Carta aberta à Trenzalore,
de Trenzalore.
- - Oi, alô. Alô! Essa coisa velha ainda funciona?
Alô... Alô! Ah, sim! Legal. Enfim, agora, todos vocês podem me escutar.
Habitantes de Trenzalore. Desculpe ter hakeado o antigo sistema de vocês... Em
minha defesa, nunca achei que isso fosse realmente funcionar, mas aqui
estamos. Já faz um tempo, han? Um ano
inteiro ou quase isso. Um ano que minha nave perdeu completamente o controle de
si mesma e teve que parar aqui para repousar. Era isso ou nada! Quando cheguei
aqui de nada sabia. Todos vocês eram estranhos e eu tive que fingir tanta coisa
pra poder tentar ser aceito. Eu não sabia que todo aquele teatro no começo de
tudo nunca fora necessário com vocês. Trenzalore, quem diria? Trenzalore...
Ainda parece que foi ontem que desci da minha nave cambaleando e senti o
primeiro toque da branca neve que quase nunca para de cair por aqui. Nunca
senti tanto frio... Na barriga. Quando alguns de vocês se aproximaram de mim,
me perguntando se estava tudo O.K, eu fiquei tão nervoso que quase cheguei a
desmaiar. – Mas tenho que ser forte!
– Pensei comigo mesmo. – Se esses forem
iguais aos outros, brutos e covardes... Não parecerei fraco prante a eles! Mas as poucas pessoas que haviam em
Trenzalore naquele dia não me pareceram hostis. Muito pelo contrario. Um deles
me estendeu a mão e disse: - Posso
ajudar? Eu que não gostava de ajuda.
Eu, velho e chato, que sempre preferiu fazer todas as coisas sozinho. Naquele
dia eu precisava mais de ajuda do que de ar pra respirar. – Posso EU ajudar? – Perguntei tentando
não parecer muito pedante ou misterioso. Aquele pequeno planeta distante
parecia ser a ultima das minhas paradas, a ultima fagulha de esperança... Não
poderia ser rude com os habitantes de lá. Não poderia deixar meu humor áspero e
constrangedor aparecer assim, sem aviso. Mas pra minha surpresa o moço que me
estendeu a mão esbouçou um simples e belo sorriso no rosto e me apontou em
direção à uma pequena casa não muito longe das arvores onde minha nave havia
caído. – Lá você poderá descansar e ficar
mais confortável. Depois falaremos sobre a ajuda que um pode dar ao outro. –
Falou o moço de sorriso simpático. – Isso
foi um sim? – Pensei enquanto tentava me levantar sem mostrar tanta dor. – Como é possível? Um sim tão simples depois
de tantos não severos? Esse lugar era mesmo diferente. - Me levaram até o
casebre e me deixaram repousar, mas eu não dormi muito naquele dia. Não pelo
frio de Trenzalore, que me era até confortável, muito menos pelo medo que ainda
tinha de que as coisas não dessem certo, mas porquê minha cabeça não parara de
imaginar quantas possibilidades aquela mão estendida me oferecera naquele
momento. Era um universo inteiro de coisas que podíamos fazer com aquele
planeta tão simples e promissor. Eu poderia transformar aquilo em MEGA lugar.
Minha cabeça estava em chamas de tanta coisa que havia pra pensar, que nem
notei que horas haviam passado e que eu não repousara absolutamente nada. O
moço de sorriso gentil bateu na porta e entrou com uma bandeja na mão. – Quer chá? – Ele perguntou. Eu não
consegui conter minha ansiedade e comecei a falar sem parar: - Grande planeta vocês tem aqui! Como se
chama? Cara, você sabe o que da pra
fazer com isso? Quantas coisas a gente pode construir? O que você acha de
construirmos uma coisa juntos? O que você acha da gente botar em pratica
algumas ideias que tive durante a noite? Era noite não era? Não sei dizer! Mas
elas são muito boas, as minhas ideias, vai melhorar muito isso aqui. Acredite!
