamos bem com nossa equipe de construção, não precisamos de mais gente nela. – Eu senti todo o meu animo se desprender do meu corpo em uma velocidade estupenda. O brilho dos meus olhos se ofuscaram e o peso dos meus braços aumentaram terrivelmente. Já não podia mais levantar a xicara de chá. Minha nave ainda estava quebrada, meus outros sonhos se encontravam do mesmo jeito. Eles me ajudaram, mas eu não posso ajudar. Era isso que eu fazia, antes de... Era só o que sabia fazer, ajudar. Trenzalore, ultima parada! E depois de Trenzalore não haveria mais nada. Talvez eu devesse ter seguido viajem. Talvez eu não devesse ter tentando salvar minha nave... – Mas deve haver alguma coisa que possa fazer. Algo simples, algo que vocês precisem e ninguém esteja fazendo. Eu quero me fazer útil enquanto tento concertar minha nave. – Falei derrubando com peso a xicara de chá na mesa. – Bom, sempre tem. – Falou o moço. – Você pode nos ajudar com a base dessas casas. É um trabalho mais simples, mas não menos importante. E você pode ficar a vontade com elas já que ainda são novas e ainda não precisam de tanta atenção. Isso é claro se você estiver intere... – Eu faço! Quando posso começar? – O moço tomou um susto do pulo que dei de empolgação. Sim! Outro sim em menos de um dia. Esse lugar era mesmo diferente. – Eu farei o que você me pediu, e quando terminar tiro um tempo pra cuidar da minha nave. – Estendi a mão para ele esperando um intenso aperto de mão. Ele calmamente recolheu o conjunto de chá e colocou tudo de volta na bandeja, se levantou lentamente e apertou minha mão sem força. – Fique o tempo que precisar.


-         - Vocês ainda estão comigo, pessoas de Trenzalore? Isso foi só como eu cheguei aqui. Tem mais! Deixa ver... Onde foi mesmo que parei? Ah, a base das casas. Bom, como o moço disse elas não precisavam mesmo de muita atenção, era tudo muito novo, a frequência com que elas eram checadas nem precisavam ser intensas, mas eu queria mostrar serviço. Na primeira oportunidade que tive já dei o meu melhor pra que pudesse chamar atenção para a minha colaboração. – Nossa, isso é legal! – Era o que eu queria que todos pensassem, mas ainda agi com cautela, não queria assustar ninguém com meu humor complicado. Da segunda vez que ajudei a concertar outra coisa daquelas, já deixei a minha marca. Uma piadinha ali, uma observação simples aqui e BAM! Alguns habitantes de Trenzalore já acenavam pra mim na rua um ou outro até sorria. Eu estava quase lá... Quase me sentindo em casa! A minha nave ficava cada vez mais fácil de arrumar, já que eu a estava organizando aos poucos. Entre o terceiro e quarto trabalho, alguém do pequeno planeta, que já estava ficando um pouco maior, veio perguntar meu nome e de onde vinha. – Pode me chamar de R. – Disse ao rapaz. – E quanto tempo pretende ficar? – Me perguntou. – Um pouco mais! – Eu geralmente ficaria grilado com essa pergunta, mas não o fiquei. O rapaz era boa praça e não parecia se importar com minha presença. Eu sorri, ele sorriu e saiu andando. Eu o observei ir porquê foi estranho. Era a primeira pessoa com quem conversava fora o moço de sorriso calmo e simpático. O rapaz que falara comigo a pouco, foi até um painel de madeira onde havia o numero de habitantes do planeta Trenzalore, apagou o ultimo numero e acrescentou um novo. Depois olhou pra mim e mandou um legal com um enorme sorriso no rosto. Agora, eu também fazia parte de Trenzalore. Naquela mesma noite, quando voltava pro meu casebre depois de ter dado uns bons retoques em minha nave, encontrei com o moço no caminho. Ele parecia bem feliz. – Como foi o dia? – Perguntou pra mim. – Gratificante! – Respondi apontando para a placa de habitantes com uma chave de fenda quase sônica. – Pois é. – Disse ele, e completou: Olha, eu estou indo até a casa maior, vão ter outras pessoas lá. Você gostaria de vir? – É claro que gostaria, mas fiquei meio receoso em responder assim na lata. – Ah, é? – Respondi pensativo. – O que fazem lá?Nós conversamos! Conversamos sobre tudo que gostamos. – Eu sorri e o segui até a casa maior. Aquele era o lugar que eu queria conhecer desde que cheguei ao planeta. Quando ele abriu as portas da casa, me deparei com um enorme salão de possibilidades, com pessoas diversas com peculiaridades diversas. Tinha esse garoto com um sorriso lindo e voz estranha que gostava de falar sobre roupas e cantoras pop, havia no canto uma garota de cabelos lisos e muito quieta, ela era linda. Uma outra garota cujo os olhos pintados me chamaram muita atenção, nunca vi tanta paixão em um olhar, e o rapaz que falara comigo mais cedo também estava lá, usando um enorme óculos e entretido com algum aparelho tecnológico na mão e fones nos ouvido. – Bom, é aqui que nos reunimos. – Falou o moço. – Estamos sempre por aqui, falando sobre qualquer coisa ou sobre tudo, depende do dia. E você faz parte disso agora. Você está sempre convidado. – Não há palavras que descrevam o que eu senti naquele momento. É como se minha nave tivesse se concertado sozinha e eu já pudesse voar outra vez. Não havia mais sentido dizer que eu havia caído naquele planeta. Eu o encontrei ou ele me encontrou. Nós nos encontramos e lá eu pousei. Trenzalore era sim outra vez.

