quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Acampamento Shamanico EP. 3

O homem me contou sobre o segundo rapaz, o que teria deixado o carro pra ele. Não morava em nossa cidade, o homem disse que estava nervoso, parecia querer fujir ou algo assim. Quando perguntei se ele também tria se matado o homem riu e ficou vermelho de tanto o fazer, uma veia grossa bombava em sua testa.

- Não, ele não se matou, tinha muito medo de tudo. Por isso estava fugindo. Acontece que achou aqui um lugar perfeito pra se esconder, não contava que no final da ponte haveria eu. Ficou tão apavorado o puto que saiu correndo. Tive que impedi-lo, né? Não podia deixar que ele saísse por ai contando o que viu.
- E o que aconteceu com ele? - Eu já estava rindo do final da historia antes do homem termina-la. Eu estava estranhamente rindo de tudo.
- Eu o matei, que outro jeito?

Ri alto. O homem me disse que dera um tiro em um dos joelhos do rapaz e que ele caiu sangrando e gritando alto.

- Fiquei com medo dos oficiais ouvirem. Sabe, o eco aqui é uma coisa poderosa. O segundo tiro não foi mais limpo, a bala saiu de uma orelha a outra. Infelizmente os homens ouviram o segundo disparo. Desceram aqui e tudo mais. Foi um inferno, mas não falaram comigo, eles mesmos cuidaram do corpo e das desculpas. Queriam até levar o carro, mas eu não deixei, levaram então as armas. Uma droga, viu? Nunca mais cacei alguma coisa pra comer, ele que vivem agora me mandando enlatados e mais enlatados de coisas. Eu tive que ameaça-los para eles não levarem a espada do caolho. Foi um presente, sabe?
- Não fizeram nada com você por ter matado o cara? Digo, fora ter levado suas armas e tal?
- Não, minha segurança aqui vale mais que a vida do cara. Eu o batizei de David.
- Por quê?

Tinha um CD de um desses americanos no carro dele, David Blow alguma coisa. Eu sempre preferi as fitas, mas já não fazem mais dessas hoje em dia.

- Você não poderia ter sido preso por ter matado um inocente?
- Eu já fui preso algumas vezes e nunca foi muito bom pra eles. A comida era melhor, sim, e havia mais diversão, com mais freqüência. Eu nunca me importei muito com andar, mas quando vivia na cadeira sempre quis dançar, por isso que uma vez ou outra eu peço pros federais me mandarem uns discos de musica pop, dessas americanas mesmo, dessas boas de dançar.

Eu já estava me acostumando com as contantes mudanças de assunto da parte dele, mesmo assim a curiosidade me fazia querer me perguntar mais. A maconha parecia ter me escondido o medo.

- Por quê foi preso?
- De que vez? Da primeira? - Estava com o binoculo na mão observando alguma coisa. - Foi por existir. O cara que tinha a cadeira antes de mim achou ruim que eu a tomasse dele, tive que mata-lo também. A policia achou que eu devia ficar preso por isso, mas não conseguiram me manter lá por muito tempo, não é? Lá pela quinta vez eles pararam de ligar os corpos espalhados pelas ruas à mim. Eu quase tive paz, mas as polemicas... Ah, o ser humano é uma merda! Começaram a falar coisas sobre mim e outros tipos de aborrecimento começaram a aparecer. Eu te contado todas essas coisas, você vai me contar qual é a dela?

O homem me passou o binoculo e me apontou uma direção, quando olhei pude ver a janela do quarto da Luci. A luz estava acessa e ela estava em pé em frente ao seu guarda roupas.

- Vai sair, não vai? Vai se encontrar com o Guto.

Eu ri, percebi que ele tinha dado um outro nome pra Stefano também.

- É, eles sempre saem a essa hora.
- Ele gosta dela.
- Gosta muito.
- E ela...
- Não gosta de ninguém.
- Ou de todo mundo. Por isso que a chamo de Selena, a fria.
- Só eu e o Stefano que nunca ficamos com ela.
- Eu sei.
- Na verdade, acho que ela nem sabe que eu existo.
- Foda, né? E vocês são vizinhos.
- Ela falou comigo algumas vezes, mas nada que desse pra puxar algum assunto depois.

Algo aconteceu no meu estomago. O homem se levantou.

- Sei como se sente. Bom, na verdade não, mas... Quer outra cerveja, não quer?

Aceitei. Ele abriu mais duas garrafas de cerveja quente e me deu uma. Foi até o porta malas do carro e tirou de lá um livro empobrado e com paginas amarelas.

- Vamos ver o que diz aqui sobre isso.

Folheou o livro, que parecia manuscrito, procurando alguma coisa. Algumas paginas estavam soltas, mas ele tinha muito cuidado com aquele objeto.

- Olha só: - Leu em voz alta. - No Morte nunca teve espaço para uma paixão. Não se há amor no meio de tanta escuridão e dor. O Morte não sentia nem ódio, o mais próximo de sentimento que possuía era o rancor, porem isso nunca o atrapalhou em nada, se quer o interferia. O homem era vazio e resistente como um rocha, e com a força de uma rocha ele esmagava qualquer possibilidade de sentir qualquer coisa se não dor.

Tirou os olhos do livro e olhou na direção do porta-malas do carro. Pensou.

- É uma parte muito boa desse livro.
- Que livro é esse?
- O Morte Movel.
- E é sobre o que?
- É sobre mim.



...

Arrocha tchê!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Acampamento Shamanico. Parte Dois.

Ele era realmente feio e sujo, como eu já havia visto nos jornais. Usava roupas grossas e pesadas, parecia couro. Estava me oferecendo uma cerveja, aparentemente quente. Eu não queria.

- Não, obrigado! - Falei tentando não transparecer o medo que sentia.
- Ora, mas é claro que quer. Onde vai conseguir a coragem que precisa pra morrer? Toma. - Arremessou uma das garrafas de vidro no ar, a segurei com as duas mãos. - Isso nos poupará algumas horas.

Ninguém havia falado em morte. Ele falou! Via me matar? Ficava cada vez mais difícil esconder o medo. Decidi não falar.

-Anda, bebe! - Ordenou o homem.

Obedeci, não sabia exato o que se passava pela cabeça daquele sujeito, mesmo assim não o queria ouvir falar de morte outra vez. Olhei o nevoeiro que formava um denso muro de nuvens as minhas costas. Sabia que se quisesse poderia voltar, mas eu não queria. Abri a cerveja com a ajuda da barra da minha camisa e tomei um gole. Estava mesmo quente e ruim. Tentei não fazer careta para não provocar o homem, mas não consegui.

- Horrível, eu sei. - Falou o homem enquanto puxava uma caixote de madeira para sentar-se. Sentou, descalçou os pés e encostou-se no carro. Tomou toda a cerveja da garrafa de um gole só e depois reclamou. - Nessa velocidade que está não vamos sair daqui hoje. Esses maricas, nunca tiveram a decência de me trazer uma cerveja gelada. - Abriu uma nova garrafa, coçou a barba e me encarou fixamente nos olhos.

Ele tinha olhos horríveis, eram de um obscuridade estranha, avermelhados, fundos em sua face. Seu rosto todo era magro e sujo, muito sujo.

- Eu não entendo essa onda de vocês. Até entendo, mas eu não acredito que tantos outros como você sejam tão corajosos a ponto de... Por quê, em? Qual é o grande motivo? Eu perguntei aos dois outros, mas eles também não souberam me responder.

Eu não fazia ideia do que o homem estava falando, apenas sabia que haveriam conseqüência se não o respondesse.

