quarta-feira, 5 de junho de 2013

Quarta de quintas.

He will knock four times.

1 – Ele me chamou pra jantar, mas não é disse que vou falar agora. Os pais dele iriam passar o domingo inteiro no interior resolvendo problemas com um casa de veraneio, e ele achou que seria uma boa ideia me preparar alguma coisa pra comer. Eu não achei o mesmo. Eu tenho esse medo de que estaremos na casa dele qualquer dia, quando os pai dele vão chegar e vão de decapitar e me castrar. Não nessa ordem. Mas antes que pudesse chegar domingo, sábado aconteceu. Em casa, de boas como sempre. Recebo uma dessas ligações que geralmente é melhor ignorar, mas eu não o fiz. Amigo Jorge, um cara muito me bacana me liga pra a gente comer pizza, beber cerveja e conversar. Eu, ele e um casal de gente bonita. “Ah, eu não sei” – Pensou Ravi. Até que o Jorge disse: - Estou pagando. Ok, to chamando o taxi. Eu se quer me arrumei pra tentar ficar bonito. Labareda Grill. Eu não gosto de ir nesse lugar, cheio de muita maquiagem nas meninas e muitas camisas polos nos meninos, mas as palavras “Tô Pagando” ecoavam na minha cabeça. Quando eu cheguei estava vazio e eu me empanturrei de pizza e cerveja até ficar lá pra pouco bêbado. Não que eu seja exagerado nessas coisas, mas é que logo ia começar a tocar o que parecia ser um sertanejo demoníaco e ninguém queria ficar lá ver isso acontecer. Não eu, não Jorge legal, nem o casal de pessoa bonitas. Então a gente adiantou um pouco a diversão pra não ter que suportar o sertanejo do capeta. Homem mija quando bebe. Essa é a verdade milenar ensinada pelos grandes guerreiros de outrora. Eu fui ao banheiro e depois de fazer o que devia ser feito, fiquei, como de praxe, me olhando no espelho.
- Ei.
Escutei uma voz meio fanha.
- E ai?
O menino de 17 anos, o mesmo que me chamara pra jantar pouco antes, estava em pé segurando a porta do banheiro com a mão. Nós no cumprimentamos cordialmente. Eu com um pouco mais de empolgação do que gostaria.
- Eiiii. E ai. Ta fazendo o que por aqui?
E o abracei.
Era pra ser um abraço mas amistoso e menos carinhoso, mas sabe quando você sente o rosto de alguém encostar no seu e todas as coisas começam a fazer mais sentido? Nem eu, mas enfim. É só que o cabelo dele cheirava tão bem, e o tecido da camisa polo dele era tão bom, e o desenhos dos seus ombros e das costelas nas costas, ele é tão magrinho e tão durinho que é quase como se eu estivesse dando voltas em mim mesmo. O abraço, não mais amistoso, virou um afago muito estranho para aquele momento em um banheiro masculino. Ele só sorriu enquanto eu ficava cada vez mais constrangido.
- Então, tá de pé o jantar amanhã, né? – Perguntou ele.
- Rapaz, eu não sei. Meu cachorro tá meio doente.
- Eita, Ravi, é serio?
- É.
Ele me viu triste pela primeira vez. E ficou calado na minha frente, olhando pra baixo sem saber como reagir,
- Então... – Falei. – Ele ta na clínica de qualquer maneira, não vai sair amanhã. Só segunda.
- Vá lá em casa, então. Se não quiser jantar a gente conversa, joga vídeo game, sei lá...
Ele sempre fala nesse vídeo game. Foi a primeira coisa que ele sugeriu que fizéssemos juntos, mas eu nunca nem vi a cor desse troço. Acho que é só mais um código pra sexo.

- Não. Você vai cozinhar pra mim, você mesmo disse.
- Então tá.
- É. Que horas?
- Umas nove. Pra dar tempo.
- Ok. Nove então.