-             - O Salão da casa maior se tornou meu lugar favorito. Sempre que estávamos lá, novas pessoas apareciam, outras simplesmente voltavam pra casa. Mas Trenzalore não parava de crescer. Uma vez uma moça nova que apareceu por lá, com uma boca vermelha e uma voz penetrante falou: - Esse é o planeta refugio, os que estão aqui, aqui estão porquê não suportam mais a mesmice que se passa por lá. – Ela falou isso tão bem que ficou e nunca mais partiu. Essa mesma moça tem um sorriso tão encantador e as vezes canta para aquecer nossos corações junto com a lareira. Outro ser curioso e recorrente no salão, é esse garoto novo mas com uma cara de mal humorado que adora falar de esportes. No começo ele me assustava um pouco. Ele era muito direto nas coisas que dizia, mas um dia o chamei pra conversar e que cara legal ele era e que bom coração ele tinha. Aqui não demorar até você notar o quão importante são as pessoas. Trenzalore sempre me surpreendendo. O moço calmo e com sorriso simpático, tirava um momento ou outro pra contar uma piada e todos riamos mesmo que ela fosse horrível. Ele ria também admirando o que havia construído. Eu passava maior parte do tempo pensando: - Cara, como é bom fazer parte de tudo isso, mas eu quero mais. Eu quero poder desafiar essas pessoas para que, comigo, elas conquistem mais e transformem esse planeta no maior planeta refugio que existe. - Um outro rapaz que frequentava bastante o salão sumiu e eu fiquei pensando: - Poxa, ele era talvez a pessoa mais parecida comigo aqui. O que aconteceu? – Meu medo era que Trenzalore também se tornasse uma coisa “de passagem” para mim. Eu não queria que fosse “de passagem”. Havia encontrado em Trenzalore novos amigos, um lar! Trenzalore, minha ultima parada!