- Bebe logo isso ai. - Gritou ele. - Acha que eu tenho tempo pra vocês suicidas? - Levantou-se e saiu mancando até a porta malas do carro. - Tempo eu tenho, o tempo todo do mundo, mas me falta a paciência. Isso eu não tenho. - Abriu o porta malas do carro e tirou de lá uma corda grossa. - Isso vai ajudar. - Mancou até o outro extremo da ponte e sentou-se ao lado de uma pedra que, de vista, parecia muito pesada. - Essa maldita perna, não se acostuma nunca. Só essa também, a outra é como se estivesse nova. É castigo, só pode ser castigo. Você tem sorte garoto. Não achei que você passaria pelo nevoeiro, por isso nem trouxe a carga toda de lá debaixo. Mas você tem sorte, ainda tinha umas dessas cordas guardadas no carro. - Amarrou com muita força uma das pontas da corda na pedra. - Essa era pra mim, mas existem muitas outras dessas lá embaixo, eu pego quando precisar.

Tentei prestar muita atenção nos atos do homem, na esperança de que pudesse entende-lo, mas não fui capaz. Claro, a ideia de morte não saia da minha cabeça, mas... Ainda não encontrara uma explicação qualquer para as cordas, pedras e cervejas.
A cerveja esquentava na minha mão fria de medo. E ele sempre me olhando. Olhava a cerveja, depois olhava pra mim. “ - Beba isso.” Ele dizia. “É pra dar coragem.” Para quê tanta coragem? Não quis mais pensar. De um gole só bebi toda a cerveja.

- Quer outra? - Perguntou o homem.
- Não vejo no que me ajudaria.
- Ahhh. Você é dos fortes. Engraçado, nunca lhe vi fumando bagulho. - Levantou-se mais uma vez, dessa vez sem mancar, foi até o porta malas outra vez. - Até que fim um decente. Você tem sorte, garoto. Guardei essa aqui pra uma ocasião especial. - Ergueu um saco plastico cheio de mato dentro.
- O que é isso? - Curioso.
- Não se assuste, é que eles sempre mandam, e eu não gosto de fumar sozinho. - Sentou-se mais um vez no caixote de madeira e encostou-se no carro vermelho. Pegou uma cerveja e a arremessou pra mim. - Bebe outra ai. Eu vou enrolar o verdinho aqui. - Sorriu alegremente.

Não pensava mais no que fazer, abri a cerveja e a tomei de um gole só, como fiz com a outra. Joguei a garrafa no chão e vi a minha bicicleta. Ela estava lá, jogada. Pensei em pega-la, sair correndo daquele lugar, mas eu já estava um pouco tonto. Lembrei que minha bicicleta por muito tempo tinha sido a minha mais próxima companheira, o mais próximo amigo. E agora tinha quele homem, me oferecendo cerveja e enrolando um baseado. Tinha cabelos vermelhos, o homem. Era ruivo e só agora tinha notado. Devia ser o tom de vermelho escuro que disfarçava. Eu nunca fumei um baseado, mas sempre tive vontade de saber como era. Minha bicicleta, por muito tempo fomos só eu e ela.

- Vai sentir falta, né? - Chamou minha atenção enquanto lambia a seda. - Vai deixa-la pra mim?
- Hen?
- A bicicleta. Vai deixa-la pra mim? Eu não sei andar, mas que se foda. Não deve ser mais difícil que uma moto ou um carro.
- Não é.
- Então, vai deixa-la pra mim?

Não sei responder metade das perguntas que ele me faz. Caminhei até uma das bordas da ponte e olhei para baixo. Um pequeno riacho passava por ali. Imaginei que a agua estaria muito fria para um mergulho.

- Você não vai pular agora, vai? - Mais um vez o homem me falou enquanto enrolava a maconha. - Acabei de terminar. Venha, sente aqui.

Não fui.

- Que é? Não vem? - Coçou a barba. - Olha se vai pular é melhor fazer isso do outro lado. Ai não é tão fundo, vai quebrar uma perna ou morrer lentamente de frio. É doloroso, você não quero sofrer tanto assim, quer?

Ergueu a mão em que segurava o baseado e me sorriu alegre. Pela primeira vez vi um brilho timido em seus olhos. Caminhei até ele, bem devagar. Ele ficou animado e foi logo acendendo a maconha. Sentei no chão ao lado dele e também encostei-me no carro. Acendeu o baseado e deu a primeira tragada. Passou pra mim.

- Eu nunca soube o porquê. Eles nunca me disseram. Você ai me contar o seu motivo?

Coloquei o cigarro de maconha na boca e puxei forte. Me engasguei com a fumaça e comecei a tussi descontroladamente. Ele riu, riu descontroladamente.

- Forte esse, não é? Não é como as outras que você e seus amigos fumavam. Essa os oficiais que me deram. - Ele parecia bem satisfeito em estar conversando com alguem. - Aliás, onde é que vocês fumavam o bagulho. Eu nunca consegui ver você fumando daqui.
Me ver, como assim?

Levantou-se rápido, abriu a porta do carro e apanhou um binoculo.

- Veja, lá. Bem ali. - Colocou o binoculo em minhas mãos e me apontou uma direção. Depois pegou o bagulho e sentou-se mais uma vez. - Vamos acabar logo com isso.

Olhando pelo binoculo na direção que me apontara eu pude ver, através de uma leve fumaça a cidade baixa. Ela toda. Vi minha casa, vi minha mãe sentada em frente a TV, vi o meu pai lendo alguma coisa na mesa da cozinha, vi as duas casas vizinhas. Stefano mora ali, Luci mora na casa seguinte. A pergunta que o homem me fez, eu não entendi, mas se pudesse responder eu diria que foi por causa do Luci.

- Não se tem muita coisa pra fazer por aqui, observa-los é meu hobbie. Assim como você faz com aquela menina que mora ao seu lado. Não é divertido? É como uma novela, mas no volume baixo, muitas vezes eu tive que criar diálogos em minha cabeça. E o nome dela, em? Qual é o nome dela? Bom, não faz diferença mesmo. Ela sempre será Selena, a fria.
- O nome dela é Luci.

O homem olhou para os dois lados procurando algo.

- Não faz diferença, já disse.

Me passou o baseado e pegou o binoculo. Eu tentei tragar mais uma vez, a fumaça queimou minha garganta e outra vez tussi. Mais uma vez ele riu. Segurando o binoculo disse: - Tente outra vez. Essa é forte. Vamos, tente. - Eu tentei e senti a ardência descer até meus pulmões dessa vez, tussi, mas bem menos dessa vez.

- Você conseguiu. Olha ali. - Me passou o binoculo e pegou o baseado da minha mão.

Olhei na direção que ele me mostrou, mas não entendi o que ele queria que eu visse. - Mas pra cima. - Disse ele. A única coisa que eu consegua ver era a antiga casa de Erico. Os pais dele se mudaram quando ele sumiu.

- Ele foi o primeiro. - Falou o homem cuspindo a fumaça do cigarro. - Achou que a vida não fazia sentido porquê os pais não compreendiam suas escolhas. Era viado, você sabia disso? Bom, eu sabia. Toda vez que os pais iam trabalhar o Paulo Sérgio fazia um visita.
- Paulo Sérgio?
- Nomes não são importantes. Olhe!

Empurrou meu olhos nos buracos do binoculo e moveu minha cabeça um pouco para a direita.

- Vê a casa verde? É ali que ele mora, o Paulo Sérgio. Chorou quase duas semanas depois que cancelaram as buscas. Esses viados, não sei não. Dias depois já recebia visitas de outro cara, um mais velho que ele. Nunca dei um nome pra esse cara. Ele aparece pouco na cidade.

Erico era gay? O seu relacionamento com a mãe e o pai não era mesmo bom, mas eu nunca soube que ele e o... Quando o Erico sumiu a cidade parou. Organizaram uma comissão de busca na cidade inteira. A policia ajudou, mas nunca acharam ele, nem o corpo dele.

- Está me dizendo que quando o Erico saiu de casa veio para cá? - Perguntei a o homem que admirava a fumaça que fazia. Antes que ele começasse a responder peguei o cigarro da mão dele e traguei.