Era uma despedida. Uma conversa de “até logo” e “tchau”. Ele avançou em minha direção com calma e eu armei um outro abraço, de pau já duro, diga-se de passagem, mas ele me deu um beijo na boca. Era pra ser um selinho, desses discretos, o que fazia todo sentindo para uma despedida, mas eu demoro pra perceber essas coisas. Lasquei um beijo tão babado e alfinetado pela minha barba que ainda não se identificou da cor que tem, que até ele se assustou. Senti a mãozinha branca dele apertar meu braço numa intensidade que podia dizer: - “Aqui não!” ou “To sentindo seu pau duro.”. Foi rápido, intenso, babado e alfinetado. Ele limpou a boca, sorriu e fez sinal pra sairmos. Lá fora eu perguntei com quem ele tava.
- Uns amigos. – E apontou pra mesa.
Tinha um cidadão de polo rosa que ficou olhando pra gente com uma cara meio estranha. Ele se despediu de mim outra vez, dessa vez com um aperto de mão e batidinha nas costas e foi até sua mesa. Eu fiz o mesmo e sentei de costas pra ele, mas não antes de perceber a aurea negativa do menino de polo rosa que me olhava com olhos de reencarnação de lucífer. Noiei com isso por 12 minutos e depois ignorei. Quis ficar e tolerar o capeta do sertão tocando no Labareda, mas achei melhor não. Fui pra casa de um amigo e lá eu noiei mais um pouco com o cara de rosa e olhos infernais, mas depois dormi.

2 – Como é bom passar o dia com minha amiga Jess, jessy, Jéssica. Almoço, caranguejo, carne, roupa... Tudo regado a muita cerveja e gasto exacerbado de dinheiro. A gente conversou bastante também, inclusive sobre esse rapaz de 17 anos, com quem venho tendo relações sexuais. E esse velho questionamento que sempre rola. “Vocês vão namorar?”. E eu, sempre na de: “Pra quê?”. Mas me fez pensar, sabe? Será que ele quer namorar? Será que ele está achanado que essa relação entre a gente está caminhando pra algum lugar que eu ainda não sei onde é? Noiei! Principalmente pelo fato de achar que poderia estar negligenciando os sentimentos do cara. Passei o começo da noite pensando nisso e vomitando a comida que comi a tarde porque tinha que fazer sobrar espaço para a comida que ele estava fazendo pra mim. Lá pras tantas, nove e meia ou algo assim, ele me liga dizendo que já estava passando pra me buscar. Jantar, eu disse? Nada parecido. Ele fez uma macarronada que realmente estava deliciosa, mas pra quem se arrumou pra uma coisa chique à luz de velas, o jantar foi mais dois pratos de macarronada no quarto dele, vídeos no youtube, conversa divertida e uns beijinhos. Melhor jantar ever, posso falar. Ele me mostrou um vídeo aleatório no youtube, achando que estaria me apresentando novidade, mas o que ele me mostrou foi só uma música do meu musical favorito, sendo executada no meu show favorito. Como não me apaixonar, certo? Nos escovamos os dentes juntos e fizemos sexo no banheiro, tomamos banho juntos e ele me ofereceu sobremesa. Pudim de leite que estava até bom, apesar de muito desastroso. E foi ai que o silencio caiu e não em Tranzelor. (Referência Doctor Who, assim como o título.) Eu, sem rodeio perguntei:

- Você pensa em se envolver seriamente comigo?

Ele congelou.

- Ei. É sério isso? Porque eu não estava procurando uma coisa fixa. Não que isso aqui seja passageiro, é só que eu não tinha pensando ainda nessa coisa de namoro. Eu acho que não estou preparado pra assumir uma responsabilidade assim, Ravi.
- Não, não. Eu sei. Eu não quero me envolver assim também, eu só tava perguntando pra saber o que você pensava e talz.

Mas era tarde. A cozinha ficou mais fria que o pudim. Caiu-se o climão. Eu não tinha percebido o quão constrangido ele ficou. Parecia um relacionamento acabando. Tensão rodeada de aparelhos eletrodomésticos. Eu realmente não estou procurando um relacionamento. Eu não sei nem porque comecei essa conversa.
O climão prosseguiu por mais 12 segundos, o que pareceu semanas. Eu prensei em prolonga-lo falando me menino da camisa de goiaba que me olhava com ódio no labareda, mas achei melhor parar de bancar o panaca naquele instante. Ele interrompeu o silencio.
- Eu gosto de ficar com você, sabe...