– O moço sorriu mais uma vez e perguntou de novo: - Quer chá? - E mesmo antes
que eu pudesse responder serviu-me uma xicara de chá que cheirava à uma manhã
de chuva. Empurrou a xicara para perto de mim e disse: - Beba. Vai se sentir melhor. – Bebi o chá achando que depois de um
gole ou dois a gente poderia voltar a conversar. Um gole. – O que acha? – Perguntei sem parecer colocar pressão. – Acha uma boa ideia? – Trenzalore! – Ele respondeu. – Esse é Trenzalore! E por enquanto estamos
bem com nossa equipe de construção, não precisamos de mais gente nela. – Eu
senti todo o meu animo se desprender do meu corpo em uma velocidade estupenda.
O brilho dos meus olhos se ofuscaram e o peso dos meus braços aumentaram
terrivelmente. Já não podia mais levantar a xicara de chá. Minha nave ainda
estava quebrada, meus outros sonhos se encontravam do mesmo jeito. Eles me
ajudaram, mas eu não posso ajudar. Era isso que eu fazia, antes de... Era só o
que sabia fazer, ajudar. Trenzalore, ultima parada! E depois de Trenzalore não
haveria mais nada. Talvez eu devesse ter seguido viajem. Talvez eu não devesse ter
tentando salvar minha nave... – Mas
deve haver alguma coisa que possa fazer. Algo simples, algo que vocês precisem
e ninguém esteja fazendo. Eu quero me fazer útil enquanto tento concertar minha
nave. – Falei derrubando com peso a xicara de chá na mesa. – Bom, sempre tem. – Falou o moço. – Você pode nos ajudar com a base dessas
casas. É um trabalho mais simples, mas não menos importante. E você pode ficar
a vontade com elas já que ainda são novas e ainda não precisam de tanta
atenção. Isso é claro se você estiver intere... – Eu faço! Quando posso
começar? – O moço tomou um susto do pulo que dei de empolgação. Sim! Outro
sim em menos de um dia. Esse lugar era mesmo diferente. – Eu farei o que você me pediu, e quando terminar tiro um tempo pra
cuidar da minha nave. – Estendi a mão para ele esperando um intenso aperto
de mão. Ele calmamente recolheu o conjunto de chá e colocou tudo de volta na
bandeja, se levantou lentamente e apertou minha mão sem força. – Fique o tempo que precisar.
- - Vocês ainda estão comigo, pessoas de Trenzalore?
Isso foi só como eu cheguei aqui. Tem mais! Deixa ver... Onde foi mesmo que
parei? Ah, a base das casas. Bom, como o moço disse elas não precisavam mesmo
de muita atenção, era tudo muito novo, a frequência com que elas eram checadas
nem precisavam ser intensas, mas eu queria mostrar serviço. Na primeira
oportunidade que tive já dei o meu melhor pra que pudesse chamar atenção para a
minha colaboração. – Nossa, isso é legal!
– Era o que eu queria que todos pensassem, mas ainda agi com cautela, não
queria assustar ninguém com meu humor complicado. Da segunda vez que ajudei a
concertar outra coisa daquelas, já deixei a minha marca. Uma piadinha ali, uma
observação simples aqui e BAM! Alguns habitantes de Trenzalore já acenavam pra
mim na rua um ou outro até sorria. Eu estava quase lá... Quase me sentindo em
casa! A minha nave ficava cada vez mais fácil de arrumar, já que eu a estava
organizando aos poucos. Entre o terceiro e quarto trabalho, alguém do pequeno
planeta, que já estava ficando um pouco maior, veio perguntar meu nome e de
onde vinha. – Pode me chamar de R. –
Disse ao rapaz. – E quanto tempo pretende
ficar? – Me perguntou. – Um pouco
mais! – Eu geralmente ficaria grilado com essa pergunta, mas não o fiquei.
O rapaz era boa praça e não parecia se importar com minha presença. Eu sorri,
ele sorriu e saiu andando. Eu o observei ir porquê foi estranho. Era a primeira
pessoa com quem conversava fora o moço de sorriso calmo e simpático. O rapaz
que falara comigo a pouco, foi até um painel de madeira onde havia o numero de
habitantes do planeta Trenzalore, apagou o ultimo numero e acrescentou um novo.
Depois olhou pra mim e mandou um legal com um enorme sorriso no rosto. Agora,
eu também fazia parte de Trenzalore. Naquela mesma noite, quando voltava pro
meu casebre depois de ter dado uns bons retoques em minha nave, encontrei com o
moço no caminho. Ele parecia bem feliz. – Como
foi o dia? – Perguntou pra mim. – Gratificante!