- Foi. - Respondeu. - Fez exatamente como você. Estava discutindo com os pais, provavelmente sobre o fato de gostar de empurrar outros garotos pra dentro. Saiu batendo a porta e veio direto pra cá. Quando vi que ele cruzara a esquina da ponte desci pra pegar mais bebida, mas ele demorou bastante pra enfrentar a neblina. Passou dois dias inteiros do lado de lá, só atravessou quando ouviu as sirenes da policia chegando perto. Fechou os olhos e passou correndo, se eu não o segurasse ele teria caído direto no rio.

Dei mais uma tragada e tossi. Ele sempre se divertia quando eu o fazia.

- Continuando... Ele desmaiou, sei lá por quê. Quando acordou não quis beber a bebida que lhe trouxe, chorou mais uma vez e se atirou da ponte.
-Ele se matou?! - Não sei ao certo, mas acho que senti uma pequena vontade de rir.
- Foi, aquele viado! Caiu nas pedras, bateu a cabeça, morreu na hora. Viado! Os oficiais iriam me fazer tantas perguntas. Amarrei a cintura dele em uma dessa pedra grande e o atirei no rio. Evitei uma dor de cabeça futura.
- Por isso nunca acharam o corpo?

Aconteceram apenas três em minha cidade. O sumiço de Erico, um nevoeiro que devorou a cidade alta e um homem com uma péssima aparência cruzando a cidade arrastando uma cadeira de rodas. Comecei a rir.

- É mesmo engraçado, não é? - Falou o homem. - Mas eu nunca soube porquê ele quis se matar, nunca tive a oportunidade de conversar com ele. O segundo me trouxe esse carro. Eu adorei ter um lugar onde eu pudesse guardar minhas coisas.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Angelus. Ep. 2

Eu não sabia o que metade das palavras que falei significavam, mas durante muito tempo amaldiçoei o tal Demon até não existir mais ar ou vocabulário. Ele ria as vezes, quando não estava rindo estava mastigando pedaços enormes da vermelha maçã de segurava em uma das mãos. As vezes, curiosamente, ele conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Não sei se o ofendi, mas essa fora a minha única intenção.

- Então... Me chamo Demon. Você não vai me dizer o seu nome?

Qual jogo ele estaria jogando? Não sei se posso joga-lo. As nuvens já ganhavam alguma cor no céu e eu tinha preça em matar o Mikael. Mais um dia entre humanos e eu me contagiaria com o fluxo que eles seguem. Fluxo que parece atrasa-los bastante.

- Mas você é um anjo. - Falei o obvio, obvio.
- Você notou? - Brincou ele.
- Não brinque. O que quer?

Sabe, nunca fui de agir de maneira tão evasiva, mas se tratava de um anjo, um ser, aparentemente, superior. Não podia epenas espanca-lo com um saxofone quebrado e fingir que ele nunca esteve ali. Não podia? E porque não? Ergui uma das mãos...

- Você também não vai querer fazer isso. - Falou.
- Isso o que?
- Me bater, com um saxofone quebrado. Você não vai querer fazer isso. De que adiantaria?
- Adiantaria?
- Não!
- Então não devo bater?
- Não.
-Mas você é um anjo, e isso não é um elogio.
- Eu sei. Acredite, eu sei.
- Mas você é um anjo, anjo.
- Eu sei, sei. E você ficar repetindo não vai me tornar mais anjo e nem menos anjo. Então, para com isso de uma vez, certo? Não é agradável.

Agradável era uma palavra que eu conhecia muito bem, o seu adverso também não me era incomum.

- Nós não deveríamos estar nos confrontando ou algo...?
- Aí é que tá. A gente podia...
- O que você quer afinal? - Interrompi com impaciência.
- Lhe responder as perguntas que tanto me faz, mas você nunca deixa. Que saco! - Nossa! O anjinho se mostrou visivelmente alterado, pela primeira vez, desde que o vi, ele desceu de sua nuvem de absolutismo e falou como um igual. O que era bem estranho, não me sentia de maneira nem uma igual a ele. - Vamos por partes, que nem Jack.

Riu, sozinho. Ao ver que não entendi a piada, ou se quer rir para agrada-lo, ele voltou a morder a maçã e ainda enquanto mastigava explicou:

- O que eu quero... O que eu quero. Hum. De inicio saber o seu nome, afinal foi a primeira pergunta que lhe fiz.
- ...
- Então...?

Ouvi-lo era mais agradável doque dialogar com ele. Acho que não gostava muito da minha voz. Nesse meio tempo cheguei a conclusão de que os humanos que pensam muito fazem isso porque não gostam de suas vozes. E os humanos que falam demais devem não gostar dos seus pensamentos.

- Angelus.
- Angelus?
- Angelus!
- Que nome estranho para um demônio.
- Preciso comentar do seu?
- Demon é só um apelido para Demetrius Divinum Cardiam. Achei que ficaria mais fácil de se pronunciar se eu abreviasse um pouco, mas não fez muita diferença não, já que lá ninguém se chama pelo nome.
- Lá?
- É, lá de onde eu venho.
- Céu?
- Com queira. Não faz muita diferença mesmo.
- E como fazem?
- Com números. Lá é tudo muito organizado, uma chatice só. Tem também o grande numero de pessoas que vivem lá. Enfim, lá nos organizamos em números, assim fica mais fácil manter o controle. E ninguém precisa ficar decorando nomes como: Demetrius, Victorus, Miguelios, coisas assim.
- Hum.
- Quanto a termos que nos confrontar... Eu sugiro...
- Como assim?
- Sugiro uma trégua.
- ...
- Olha. - Mordeu a maçã outra vez, parecia gostar do som que sua boca fazia ao mastigar e falar ao mesmo tempo. - Você... Você não faz nada que me irrite e eu... Eu não lhe faço nada desagradável.

Os argumentos eram fortes, ou eram as palavras, a voz... Não sei ao certo, mas talvez a ideia de poder evitar qualquer incomodo tenha me deixado satisfeito.

- Como vou saber se fala a verdade? Como saberei o que te irrita ou não.
- Faremos regras quando o sol nascer. - O que não iria demorar, pois os primeiros raios de sol já se refletiam nas paredes espelhadas dos prédios e iluminavam as calçadas. Era bom, não bonito. O calor do dia me agrada e aquele frio de madrugada já estava me dando náuseas.

Mais uma vez, frente a frente, esperamos o tempo passar. Existia algo em mim que não me deixava partir. Não antes dele revelar quais eram as tais regras. Era agradável saber que ele podia fazer alguma coisa pra eu parar de sentir incomodo. Ele comia a maçã. Comia, comia, comia. A cidade ia clareando aos poucos, uma hora ou outra conseguia-se ouvir os bocejos daqueles que acordavam. Pensei: “ Engraçado esses homens, são quase silenciosos só quando dormem, mas até para acordar essas criaturas precisam fazer qualquer ruido.”. Pratos e talheres, camas rangendo, mulheres que gemem, barulho de agua, cheiro de fogo, barulho, barulho e barulho. As pessoas finalmente estavam acordadas,o calor estava aos poucos conquistando seu espaço sobre o fresca brisa da madrugada, o sol pintava o chão das ruas de luz, e o barulho dos carros que saiam da garagem... Ahr! Tudo isso me lembrava de casa... Mas tudo durou apenas alguns segundos.

- E ai?
- Porra!
- Quê?
- Eu tava pensando, aproveitando. Estava agradável, saca? Você tinha mesmo que interromper?
- Desculpa, mas o dia nasceu.
- E daí?
- Eu tinha te dito que criaríamos regras assim que o dia nascesse.
- E então?
- Não sei, você pensou em alguma coisa?
- Quê? Você é maluco, não é? Disse que inventaria regras e...
- Tenha calma. Me diz, qual sua missão?
- Mata-lo?
- Mata-lo ele? O Mikael?
- LOGICO!
- Tenha calma, peste. E ai? E depois?
- Depois? Depois volto pra casa e paz.
- Foi pra isso que lhe mandaram?
- Aquele Boss filho de uma puta, não me falou nada sobre anjos.