E engasgou. Eu molhei uma colher no caldo gelado do pudim e passei na boca dele. Ele sorriu e eu o beijei.
- Eu só estava perguntando. Eu não queria... Certo?
- Certo. – Disse ele, e me beijou com grude.

A gente ficou no carinho no meio do clima que ainda restava. Os dois pensando. Eu pensando em como sou idiota. E ele pensando: “Isso é o pau dele que tá duro?”. Provavelmente pensando isso. Depois de um tempo a gente se despediu e eu voltei pra casa andando. Ele não mandou Whatzup como geralmente faz.
Noiei outra vez até chegar em casa e dormi. Achei mesmo que tinha acabado ali. Havia um certo alivio em minha cabeça, mas ao mesmo tempo... Ele era tão gostoso. Dormi!

3 – Não ouvi dele segunda feira e nem esperava ouvir na terça. Até que por uma confusão com dinheiro eu fui parar no outro colégio, numa terça, no mesmo horário da aula dele. Quintas de boas all over again. A gente se bateu lá por acidente. Ele ficou me olhando, comprou um chicletes e me ofereceu um, me chamou pra ir lá fora conversar. Eu ascendi um cigarro.

- Você quer namorar? – Perguntou ele.
- Oi? Do nada? Você ta me pedindo pra namorar com você?
- É. Eu não queria... Parar.

Eu rir. Quis beijar ele, mas ele parece não gostar muito de cigarros, então o apaguei ainda no comecinho. E essa foi a desculpa que encontrei pra não beija-lo na frente da escola.

- Eu não quero namorar, Joh.

Ele fez cara de alivio e seu motorista chegou.

- A gente se vê, certo? – Disse ele se despedindo.
- É. Me dê aqui uma braço.

E ele me deu um abraço bonito e se foi. Não me ofereceu carona dessa vez. Mas 12 segundos depois tinha uma carinha feliz me esperando no whatsapp.

4 – Four times. Hoje de manhã não foi quinta, mas aconteceu o que aconteceu. Eu fui fazer um trabalho miserável na porta do colégio dele. Pura coincidência também. Eu não esperava encontrar com ele, porque eu deveria sair antes que o ensino médio ser liberado, mas foi. Na verdade, a primeira coisa que vi quando apontei na porta do colégio foi o amigo goiaba dele. O cara também me viu. A segunda coisa que eu vi foi ele de cabelo cortado. Meu coração bateu que nem menino apaixonado. O amigo dele deu o recado que ninguém pediu pra dar. Apontou pra mim e fez gesto de: “Ei, você não conhece aquele cara?”, ele olhou pra porta e me viu. Ficou meio assustado e falou de longe. Não veio pro lado de cá. Noiei! Normal! Minutos depois, uns 12, ele apareceu na porta, meio paulista.
- Ai, mano. Fazendo o que por aqui?

Ele tava com o amigo gordo dele, talvez seja assim que ele fale perto dos amigos.

- Trabalho. Panfletar. – Respondi.
- Ah, só.

Ele passou a mão no cabelo, como se tivesse ajeitando e eu sorri.
Esse diálogo não existiu, mas foi o que a gente conversou nessa passada de mão no cabelo.

Ele – Cortei o cabelo.
Eu – Eu vi.
Ele – Ei ai?
Eu – Gostei. Ta bonito!
Ele sorriu e eu também.

Estava bonito mesmo. Quero nem descrever.

- Eu tenho que ir lá. – Falou ele sorrindo.
- Va nessa. Falou.
- A gente se vê de noite?
- É?
- Eu te ligo.
- Ligue mesmo.

Ele não ligou, mas mandou uma msg de texto.
“Você me deu um susto hoje, aparecendo lá do nada. Ta doido?! Mas foi bom te ver. =*”

Quatro vezes.

Agora o doutor já pode regenerar.


Arrocha Tchê! 

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