– Respondi apontando para a placa de habitantes com uma chave de fenda quase
sônica. – Pois é. – Disse ele, e
completou: Olha, eu estou indo até a casa
maior, vão ter outras pessoas lá. Você gostaria de vir? – É claro que
gostaria, mas fiquei meio receoso em responder assim na lata. – Ah, é? – Respondi pensativo. – O que fazem lá? – Nós conversamos! Conversamos sobre tudo que gostamos. – Eu sorri e
o segui até a casa maior. Aquele era o lugar que eu queria conhecer desde que
cheguei ao planeta. Quando ele abriu as portas da casa, me deparei com um
enorme salão de possibilidades, com pessoas diversas com peculiaridades
diversas. Tinha esse garoto com um sorriso lindo e voz estranha que gostava de
falar sobre roupas e cantoras pop, havia no canto uma garota de cabelos lisos e
muito quieta, ela era linda. Uma outra garota cujo os olhos pintados me
chamaram muita atenção, nunca vi tanta paixão em um olhar, e o rapaz que falara
comigo mais cedo também estava lá, usando um enorme óculos e entretido com
algum aparelho tecnológico na mão e fones nos ouvido. – Bom, é aqui que nos reunimos. – Falou o moço. – Estamos sempre por aqui, falando sobre
qualquer coisa ou sobre tudo, depende do dia. E você faz parte disso agora.
Você está sempre convidado. – Não há palavras que descrevam o que eu senti
naquele momento. É como se minha nave tivesse se concertado sozinha e eu já
pudesse voar outra vez. Não havia mais sentido dizer que eu havia caído naquele
planeta. Eu o encontrei ou ele me encontrou. Nós nos encontramos e lá eu
pousei. Trenzalore era sim outra vez.
- - O Salão da casa maior se tornou meu lugar
favorito. Sempre que estávamos lá, novas pessoas apareciam, outras simplesmente
voltavam pra casa. Mas Trenzalore não parava de crescer. Uma vez uma moça nova
que apareceu por lá, com uma boca vermelha e uma voz penetrante falou: - Esse é o planeta refugio, os que estão aqui,
aqui estão porquê não suportam mais a mesmice que se passa por lá. – Ela
falou isso tão bem que ficou e nunca mais partiu. Essa mesma moça tem um
sorriso tão encantador e as vezes canta para aquecer nossos corações junto com
a lareira. Outro ser curioso e recorrente no salão, é esse garoto novo mas com
uma cara de mal humorado que adora falar de esportes. No começo ele me
assustava um pouco. Ele era muito direto nas coisas que dizia, mas um dia o
chamei pra conversar e que cara legal ele era e que bom coração ele tinha. Aqui
não demorar até você notar o quão importante são as pessoas. Trenzalore sempre
me surpreendendo. O moço calmo e com sorriso simpático, tirava um momento ou
outro pra contar uma piada e todos riamos mesmo que ela fosse horrível. Ele ria
também admirando o que havia construído. Eu passava maior parte do tempo
pensando: - Cara, como é bom fazer parte
de tudo isso, mas eu quero mais. Eu quero poder desafiar essas pessoas para
que, comigo, elas conquistem mais e transformem esse planeta no maior planeta
refugio que existe. - Um outro rapaz que frequentava bastante o salão sumiu
e eu fiquei pensando: - Poxa, ele era
talvez a pessoa mais parecida comigo aqui. O que aconteceu? – Meu medo era
que Trenzalore também se tornasse uma coisa “de passagem” para mim. Eu não
queria que fosse “de passagem”. Havia encontrado em Trenzalore novos amigos, um
lar! Trenzalore, minha ultima parada!
- - Bom, o que
acha disso? Queremos que você opine sobre as coisas também. – O moço falou
pra mim. – Mas eu? – É. Você faz parte
disso agora, lembra? – O moço tinha aparecido com umas ferramentas na mão
querendo construir uma nova casa, onde novas coisas aconteceriam. Eu nunca
tinha visto uma ideia tão louca e boa como essa nos planetas que já havia
passado. – Eu não entendo disso. –
Falei. – Mas posso dizer que com uma casa
desse tamanho, outra naves vão acabar caindo aqui. – Isso não é ÓTIMO? – Falou o moço com uma empolgação que eu nunca
tinha visto nele antes. Os olhos calmos daquele rapaz que me estendera a mão no
dia em que encontrei Trenzalore, agora eram duas estrelas vivas de tanto
brilho. A construção da nova casa foi uma coisa que comoveu todo o planeta.