Eu disse que preferia escuta-lo e não dialogar com ele, toda vez que ele falava era como se não fosse só voz, vários outros sons se misturavam e... Toda vez que eu falava...Bom, toda vez que eu falava parceia um... um tapa. Um tapa desses que se da em si mesmo pra despertar.

- Boss?
- É! O cara que me mandou pra matar. Criatura estranha, ok? Muito estranha! - Silencio por um tempo. - Pode parar de fazer perguntas? Sinto uma obrigação de responde-las, sei lá. Para! Simplesmente para.
- Tudo bem. Faria você as perguntas?
- Se prometer deixar as respostas longas, sim.
- ...
- A sua missão, qual é? Protege-lo?
- Livra-lo de todo mal, sim. Amem!
- De mim?
- Não ache que é o único demônio que veio aqui mata-lo. Estou aqui pra protege-lo de tudo. De você, das pragas, dos parasitas, dos acidentes, acasos...

Ele fez como pedi que fizesse, alongou as respostas para as minhas perguntas estupidas. Era bom, era bom ouvi-lo falando, mesmo as vezes quando falava de boca cheia. As coisas ao redor iam perdendo o som e as palavras do anjo me lembravam o sopro musical que ouvi naquela noite, eu não prestava atenção no que ele dizia, apenas o escutava. Escutava apenas.


Terça-feira.
Ep. 2 - O saxofone.


- E então, o que acha dessas condições?

O dia nascera por completo, quem trabalhava de manhã já não estava mais em casa. O sol de um lado queimava meus olhos e do outro lado, um anjo, um demônio e uma maçã bem vermelha. Demon estava a minha frente encostado no carro que provavelmente seria do humano que vim pra matar, há minhas costas a casa de Mikael. Não me movi muito desde que encontrei o anjo. Na verdade, desde que nos olhamos nos olhos nem um de nós saiu do lugar.

- Hem? Desculpe?
- Você não escutou nada do que eu disse?

Não. Logico! Apenas a voz, mas eu não diria isso a ele.

- Claro que escutei, apenas não consegui raciocinar direito. Você falou muito rápido.
- Vou repetir, preste atenção.
- Tá.
- Não queremos entrar em confronto, certo?
- Fale por você.
- Você quer?
- Não. Apenas acho que é o que faríamos... sei lá... numa situação normal.
- Não vai acontecer. Você terá paz e eu não me preocuparei, nas horas que mais gosto de ficar calmo.
- Vai, diz logo.
- Bom, eu adoro a noite... - A maçã em uma de suas mãos já estava no final, completamente mastigada. Ele a jogou no ar e a pegou com a outra mão. Uma maçã inteira, nova e mais vermelha caiu em sua mão no lugar da outra velha e cheia de mordidas. Levou a mão que a segurava até a boca e recomeçou a come-la. - Então seria legal se a gente combinasse de você não tentar mata-lo a noite.
- O que você tem com a noite?
- Eu gosto de sair, fazer coisas. A cidade é tão mais viva a noite, sabe? É quando as pessoas não estão seguindo uma enorme rotina. Caminha entre os humanos fica até mais divertido.

Divertido? Ele não quis dizer agradável?

- Divertido?
- É! - Riu. - Você ainda tá nessa de agradável e desagradável, não é?
- Como?
- Olha, você precisa começar a dar outros nomes a essas sensações. Por exemplo: Divertida é uma coisa extremamente agradável, tão agradável que te deixa feliz, rindo a toa.
- Como vou saber que nomes dá?
- Existem uma coisa aqui entre eles que te faz simplesmente aprender, nada fica difícil demais. É como se fosso um...
- Fluxo.
- Exato! É como se fosse um fluxo que eles seguem, basta se encaixar e deixar fluir. Logo você terá nomeado todas as sensações sem se quer se preocupar com isso.
Hum. Que nome se dar quando você ouve alguma coisa que não estava acostumado a ouvir, é uma coisa bem agradável... Digo, divertida. É algo que te chama bastante atenção, que aos poucos faz você ficar se mexendo ao som daquilo.

Tentei com todas as palavras que conhecia explicar pra ele o que senti quando ouvi aquela musica assoprada na noite passada.

- Ritmo.
- Ritmo?
- Hunrun. Na verde o ritmo desperta em você diversas outras sensações que juntas fazem você dançar.
- Dançar... É isso! Faz sentido.
- Viu? As coisas simplesmente se encaixam. Quando a musica assoprada... Chama-se assobio. Eu estava assoviando quando vi você dobrando a esquina.
- Então era você?!
- Hunrun.

Estranho não ter notado, mas a voz dele era mesmo tão “divertida” quanto a musica naquele instante.

- Como vou saber se estou nomeando certo as coisas que eu senti?
- Não se preocupe. Se não aparecer nem um nome convincente na cabeça, invente um. Os humanos fazem isso toda hora, dão nomes pra um monte de sentimentos que eles não fazem a minima ideia de como funcionam.
- Certo. Mas... Ei! Será que você pode me ensinar a assobiar?
- Claro, mas outra hora. Olha, o Mikael já vai sair. Não vai querer nos encontrar na porta dele a essa hora. Vamos sair daqui.
-Tudo bem.

Saímos, fomos a uma pequena praça que tinha por ali por perto. As roupas do Demon estavam diferentes, mais claras. Pensei que fosse por causa das influencias do sol. Engraçado. Pensar já não me incomodava tanto. Sentamos em um desses bancos de praça e começamos a conversar. Engraçado. Havia acabado de conhecer o anjo e já nos falávamos como antigos amigos. Amigos é uma palavra nova, preocupação também. E eu estava preocupado com o que o Boss acharia se soubesse que eu estava perdendo o tempo da minha missão conversando com um anjo.

- Eu também não gosto muito de alturas.
- Quê?
- Falo porque a gente poderia combinar de você não mata-lo no trabalho.
- E onde ele trabalha?
- Aquele prédio ali. - Me apontou um prédio comercial no começo da rua. - Decimo sétimo andar.

Eu já estava muito preocupado com o atraso da missão, e agora me vem Demon com mais restrições. Que chatice. Ei, esse meu vocabulário está ficando bom.

- Espera. Nós já não combinamos de que eu não poderia mata-lo a noite?
- É que tenho pavor de altura. Ia ser extremamente irritante ter que subir todos aqueles andares pra defende-lo de você.
- Eu não sei se posso passar muito mais tempo cedendo aos seus...
- Eu te ensino a assobiar!

Ele era um anjo com argumentos muito bons. Aceitei o acordo, com a minha condição de que não haveriam mais condições da parte dele. Fiquei me sentindo meio... Meio... Arrependido, acho que era essa a palavras, mas acho que no fundo, no fundo fora uma boa troca. Passei algum tempo perguntando sobre o significado de algumas palavras que escutava. Ele sempre sorria, mordia a maçã e me explicava logo depois.

- Como foi que você chegou aqui?
- Você diz: Quando fui enviado pra proteger o Kael?
- É.
- Bom, todo humano tem direito a um anjo da guarda, que necessariamente não precisa vim do mesmo lugar que vim. Alguns humanos tem como protetores animais, imagens, outros tipos de espíritos, demônios e até outros humanos. Quando lá ficaram sabendo que Mikael teria uma grande importância pra humanidade... Claro, por quê pra nós que não somos daqui, pouco importa, mas decidiram que esse homem deveria ter uma representação mais forte. Daí o Chef sorteou meu numero, 114, e eu vim pra cá. Com corpo e alma definidos, eles cuidam disso muito bem lá.
- Chef é Deus?
- Deus? - Riu alto – Não. Que Deus que nada. Chef é Chef, esse é o nome dele, Chef. O homem que me mandou pra cá, o cara que sorteou meu numero, 114, Chef.
- Era outra coisa que queria te perguntar. Você passa o tempo todo comendo essa maçã aí, o pessoal de “lá” não se incomoda não?
- E você acha que eles tão ligando? Você realmente acha que eles estão monitorando os meus passos? Que nada! Olha, como você existem milhões espalhados por ai, loucos pra matar pessoas como o Kael, mas que pra isso terão que enfrentar gente como eu. Não da pra acompanhar tudo que acontece. Nem Deus acompanha. Por exemplo: Só fiquei sabendo que você viria dez minutos antes de encontrar com você. Se a noticia tivesse chegado um pouco mais tarde não haveria sentido em avisar, haveria?
- O humano já estaria morto.
- Exatamente. E por falar em humano, olha ele ai.

