Olha só. Se me contassem eu não acreditaria. Eu não sei quem
estava mais errado, eu ou o meu psicólogo. Talvez tenha sido a coisa mais
idiota que eu já fiz, ir pro psicólogo. A gente, junto, conseguiu se convencer de
que eu devia largar essa vida pra fazer o que eu queria. E o que eu queria? Eu achava
que queria trabalhar com o que eu gosto, fazer filmes, peças, músicas e
historias, mas quem diria, não é nada disso. O que eu quero desde sempre, o que
eu estou fazendo agora depois de ter perdido o emprego e de ter me distanciado
da maioria dos meus amigos? Talvez ser cortado. Eu acho que achei a melhor maneira
de cometer suicídio pra mim que sou incapaz de cortar meus pulsos no banheiro. Eu
não vou morrer, eu vou sumir. Eu vou sumindo da vida dos meus amigos, dos meus
trabalhos, dos filmes, das peças, das músicas... E logo é como se eu tivesse
existido mas não mais. E eu que fui pra um centro espírita pra ver se acalmava
minha alma. A verdade é que minha alma já está calma, toda essa intensidade de
sentimentos vem das longas despedidas que é o que resta pra mim, alguém quem já
desistiu. Foi triste me despedir do trabalho sabendo que eu não queria mesmo
voltar. É triste ver que estou começando a me despedir dos projetos cinematográficos
assim coma aconteceu com o trabalho. O mesmo acontece com o grupo de teatro e
amigos. Toda vez que eu decido ficar em casa e não sair pra tomar uma cerveja
com alguém é um novo tchau caminhando para se transformar em um adeus. Foi assim
com Jonta, e mesmo que ele volte e não se vou ser eu que estará aqui. Não sei
se me permitirei ser amado e aceito outra vez com medo de que isso implique em
uma despedida mais complicada no futuro. Os que vão para serem felizes me
facilitam. Eu nunca precisei dizer adeus pra Jessica ou Luth porque ele
partiram antes de mim, e quando voltarem e não me encontrarem do jeito que eu
costumava ser, não haverá dor, só uma saudade. Me dói me afastar das pessoas
que ainda estão aqui porque eu vejo meu potencial em acompanha-las e de
acrescentar uma coisa ou outra a suas vidas que podem as tornarem mais toleráveis.
Mas eu não quero ajudar eu quero partir e ficar em paz. É ruim porque eu acabo
tratando as pessoas mal para que elas percebam o afastamento e apesar de não
ser de proposito eu me sinto muito mal. Essas são as piores despedidas, a de
Bia, as de Ítalo, Bruno e Kassem. Eu jamais poderia fazer o mesmo com meu pai e
mãe, mas o tempo cuidará deles do jeito que eu não posso. O tempo passará e
eles passaram também e eu continuarei aqui e ai eu terei dado os meus últimos
adeus. Família eu já não tenho mais, eles já estão em uma distância segura e
quando o ismo se romper eles nem notarão. Que burrice minha acreditar que eu ia
sair do emprego e tudo ficaria melhor. Eu escreveria mais, ia me tornar um
produtor artístico e iria ganhar dinheiro com isso. Acreditar que eu poderia
investir na arte e me tornar um diretor de cinema e de teatro que fosse
bastante elogiado e que isso me faria feliz. Eu cheguei até a pensar que se eu
tivesse mais tempo pra mim eu iria poder investir mais nos relacionamentos e
quem sabe arranjar alguém pra dividir um episódio de Doctor who, pipoca e
refrigerante comigo. ASHUASHUAHSAUAHSUHAUSHA Eu me fiz rir aqui.
“Eu não estava indo ser feliz, eu estava me fechando.” “Eu
estava me fechando.” – Eu continuo repetindo pro meu psicólogo que não está
aqui.
Eu ainda não entendi o motivo disso. Por que não viver e
tentar? Por que não correr atrás da felicidade? Uashuahsua Eu não sei, mas é
assim que é. É assim que está. A gente costuma achar que quando se desiste a
vida desmorona, mas o que se tem pra desmoronar quando você já desistiu? Digo,
perder o emprego, os sonhos, as motivações... Antes isso tudo me transtornava,
hoje é só mais uma despedia simples. “Essas coisas acontecem.” É o que se passa
na minha cabeça. HSAUAHSUHASH A vida é tão maravilhosa que essas coisas
acontecem o tempo todo e eu me pergunto se quero uma vida dessa pra mim, e a
resposta é não. E que vida você quer, Ravi? Nenhuma! Minha vida é bem simples e
eu não estou fazendo bom uso dela, de que outra vida me seria útil? Foram-se os
sonhos. Foram tão rápido que eu nem quero querer ter sonhos, não fazem mais
diferença. Oscar sonha em ir para Nova York e eu iria com ele, mas não é o meu
sonho, é o dele. Eu não sonho mais nada. E as coisas que eu quero estão todas
relacionadas a Doctor Who.
Por que todas essas apostas foram feitas em mim? Por que
tinha que estar entre as coisas importantes e boas? UASHAUHSAUHSH Olha, me fiz
rir outra vez. Importantes de boas? Pra quem? Tem gente que acha o Canal Elétrico
melhor que o Grávidos, Ravi. Os filhos dos Beatles melhor que imprevisíveis.
Por favor, você está fora de contexto.
E eu e meu psicólogo preocupados com a culpa que sinto. Que tal
notar que a tal culpa não tem mais importância alguma agora que já desistir de
sentir?
A verdade é que termino aqui sem nada pra ser eterno. Eu sou
daqui a 5 anos o cara que sou de NEDL. Eu fiz bastante trabalhos pra eles, e
fui bem nesses trabalhos, mas isso já fazem 5 anos e eles não já não lembram
mais de mim ou tem meu telefone de contato. Eu não terei filhos e quando me
acabar aqui é somente o fim.
Eu tenho 5 dias de atividade continua em minha vida, onde eu
penso que se eu me esforçar de verdade alguma coisa vai acontecer e eu vou me
beneficiar com isso, e quando esses 5 dias acabam eu tenho 2 semanas e meia de
profunda depressão onde eu não quero sair de casa.
Breve eu desistirei de escrever, por não conseguir seguir em
frente com nem uma das histórias que invento.
Eu não queria ficar sozinho vagando por ai sem ser visto. Então,
universo, quando eu tiver de tudo desistido de tudo e todos e for somente um corpo,
faz com que eu esqueça de mim também e que assim eu possa desaparecer por
completo como se nunca tivesse existido.

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