-       -  Bom, o que acha disso? Queremos que você opine sobre as coisas também. – O moço falou pra mim. – Mas eu? – É. Você faz parte disso agora, lembra? – O moço tinha aparecido com umas ferramentas na mão querendo construir uma nova casa, onde novas coisas aconteceriam. Eu nunca tinha visto uma ideia tão louca e boa como essa nos planetas que já havia passado. – Eu não entendo disso. – Falei. – Mas posso dizer que com uma casa desse tamanho, outra naves vão acabar caindo aqui.Isso não é ÓTIMO? – Falou o moço com uma empolgação que eu nunca tinha visto nele antes. Os olhos calmos daquele rapaz que me estendera a mão no dia em que encontrei Trenzalore, agora eram duas estrelas vivas de tanto brilho. A construção da nova casa foi uma coisa que comoveu todo o planeta. Aqueles que apenas olhavam, começaram a participar mais ativamente. Alguns dos planetas vizinhos mudaram para cá, e até uma garota tímida de olhos que falam mais que a boca e que mora em sua própria nave, sempre passa dias e noites em Trenzalore nos agraciando com a sua presença real. Estamos construindo mais casas agora, estamos crescendo de uma maneira que nenhum de nos podia prever. E eu, menos velho e menos chato, já estava se referindo ao lugar como meu! – Quero ter minha própria casa, Moço. – Falei pra ele. – Adoro o casebre onde moro, adoro as reuniões na casa maior, mas quero ter meu próprio espaço. Um lugar que seja tão meu, quanto nosso. Posso subir minhas próprias paredes? – Ele abriu um grande sorriso e respondeu de um jeito moleque: - Demorou! – Por vezes eu tinha certeza que o moço teria rejuvenescido junto comigo e junto com todas as pessoas que por ali passava ou ficavam. Subir aquelas  paredes não foi fácil. Demorou até moldar a casa da maneira que eu achava que devia ficar, mas eu não deixei me abater durante o processo. Hoje eu tenho minha casa, onde todos podem entrar e usufruir das vantagens, em Trenzalore. Outras grandes figuras desembarcaram no nosso planeta, e hoje o planeta é tão deles quanto nosso. Esse garoto misterioso apareceu trazendo consigo uma imensidão de conhecimento sobre tudo e uma sabedoria plena sobre as coisas que gostávamos de falar.  Ele era tão sábio e misterioso que por muitas vezes me causou extrema inveja, até eu descobrir que era muito mais vantagem aprender com seus conhecimentos do que bloqueá-los. Hoje é um dos seres na casa maior que mais paro pra ouvir.  De uma galáxia muito distante me veio um garoto de olhos puxados que nos trazia magica. Ele fazia com que rabiscos desconexos ganhassem vida no papel. Era incrível! O ameaçador Gigante da Voz, que de ameaçador não tinha nada. Era na verdade o gigante mais doce e mais humano que já encontrei em minhas viagens, com um coração tão grande quando o seu talento. E por ultimo uma garota de cabelos cacheados tão doce, de voz serena, mas que, segundo as antigas lendas, pode te matar com o poder da mente. Trenzalore se tornou a casa de todas essas figuras, e mesmo que não tenhamos muito em comum, o que temos em comum nos mantem fortes e unidos. Amor por esse planeta, amor por esse universo.

-        - Um ano depois, Trenzalore! Um ano... E eu ainda estou aqui! Você se tornou um amigo, você se tornou meu abrigo, minha casa, minha família! É de você que eu lembro nas minhas viagens, é pra você que tenho minhas melhores ideias e é só por você que vale a pena hakear esse velho sistema pra te dizer o quanto sou grato por você ter me estendido a mão naquele dia. Minha nave ainda precisa de alguns reparos, mas ela já ganhou novo controle e nova direção. Isso tudo porquê vocês me deram um lugar seguro onde eu pudesse tomar conta melhor dela. Eu não estou dizendo Adeus, eu estou dizendo obrigado por todas coisas que construímos juntos e pela oportunidade das coisas que ainda vamos construir. Trenzalore agora é parada obrigatória até pros meus amigos desajustados que veem de outra realidade alternativas. Obrigado a todos pelo carinho, peixes e amigos.

-        - Ao moço que se permitiu criar uma coisa tão fantástica quanto esse planeta, meu obrigado e parabéns mais sincero. A imensidão de coisas incríveis que há em você não cabem nesse planeta ou universo. A combinação de coisas fantásticas que você e todos nós criamos juntos é exatamente o calculo que levou 13 encarnações de Doutores para resolver.  

-       Trenzalore, minha ultima parada. Depois de Trenzalore, mais nada!



The Doctor Me.


Arrocha Tchê