Mikael saiu de casa e como usualmente fazia, foi andando para o trabalho. Sei que ele fazia isso todos os dias porque ele tinha a palavra “Fluxo” estampada no rosto. Eles parecem viver no automático quando aceitam a tal rotina. Minha mão se fechou apertada, vê-lo vivo me fez crescer uma raiva, uma aflição, um ódio. Palavras que a dez segundos atrás eu não conhecia o significado. Meus dentes rangeram, meus olhos ficaram parados, fixos no rosto do humano e a raiva estourou na cabeça. Não era noite, não era alto. Seria agora o momento de sua morte, humano. E ainda me restaria algum tempo para aprender a assobiar. Com o corpo em chamas, no sentido figurado, é claro, me levantei pra correr em direção ao humano, mas algo me segurou forte na mão e eu fiquei impossibilitado de sair do lugar.

- Espere ai, valente. Você não vai querer fazer isso aqui na frente dessas pessoas, a essa hora da manhã, vai? - Falou Demon, ainda sentado no banco da praça e segurando com uma das mão o meu braço direito. Com a outra mão, Demon segurava uma pagina de jornal. - Eu não vou deixar.

Com calma ele foi soltando meu braço. Desviou o olhar para Mikael e disse: - Ótimo, ele nos viu.
Demon usou um tom que mais tarde eu conheceria como sarcasmo.

O humano realmente nos viu, pior que isso, sorrio e veio andando em nossa direção. Senti meu interior pegar fogo, todas as coisas se embrulhavam dentro de mim, era uma mistura de ódio e uma coisa que eu ainda não tinha dado nome. O sol fazia seus cabelos loiros brilharem com força, e ele se aproximou tanto que pude ver que em seus olhos existiam algum verde brigando pra ocupar um grande espaço. Ficamos assim por um tempo, em pé, parados, apenas olhando um no olho do outro.
O anjo nos interrompeu: - Bom dia, Mikael. - Parecia estranhamente perturbado. Era fácil ler e entender o comportamento dos humanos, mas não conseguia decifrar o que fazia o anjo mudar tanto o seu temperamento.

- Ah! Olá, Demi. - Sorriu um branco sorriso o humano. - Bom dia!

Logo depois virou pra mim com o mesmo sorriso, e me perguntou se eu tinha concertado o meu instrumento. Demon mostrou-se irritado e respondeu no meu lugar: - Sim, concertou já.

- Mas já, tão cedo? - Falou o humano.
- Não quis que ele esperasse a loja abrir, Kael. Eu mesmo concertei.
- Você?
- Foi sim. - Sorriu Demon.

Eles não me deixavam falar. Não que eu quisesse falar, mas...

- E quanto foi que ele cobrou pelo serviço? - Perguntou o humano me cortando o raciocínio.
- Han? - Não entendi o que ele falou.
- Não cobrei nada, é claro. - Entrometeu-se outra vez na conversa. - Quando soube que foi com você o tal acidente, fiz questão de dar um jeito sem que ele ou você precisassem pagar nada.
- Ora, Demi. Você sempre tentando fazer minha vida parecer mais fácil. Muito obrigado, como sempre.
- E como sempre: Não a de quê.
- Bom, já que tudo está acertado eu tenho que ir. Bom dia, Demon. Bom dia, er...

O humano me esticou a mão. Um comprimento comum, mas que eu não sabia se podia faze-lo. Apertar a mão de quem eu deveria matar? Não fazia muito sentido.

- Ângelo. - Disse Demon metendo-se na conversa outra vez. - O nome dele é Ângelo, e ele não é muito de falar.

Não era mesmo muito de falar, mas naquele momento não falei porque não deixaram.

- Ótimo, aparece pra a gente ouvir a sua musica, Ângelo.

O humano bateu em meu ombro logo após dizer adues, o anjo reagiu de maneira estranha e acenou para as costas de Mikael, e eu, o demônio, senti toda raiva, ódio e confusão se despedirem do meu corpo.

- E agora o que? - Perguntei a Demon.
- Quê? Não posso deixar que fale com ele, se não ele vai confiar em você e isso facilitarias as coisas, não é?
- Não acha que as coisas já estão difíceis de mais pra mim não?
- Isso não problema meu. Temos um acordo, estou fazendo exatamente o que tenho que fazer.
- E eu estou fazendo exatamente o que não tenho fazer por causa desse nosso acordo.
- Vamos?
- Vamos? Para onde?

O anjo já havia pego o instrumento e partiu em direção ao sol. Eu o segui.

- Para onde vamos?
- Vamos ao parque.
- Mas eu tenho que...
- Você não come? Não sente fome? - O anjo, como muitos dos humanos, fazia perguntas das quais já sabia a resposta. - Você precisa comer alguma coisa. Vamos ao parque, lá tem uma lanchonete ótima.

Fomos então ao parque e a tal lanchonete ótima. Não havia nada de mais lá, só comida. Ele me pagou um sanduíche, dois pedaços enormes de pão com muitas coisas nojentas dentro. Já vi muita gente chegar no inferno por causa dessas coisas. Enquanto eu comia ele abriu a caixa preta onde estava o saxofone, pagou o sanduíche com um trocado que achou lá também e mexeu no instrumento como se já o conhecesse intimamente.

- Você sabe o que esta fazendo? - Lhe perguntei quando vi que ele não conseguia encaixar as peças no lugar onde queria.
- Coma. Deixa que eu resolvo isso aqui.

Eu podia estar matando um humano. Não, não podia. O humano estava no trabalho, no decimo sétimo andar de um prédio. O diabo do anjo não gosta de alturas.

- Humpuf. O DIABO DO ANJO. - Pensei em voz alta.
- Quê?
- Nada não.

Acabei de descobri que posso ser engraçado. Achei melhor ficar calado, já que se falasse qualquer coisa ele me mandaria voltar a comer. Comi o sanduíche todo, com gosto, ao final das contas ele poderia me levar de volta pra casa, se eu tivesse sorte. Sorte... Sorte são para os humanos. Eu poderia estar matando algum... Não, não poderia. Droga! Droga de acordo. Droga de falta do que fazer. Não entendo porquê os humanos gostam tanto de comer, isso faz com que os pensamentos lhe dominem. Os humanos parecem não gostar muito de pensar. Queria que houvesse mais algum trocado dentro da caixa do saxofone, assim eu poderia comprar um outro sanduíche e quem sabe ir pra casa mais depressa. Talvez eu desse sorte... Não! Sorte não é pra Demônio.

-Concertei! - Exclamou Demon feliz. Tinha alguma coisa em seu sorriso, que eu não sei, me paralisava. Acho que funcionava como algum tipo de escudo. Os meus pensamentos ficavam mais calmos e o tempo passava mais suavemente, sem exercer nem um peso no meu corpo humano.
- Como? Ei, suavemente é uma boa palavra?
- Sem duvida. Eu consegui encaixar as peças no lugar certo, o seu instrumento está concertado.

Não comemorei. Porquê o faria? O instrumento de nada me serve.

- De nada lhe serve? - O Anjo mais uma vez cortou meu pensamento.
- Olha, você tem que parar com isso. Eu nunca sei quando você está escutando ou não.
- Você não sabe tocar o sax?
- Claro que não! Eu o tirei de um cara que estava me irritando. Depois disso não soube mais o que fazer com ele, acabei o trazendo comigo.
- O que o cara tocava?
- Não sei, mas era horrível.