Aqueles que apenas olhavam, começaram a participar mais ativamente. Alguns dos
planetas vizinhos mudaram para cá, e até uma garota tímida de olhos que falam
mais que a boca e que mora em sua própria nave, sempre passa dias e noites em
Trenzalore nos agraciando com a sua presença real. Estamos construindo mais
casas agora, estamos crescendo de uma maneira que nenhum de nos podia prever. E
eu, menos velho e menos chato, já estava se referindo ao lugar como meu! – Quero ter minha própria casa, Moço. –
Falei pra ele. – Adoro o casebre onde moro,
adoro as reuniões na casa maior, mas quero ter meu próprio espaço. Um lugar que
seja tão meu, quanto nosso. Posso subir minhas próprias paredes? – Ele
abriu um grande sorriso e respondeu de um jeito moleque: - Demorou! – Por vezes eu tinha certeza que o moço teria rejuvenescido
junto comigo e junto com todas as pessoas que por ali passava ou ficavam. Subir
aquelas paredes não foi fácil. Demorou
até moldar a casa da maneira que eu achava que devia ficar, mas eu não deixei
me abater durante o processo. Hoje eu tenho minha casa, onde todos podem entrar
e usufruir das vantagens, em Trenzalore. Outras grandes figuras desembarcaram
no nosso planeta, e hoje o planeta é tão deles quanto nosso. Esse garoto
misterioso apareceu trazendo consigo uma imensidão de conhecimento sobre tudo e
uma sabedoria plena sobre as coisas que gostávamos de falar. Ele era tão sábio e misterioso que por muitas
vezes me causou extrema inveja, até eu descobrir que era muito mais vantagem
aprender com seus conhecimentos do que bloqueá-los. Hoje é um dos seres na casa
maior que mais paro pra ouvir. De uma
galáxia muito distante me veio um garoto de olhos puxados que nos trazia
magica. Ele fazia com que rabiscos desconexos ganhassem vida no papel. Era
incrível! O ameaçador Gigante da Voz, que de ameaçador não tinha nada. Era na
verdade o gigante mais doce e mais humano que já encontrei em minhas viagens,
com um coração tão grande quando o seu talento. E por ultimo uma garota de
cabelos cacheados tão doce, de voz serena, mas que, segundo as antigas lendas,
pode te matar com o poder da mente. Trenzalore se tornou a casa de todas essas
figuras, e mesmo que não tenhamos muito em comum, o que temos em comum nos
mantem fortes e unidos. Amor por esse planeta, amor por esse universo.
- - Um ano depois, Trenzalore! Um ano... E eu ainda
estou aqui! Você se tornou um amigo, você se tornou meu abrigo, minha casa,
minha família! É de você que eu lembro nas minhas viagens, é pra você que tenho
minhas melhores ideias e é só por você que vale a pena hakear esse velho
sistema pra te dizer o quanto sou grato por você ter me estendido a mão naquele
dia. Minha nave ainda precisa de alguns reparos, mas ela já ganhou novo
controle e nova direção. Isso tudo porquê vocês me deram um lugar seguro onde
eu pudesse tomar conta melhor dela. Eu não estou dizendo Adeus, eu estou
dizendo obrigado por todas coisas que construímos juntos e pela oportunidade
das coisas que ainda vamos construir. Trenzalore agora é parada obrigatória até
pros meus amigos desajustados que veem de outra realidade alternativas.
Obrigado a todos pelo carinho, peixes e amigos.
- - Ao moço que se permitiu criar uma coisa tão
fantástica quanto esse planeta, meu obrigado e parabéns mais sincero. A
imensidão de coisas incríveis que há em você não cabem nesse planeta ou
universo. A combinação de coisas fantásticas que você e todos nós criamos
juntos é exatamente o calculo que levou 13 encarnações de Doutores para
resolver.
-
Trenzalore, minha ultima parada. Depois de
Trenzalore, mais nada!
The Doctor Me.
Arrocha Tchê


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