Eis o que acho sobre o tal “Beijão”. Quando era mais moleque
eu simpatizava bastante com as causas homossexuais, como parada gay, passeatas
e outros eventos GLS, mas depois de um tempo eu comecei a notar umas coisas
estranhas nas percepções das pessoas. Alguns chamaram de vitória o fato dos
eventos serem melhores aceitos pela sociedade, eu chamo de adaptação. Hoje vejo
a parada gay como um freakshow pra hetero assistir. Não considero isso vitória alguma.
E ainda tem gente que me usa o argumento de que é um dia em que você pode ser
quem você é sem ser julgado. Olha só. Eu posso ser, e sou, quem eu sou e quero
ser todos os dias, e se alguém me julga por isso não é problema meu. Tenho o
direito de ser e querer qualquer coisa da minha vida todos os dias e todas as
horas desse ano, desse mundo, dessa vida. Por isso tenho um serio problema em
acreditar que procuramos igualdade e respeito. O tal do beijo coletivo é uma ótima
iniciativa em minha opinião, não pela eficácia do ato, que não vejo nem uma, mas
pela comoção pública, no sentido de existirem pessoas dispostas a movimentar
mentes e ideias. Mas o ato em si, não me faz crer em bons resultados. Quando você
faz algo que queira chocar a massa ou o publico, você se distancia deles, por
que o que choca é o diferente e eu não entendo como se pede igualdade
mostrando-se diferença. Minha solução? Eu sempre acho que a solução é educação.
E não acho que educar seja empurrar conteúdo goela a baixo, ao menos não a
melhor maneira. Se eu fosse expulso de um bar por estar demonstrando afetos ao
meu parceiro eu iria argumentar. Claro que não iria adiantar de nada. Meu
dinheiro da entrada de volta e pronto, um outro lugar pra ir. No final de
semana seguinte, eu iria para o mesmo lugar, com o mesmo parceiro, fazer as
mesmas coisas. Respeitando os limites de cada um, é claro. Mais uma vez
expulsos, mais uma vez tentando argumentar e nada, mais uma vez na rua e em outro
lugar. No final de semana seguinte mais uma vez, estaríamos no mesmo bar,
fazendo as mesmas coisas, até que os proprietários entendessem que o fato de eu
estar ali, trocando caricias com o meu parceiro não lhes representava ameaça
alguma, ou as pessoas ao redor. Tendo dito isso, voltamos ao tal beijo coletivo.
Os donos do bar estão errados, correto! Rola uma comoção intelectual numa rede
social hipócrita, acontece o beijão e outras pequenas explosões de caráter duvidoso
de pessoas cujo o juízo foi posto em lugares errados. O que temos de resultado?
Na melhor das hipóteses os donos do bar com medo do que os gays podem fazer.
Então queríamos ser respeitados e acabamos sendo temidos. Pra mim são duas
coisas completamente diferentes. Acho que essa postura agressiva deve ser
tomada com outras coisas maiores, como corrupção e mesmo assim não sou a favor
do quebra quebra, sou a favor do voto
não dado e da comoção para a conscientização disso. O mesmo senti outro dia
quando andando de carro pelas ruas e uns jovens gritando contra a corrupção “Se
concorda, buzine”. Não! Se concorda, desce do carro, se junta a gente, faz um
cartaz, se mostra interessado. O som da buzina não atraia as pessoas, irrita,
agride... É o som do atraso, do estres... Voltando ao Beijo Grande. Temidos e
iludidos com a falsa vitória (na minha opinião) frequentamos o bar, nos
beijamos e sorrimos. Hahahahaha! Enquanto os donos do bar nos olham com seus
olhares negativos. Fizemos o pior. Alimentamos o seu ódio. E eles vão chegar em
casa e vão reclamar em voz alta “que os viados aquilo, que os viados são uns
filhos da puta, que os viados só sabem fazer confusão, baixaria...” . Anos mais
tarde, seus filhos, herdeiros do bar, estarão nos expulsando dos seus bares por
um ódio que nem eles sabem de onde veio. Educação! Eu acho que o tal beijo
possa ser uma coisa legal se a gente não o fizesse para atingir alguém e sim,
se a gente o fizesse para atingir qualquer alguém. Eu o vejo acontecer em uma
praça, próximo a uma avenida, com uma promessa de uma banda boa tocando logo
depois, e heteros, gays, amigos, amigas...PESSOAS... Todas, que suprissem o
mais legal dos sentimentos pelo outro, começassem a se beijar. E que os passantes
vissem e que tirassem fotos e que se juntassem a nos. Isso, na minha cabeça,
teria ensinado alguma coisa à algumas pessoas. E no futuro a menina que se
assustou com o grande beijo na praça vai contar esse acontecimento pro seu
filho com naturalidade, e seu filho vai abrir um bar onde pessoas são aceitas e
ponto. Mas isso sou eu e minha cabeça maluca. Só pra terminar eu sou contra
boates gays e coisa do tipo. Pra mim se existe uma boate gay não há razão pra
não existir uma boate hetero, onde por sua vez, gays seriam vistos com olhos
estranhos. Acho que somos nós que estamos nos descriminando, no sentido de que
botamos um grande rotulo cor de rosa em todas as nossas conquistas pra nos
vangloriar. Isso nos distancia. E isso distancia pra mim os sonhos de igualdade.
PS: Se você leu isso e percebeu que eu não faço a mínima ideia
de qual é o verdadeiro proposito do tal beijaço, me desculpe, isso não apenas
pensamentos desabafados e não devem ser levados a serio, a não ser que tenha
plantado algo de bom em você.
Ravi Aynore
Arrocha Tchê!
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