Depois o Boss me disse que o tal do Kenny G inventará tais musicas para torturar os humanos. Demônio legal o Kenny G, mas muito sofrido o coitado.

O anjo saiu outra vez na frente. Perguntei para o moço da lanchonete se “horrível” era uma boa palavra da definir uma coisa muito ruim. Ele disse que sim. Então agradeci pelo sanduíche horrível e fui atrás do Demon.
Não muito longe dali encontrei Demon sentado embaixo de uma dessas arvores cheias de maçã e tentando tirar algum som do saxofone.

- O segredo é assoprar – Disse... - Colocar as notas depois se torna fácil. Pronto, é como as palavras, elas se encaixarão depois que você souber assoprar direito.

Eu tinha mesmo que ficar na cola desse cara? Não, não tinha, mas algo me fazia ficar. Achava divertido a cara dele assoprando o instrumento sem conseguir tirar nem um som dele. Pensei em sair por ai, conhecer lugares, até a hora que o humano deixar o prédio com altura. Mas tinha realmente muita gente dando por aquele parque. Se fosse seguir o fluxo dos humanos até o Mikael outra vez, isso demoraria um certo tempo. A noite chegaria e eu não poderia mata-lo. Viver nesse mundo cheio de condições é mesmo uma coisa totalmente... Haviam horas que as palavras simplesmente não apareciam. “FON”. Ouvi aquele barulho irritante do saxofone outra vez.

- Viu? Peguei o macete, agora é só deixar fluir o ritmo.

Mesmo, ele estava certo. Consegui assoprar uma vez e já conseguia tocar notas legíveis. Viver entre eles era bem mais fácil pra nos, seres... Mais uma vez a palavra fugiu. - Melhores, seres melhores. - Pensei, dessa vez em voz baixa.

- Me veja tocar. - Ele estava realmente feliz com o seu sucesso. Estava tão cheio de si, me ameaçava com aquele sorriso a todo tempo.

Estava sentando, levantou-se e encostou no tronco da arvore. Começou a tocar, musicas completas, como se fosse profissional. Talvez ele, ser melhor, crie com mais facilidade uma intimidade com as coisas. Tocou, tocou, tocou bastante. Não era um musica chata ou de tortura, era uma coisa diferente, mais agitada, mais alegre, tinha... er... tinha... Ritmo! Nunca havia escutado aquele tipo de musica, era quente, fervorosa, parecia cubana, latina, não sei. As palavras que me faltavam logo me bombardearam, as que não me faltaram também. Meus pés batiam no chão acompanhando a musica que o anjo tocava no saxofone, minha cabeça fazia sim, aceitando o ritmo e os meus dedos estalavam como se quisessem fazer musica também.

- Viu, isso é ritmo. - Falou o anjo sem ao menos parar de assoprar o instrumento.
- Como?
- Ouça. Está vendo? É claro que está. Melhor, está sentindo.

Ele tinha essa enorme necessidade de monologar comigo. Eu adorava.

- É coisa de Deus. O meu, o seu, não importa. O que importa é que é coisa de Deus. Veja. Veja como eu tenho poder sobre você, veja. Isso é o ritmo criado para manipular os seres, e os humanos o transformou em um mero entretenimento. Veja o que posso fazer. Veja como posso atrair eles pra cá, para mim. Sinta todo esse poder que exerço sobre eles, sinta.

Demon estava eufórico. Depois tirei um tempo pra aprender o significado dessa palavra que na minha cabeça tinha acabado de inventar. Ele estava se sentindo um máximo com aquela musica. Uma multidão de pessoas que andavam pelo parque começou a se aproximar. Todos que ouviram a musica tocada pelo anjo chegaram mais perto pra ver. Seus pés batiam no chão, suas cabeça diziam sim ao ritmo, milhões de dedinhos estalavam. Tinha aqueles que mexiam quase todas as partes do corpo. E o anjo queria que eu visse o poder que ele exercia sobre aqueles humanos. Minha nossa, que patético! Eu preferia mata-los do que reinar sobre eles. Foi por isso que não passei muito tempo vestido igual ao salvador. O fluxo me dizia baixo no ouvido – aproveite a situação. - Eu não sabia bem o que ele queria dizer, mas... Abri a caixa preta onde guardava o instrumento e a coloquei aos pés do anjo. Entre aplausos e gritos um humano ou outro colocava umas moedas na caixa. Espero esta aproveitando o máximo que posso a tal situação. Pensei em quantos sanduíches eu poderia comer com todo o dinheiro arrecadado até o final do dia. Assim eu não precisaria de sorte para voltar pra casa mais cedo. Sorte... Os humanos tem sorte.

Eu estava me divertindo. Era bom, sabe, se divertir? O ritmo me fazia arriscar sorrisos, não sabia qual era a nescidade, mas mesmo assim me pegava sorrindo as vezes. Era agradável ver o anjo tendo um momento dele. Quis ser ele naquele momento. Era inveja! Olhe só, o ritmo melhorava até o meu vocabulário. Todos os humanos do parque estavam lá para escuta-lo tocar, eles batiam palmas, tentavam cantar alguma coisa, e até dançavam juntos. Estavam todos dominados... Digo, ritmados. Eu juntei os lábios e comecei a assoprar. Que tolice a minha, ele ainda não teria me ensinado a assobiar. Mas eu estava me divertindo... Ouvi alguma coisa, um barulho, um grito fraco, uma risada estranha. Todos estavam do mesmo jeito. Como? Eles não ouviram nada? O anjo me olhou e piscou o olho pra mim, me fez sorrir outra vez, mas eu queria saber o que foi aquilo que aconteceu, eu estava... er... curioso.

“ Ei, Demon, aconteceu alguma coisa.” - Pensei, mas ele não me escutou e continuou tocando para os humanos que em troca lhe jogavam algumas moedas.

Humanos idiotas, se distraem muito fácil, por isso não percebem as coisas que acontece ao seu redor. Não agüentei, fui olhar. Passei mais uma vez pela frente do lanchonete o dono me olhava com uma cara de raiva, não sei o que lhe fiz. Passei por um lago e umas casinhas de pato, umas arvores, mais arvores até que vi alguem passar correndo por mim. Esbarrou em mim e nem sequer olhou para a minha cara, mas eu vi a dele, vi o sorriso amarelo que ele carregava na boca. Eu o reconheci, homem engraçado, vivia correndo. A ultima fez que o vi correndo eles estava com o mesmo sorriso amarelo e entrando numa loja para roubar algum dinheiro e matar algumas atendentes. Mais afrente vi alguem deitado no chão, provavelmente o dono do grito fraco, possivelmente morto, e agora sem grana. Eu fui olhar seu rosto, curiosidade de saber como é que eles ficam antes de irem pro inferno. Meu corpo humano gelou, e de repente comecei a rir. Eu estava gargalhando na frente de um corpo sem vida, e tinha entendido o sorriso amarelo no rosto do rapaz que corria. Não é que o morto era o cara do saxofone. Ele mesmo, o dono do instrumento, mortinho da silva. Eu só o reconheci por causa das cicatrizes que eu mesmo lhe dei de presente. Que coisa engraçada. Espere! Deve haver mais diversão pro ai. Quem será o próximo a morrer nas mãos do moço que corre? Pior que gostei desse nome, “O moço que corre”, tanto que vou chama-lo assim pra sempre, até depois que o encontrar lá no inferno. Ainda podia se ver as costas de um casaco marrom que que corria pela mata. Mais um vez quis seguir o fluxo, dessa vez um fluxo bem mais rápido e divertido. Podem haver mais sorrisos amarelos nesse novo fluxo e quem sabe ate sorte. Não, sorte é para os tocadores de saxofone. Me peguei rindo da minha própria piada, me senti meio anjo naquele momento. Corri, corri atrás do moço que corre, fui seguindo seu fluxo no ritmo da musica que o Demon tocava. Era bastante legal sentir o vento arrastar meus cabelos longos e sujos na direção contraria, certas hora me lembrava o assobio do anjo, outras horas me lembrava do homem morto no parque. As duas coisas me faziam sorrir muito, minhas bochechas estavam até doendo e os pelos que saiam do meu rosto me fazia coça-lo. Refiz todo o caminho de volta segundo esse fluxo de sorrisos amarelos, passei por lugares que já havia visto: O trabalho do humano, a praça onde ele nos encontrou, a casa dele. Parei um instante para admirar o lugar e recordar do momento em que encontrei Demon, ainda podendo ouvir, mesmo que bem baixo a musica que ele tocava no parque.
" -Angelus. - Angelus? - Angelus! - Que nome estranho para um demônio. - Preciso comentar do seu? - Demon é só um apelido para Demetrius Divinum Cardiam. Achei que ficaria mais fácil de se pronunciar se eu abreviasse um pouco, mas não fez muita diferença não, já que lá ninguém se chama pelo nome."

