Penúltima.
...
Lembrei outro dia daquela carta que te escrevi.
- Qual?
A mais bonita na minha opinião.
- A mais bonita de todas?
Essa!
- Sei qual é.
Foi horrível, a gente tinha acabado de se acertar, finalmente estamos namorando e eu já tinha que viajar. Passamos quase um mês longe um do outro, quase nem agüentei. No primeiro dia, ainda no hotel, tirei meu caderno da bolsa e comecei a te escrever, como havia prometido. Te escreveria todo dia, e nas quinta-feiras postava as cartas, mas sempre me pegava confuso sobre o que escrever, nada parecia bom o suficiente para descrever o que eu achava da nossa distancia. Pensei em te escrever todo os clichê que me viam a mente, mas eles me faziam parecer tão vazio de sentimentos. Logo no primeiro dia, ainda no hotel não consegui te escrever, rabisquei algumas coisas sobre saudade na folha do caderno, mas o telefone tocou e era você me perguntando como foi a viajem. Falamos por mais de uma hora sem parar, minha orelha queimava, mas não era nada que pudesse me fazer pensar em desligar. Depois que nos despedimos voltei ate a mesinha e tentei te escrever algo sobre saudade, mas a criatividade havia sumido, assim como a saudade daquele primeiro dia.
Os dias foram passando e a única coisa que eu conseguia botar no caderno eram rabiscos de como eu sentia sua falta perto de mim, nada que fosse bom demais para ser postado, a primeira quinta-feira e nada de cartas. Você uma vez me perguntou sobre as cartas que eu prometi que escreveria e eu pareci muito sincero quando te disse que não tinha muito tempo para escrever, mas era mentira, passava horas sentado em frente ao meu caderno pensando no quanto eram tolas as coisas que passavam na minha cabeça, nunca nada era bom demais para você. Uma vez escrevi um e-mail, perguntando quando você entraria no MSN e te falando os horários que eu estaria no hotel pra você poder ligar. Foi o mais próximo que consegui chegar de uma possível carta. Mais uma quinta-feira e nada de postagens.
Bom, as coisas não estavam boas, na terceira semana eu poderia te escrever, estava com a saudade a flor da pele, os telefonemas tinham se reduzido a apenas um ou dois dias, mas dessa fez eu não conseguia evitar achar que as coisas que escrevia eram bobas demais, ou poéticas demais, românticas demais... Havia acabado a tinta da última BIC que me restava e eu ainda não havia escrito nada, pior ainda, outra vez já era quinta-feira.
Na quarta semana não nós falamos, li o teu e-mail dizendo que a semana seria corrida por causa de alguns testes, onde você também perguntava sobre as cartas que nunca chegaram. Bom, as cartas nunca foram escritas, como chegariam? Vi potencialidade naquele momento, na pressão da falta de tempo e saudade, eu poderia obrigar meu cérebro a pensar em te escrever algo digno de você, com um giz de cera. Foi o fim, e foi fácil. Devia ter pensado nisso muito antes, mandaria três mil cartas como o mesmo conteúdo, pensei mesmo em fazer isso, mas não o fiz. Pensei também que ainda era segunda, e que se postasse a carta naquele dia, você a receberia na quinta-feira. Não postei a carta na segunda.
Era quinta-feira e você estava fazendo sei lá o que quando ouviu algue bater a sua porta, perguntou quem era e ouviu de lá de fora alguem gritar – Carteiro! Bom, você desceu rapidamente as escadas do seu quarto e foi direto a porta, pensando que o tal carteiro te traia noticias minhas. Quando você abriu a porta pude ver sua expressão de surpresa, e acho que você pode ver a minha num mix de alegria, emoção e satisfação. Eu estava em pé a sua porta, segurando em uma das mãos buquê de flores ( isso mesmo, flores), e na outra uma carta.
- A carta que nunca veio?
A carta que me trouxe aqui!
Você pegou a carta e a abriu nervosamente. Usei a coisa mais clichê e sincera de todas, nada de folhas e folhas te dizendo como foram os meus dias no Rio de Janeiro, e sim duas palavras que expressavam com exatidão tudo que eu estava sentindo naquele momento e tudo o que senti desde que parti.
Não ficou difícil descobrir o que é, ficou?

Arrocha "Eronya" Tchê.
2 comentários:
com certeza, esse não é um amor de adolescência ou aquela paixão que acaba com o tempo. com certeza, o que o personagem sentia pelo outro nessa história é verdadeiro amor. é o sentimento verdadeiro que você enfrenta apesar de tudo, mesmo com o sofrimento e a dor da distância que há com eles dois, o amor nunca deixa de acontecer, de crescer e se renovar a cada dia. parabéns pelo texto, amei! *-*
=)
agora me sinto realmente muito bem!
Arrocha Tchê!
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