Foi o que consegui lembrar naquela hora. Demetrius Divinum Cardiam, que nome estranho para um anjo.
Quando voltei meu olhar para o objetivo anterior ele não estava mais lá. Parado e ao som da musica distante que o anjo tocava, procurei acha-lo e vi que um casaco marrom havia entrando em um restaurante perto dali. Corri para o lugar, estava cheio de humanos, todos sentados e comendo. Havia muito barulho, de gente conversando, de talheres, de mastigação errada... Não encontrei o Moço que corre. Fique desapontado comigo mesmo, o deixei escapar, droga. Minha chance de diversão sumiu junto com aquele de casaco marrom e dentes amarelos. Até a musica que tocava no parque parou de tocar. Que chatice. Uma mão pesada tocou meu ombro. Me virei no susto e com violência e escutei uma voz conhecida que me disse: - Então é aqui que você almoça, hem? Somos dois.

...

Esse é o Kenny, gente boa ele, mas um coitado.


Arrocha Tchê.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Acampamento Shamanico. Parte Um.


Tudo começa com uma historia. Minha historia. A historia do dia em que decidi sair de casa. Eu tinha dezesseis e estava convencido, faria exatamente a mesma coisa de sempre.


- Pai, posso sair?
- Pergunte a sua mãe.

- Mãe, posso sair?
- Fale com o seu pai.


Peguei minha bicicleta, o bornal e parti.
Se nem um dos dois teve argumentos necessários pra me manter em casa, para mim, não haveria problemas na hora de ir embora. Eu também nunca achei quele bom motivo pra ficar em casa.


Nunca houve lugar algum pra ir, a cidade era pequena e se você quisesse sair dela teria que faze-lo pelo mesmo lugar que se entra. Havia sim uma alternativa de se esconder, uma velha ponte perto da floresta. A ponte começava em solo firme e claro, tinha apenas um poste de iluminação na entrada, há uns dez metros de distancia podia-se ver onde a neblina começava. Era sim um bom lugar de se esconder, depois que a ponte se partiu em duas e a neblina começou a tomar conta do outro lado da cidade, toda a população se mudou para o centro, a parte baixa da cidade, como chamam. O lugar nunca fora grande, pareceu bem menor depois da divisão de terras. As pessoas que ali permaneceram morreram todas, ou simplesmente nunca mais se ouviu falar. Dizem que mais uns quarenta metros pra dentro da neblina a ponte se acabava e que todo o resto da ponte que ligava a cidade baixa a alta fora totalmente destruído. “- Será possível só o acesso aéreo.” Disse o prefeito na época, mas eu não me lembro muito bem das coisas, era muito criança quando tudo aconteceu. O mais engraçado sobre a ponte são as historias que contam de como ela foi destruída. Infinitas vezes ouvi minha vó contar historias sobre uma tribo que vivia nas montanhas, hoje a parte alta da cidade, e que foram expulsos de lá quando a cidade começou a crescer. O que minha vó dizia era que essa tribo voltou pra recuperar suas terras e destruiu a ponto na tentativa de fazer isso da forma mais pacifica possível. A tribo nunca foi vista, antes ou depois da ponte ser destruída, ou até mesmo construída. Os mais jovens na época diziam que um homem, um assassino, fugindo da policia veio se esconder aqui, e vendo que a neblina estava tomando conta da parte alta da cidade resolveu destruir a ponte e se esconder por lá. Com certeza era um ótimo lugar para se esconder, pra sempre se assim desejasse. Existem registros de que esse misterioso homem existiu, saiu até foto no jornal. Um homem feio, estragado, com vários ferimentos pelo corpo, arrastando uma cadeira de rodas em direção a ponte. Ele passou em frente a nossa casa, minha mãe ficou apavorada. Na metrópole só se falava desse assassino. No entanto, quando o homem foi visto caminhando pela cidade a ponte já havia sido destruída e todos moradores já haviam sido transferidos.
E aqui estou eu, frente a frente com a misteriosa ponte. Não vim aqui descobri seus segredos, vim apenas me esconder. Tinha a permissão de quem pouco ligava e não tinha motivos nem um para não faze-lo. Pedalei pela ponte, dez metros depois e eu não enxergava mais nada, não havia um só lugar para onde olhasse, a neblina estava sempre densa. Pedalei sem muita velocidade por mais ou menos vinte minutos. Havia medo em mim, a qualquer hora a ponte poderia acabar e eu despencaria de uma altura que nunca soube qual era. A neblina piscou. Julguei como cansaço, sono, sei lá. Ela piscou outra vez, e outra, e mais outra. Nessa terceira vez a neblina ficou amarelada e menos densa. Consegui sentir o vento fresco das colinas vindo de uma direção que eu não sabia exatamente qual era. Continuei pedalando e observei a cortina amarelada ir se dissipando aos poucos. Olhando pra cima e um pouco ao longe eu podia vim de onde vinha a cor amarelada da neblina. Era um poste. Um outro poste por traz de todas aquelas nuvens. Desci da bicicleta e a carregando comecei a caminha cuidadosamente observando tudo a minha volta. Podia ver formas através da neblina. “- Será o fim, onde a ponte se partiu?” Pensei. As formas foram ficando nítidas e cada vez mais nítidas, as nuvens foram desaparecendo, eu podia ver as montanhas, podia ver o poste e sua lampada piscando, podia ver... podia ver tudo. Havia um carro parando antes do fim da ponte, os faróis estavam ligados e uma das portas aberta. Era um Chevrolett, desses bem antigos, vermelho, botino e em bom estado. Por traz do carro podia se ver a cidade que foi deixada pra traz, casas, lojas, igreja, tudo. Lá não havia luz, mas a lua a iluminava bem essa noite. A outra parte da ponte fora realmente destruída. Em baixo de mim um pequeno córrego, de aguas limpas. Era bonito ver o reflexo do céu em suas aguas. Havia lixo perto do velho Chevrolett, não entendi muito bem como aquilo fora parar ali. Larguei a bicicleta no chão e caminhei ansioso até o carro para ver o que tinha dentro, ao chegar perto um helicóptero rompeu o silencio da noite naquele lado da cidade , passou rasgando o céu e iluminando com um canhão de luz algumas partes da cidade morta. Ouvi um barulho vendo da parte de baixo da ponte, como se alguem arrastasse alguma coisa incrivelmente pesada em minha direção. Quis ver de onde vinha, mas tudo ecoava nas paredes das montanhas, era impossível identificar de onde vinham os sons. Barulho de garrafas de vidro se batendo, muitas garrafas de vidro. Olhei pra traz e nada, corri para um lado da ponte e olhei para baixo, apenas o córrego por lá. Corri para o outro lado da ponte e quando olhei só pude ver o reflexo da lua. Quando cogitei a possibilidade de estar ficando louco, uma caixa vermelha, dessa de plastico de guardar garrafas de vidro, apareceu na frente, atrás do carro. Me aproximei, e logo vi um braço se apoiando na ponte, vindo de baixo, de onde a ponte termina. Depois veio o outro braço e seguido dele um homem.


- Ah! Você chegou. - Disse ele tirando a sujeira das roupas surradas. - Demorou tanto assim pra tomar coragem de atravessar a neblina.


O helicóptero passou de volta com o canhão de luz focado no córrego dessa vez.


- Esses bostas! Eles nunca vão parar com essa enganação. - Falou pegando uma das garrafas que havia dentro do engradado. A abriu no dente, cuspiu a tampa fora e tomou um gole. - Você quer?


...

Arrocha Tchê!

Angelus.


Angelus.


É calor aqui dentro e faz muito barulho lá fora, não entendo porque tanta espera, não há mais ninguém aqui. Nunca fui chamando aqui, aqui é pros rebeldes, os lutadores, aqueles que por motivo algum sentem alguma coisa que os mantem erguidos, nunca entendi os rebeldes, os lutadores. Ainda assim espero bastante, essa espera se torna meu verdadeiro inferno. Qual tortura seria pior doque me por aqui sentado a esperar, sozinhos com meus pensamentos? Pensar é um luxo que não se adequa a mim. Quem seria capaz de deixar um criatura a sós com os seus próprios pensamentos?
- Entre – Me chamou a voz lá de dentro.
Entrei, haveria de me esconder de mim mesmo em qualquer outro lugar com mais informações. Lá dentro era bem mais quente, e lá fora se escutava barulhos intensos, de gritos, gemidos...
- Qual o nome? - Perguntou o cara do balcão, aparentemente se chamava Boss.
- Angelus!
- Expulso!
- Expulso? Por quê?
- Não lhe interessa.
-É de bom tom ao menos me deixar ciente do que está acontecendo.
O Boss me olhou com uma cara de impaciente, bufou três vezes antes de recomeçar a falar.
- Você tem causado muita dor e sofrimento? - Me perguntou tentando manter os dois olhos abertos.
- Não, eu...
- Expulso! - E carimbou alguma coisa numa pilha de papeis encima da sua mesa.
Boss me deu uma pasta amarelada, havia uma foto dentro, um ser extremamente descritível, daqueles que você vê e sabe que é humano.
- Quem...
- Mikael Galati. Não precisará de mais nem uma informação. - Quanto mais Boss falava, mas me confundia.
- Mas o que...
- Um cristão aqui, um outro católico ali, mais um grupo de estudos com uns trita religiosos fanáticos. Tudo isso ele fez.
- E eu supostamente deveria...
- Mata-lo! - Boss como que regesse uma orquestra gesticulou a mão enquanto falava. - Me diga uma coisa, garoto. Gosta daqui?
- Sim.
- Então mati-o e tudo voltará a ser quente e barulhento outra vez. - Com uma das mãos, que era enormemente maior que a outra, Boss bateu na mesa e gritou: - Expulso!
Eu não tive muito tempo de pensar durante a viajem. Pensei no quanto estranho era esse sujeito Boss, e que não me recordava de ter falado com ninguém antes dele. Depois pensei que se devia matar o Mikael teria que andar entre os humanos. Pensei também que se eu estava vindo do inferno porque diabos eu estava caindo? Que castigo esse, em? Não tenho só que matar um humano, como também tenho que pensar sobre isso. Opa, o chão!

Segunda-feira.
Ep. 1. - Aprendendo com as cabras.


A queda nem foi tão horrível assim, mas sentia algumas agulhadas no corpo e ficava me perguntando para que ter um corpo se a úncia coisa que eu conseguia fazer era pensar. Estava pensando desde que entrei naquela sala. É como se meu castigo por não causar tanta dor e sofrimento tivesse começado antes mesmo de começar. - Ai! Uma fisgada na coxa. - e olha que eu ainda nem estava tentando ficar em pé. Na verdade, a temperatura do asfalto naquele momento estava extremamente agradável. Os carros faziam barulho de buzina, de pneu, de portas batendo, era como se a terra dos humanos estivesse me dando boas vindas. Eu tentei me levantar, apóie-me nas mãos, depois fiquei de quatro igual a um bezerro, depois só de joelhos podendo deixar a coluna ereta, parecia-me importante ter a coluna ereta, depois me equilibrando com mal jeito consegui ficar de pé. Não foi difícil não, tive apenas que imitar as pessoas que ali passavam. Depois vou aprender como faz esse olhar recriminador que eles tanto me lançam, quem sabe assim posso me misturar com mais facilidade. Pois é, estou oficialmente andando entre os humanos.
- Ô, filho de uma puta! Saia da frente. - Alguem de dentro de um desses carros me chingou e eu adorei. Os palavrões me lembravam de como é quente lá em casa.
Eu estava nu, não que eu ligasse, mas minha nudez estava causando muito impacto naquelas pessoas eufóricas que passavam para lá e para cá, sempre com aqueles mesmos olhares. Eu precisava me vestir, só assim poderia me misturar com mais dignidade, mas o que eu vestiria. Mais uma vez me peguei pensando. “Como supostamente alguem que foi recentemente expulso do inferno se vestira para caminhar entre os mortais?”. Lembrei do Boss, como ele se vestiria? Um terno, provavelmente. Ele iria querer fazer a linha social pra disfarçar o porco que é. Cogitei a possibilidade de me vestir igual aqueles góticos, com pulseiras, colares e anéis de metal. E eu usaria uma daquelas camisas com um mortal com a cara pintada de vermelho, caninos afiados, e dois córneos na cabeça. Acho essas camisas um barato. Mas parece que o grande segredo do disfarce é você se torna o que mais aparenta ser. Tive um ideia! Havia uma loja de tecidos a minha frente, e não foi difícil achar um pedra que pudesse destruir aquela vidraça. Foi uma sensação tão extraordinária ver aquela vidraça inteira virar milhões de pedacinhos de vidro. Entrei na loja, a porta estava aberta, não havia necessidade de quebrar a vidraça, mas foi divertido. Tinha um tecido branco ao meu alcance eu me enrolei nele, assim cobrindo a minha nudez, depois fui embora pela mesma porta que entrei. Não foi preciso quebrar mais nem uma vidraça, infelizmente.
O ser humano possui instintos, tentei seguir os meus, mesmo sabendo que não iam me levar a lugar algum, mas não havia pra onde ir quando não fazia a minima ideia de onde o Mikael Mortal estaria.
Por falar nele, tenho que bolar um plano para mata-lo. “Bom, eu posso, quando encontra-lo, me apossar de um corpo mais forte que esse e estrangula-lo”. Perfeito! O plano já foi feito, muito simples, nunca o fiz antes, já ouvi alguem comentando, mas não pode ser tão mais complicado do que manter a coluna ereta o tempo todo.
Passei por um ser, um humano que tocava alguma coisa, era um barulho irritante,harmônico, me causava náuseas. Ah, como era irritante. Pensei em começar todo aquele lance de estrangulamentos com ele, mas não era o meu foco, não ainda. Tenho pena desse senhor se depois que o Mikael estiver morto, me sobre algum tempo pra caçar esse desgraçado. O estranho é que as pessoas lhe davam dinheiro. Este senhor que tocava um saxofone deixava uma caixa preta a seus pés, provavelmente o lugar onde guardaria o seu instrumento de tortura depois, para que, as pessoas que se incomodassem com o barulho jogassem algum tipo de agrado, para que ele pudesse parar de tocar. Mas ele não parava de tocar, eu me encontrava admirado com a cara de pau de um ser humano que não tinha em nem um escrúpulo...
- Aí, Cristo! - Falou o homem do saxofone para mim. - Porquê você não multiplica todo esse dinheiro e ai, quem sabe, não te pago um sopa mais tarde.
Não foi ele me chamar de Cristo que mais me irritou, mas ele queria ver seu dinheiro multiplicado e me ofereceu apenas uma sopa, quanta bondade. Espera ai, dinheiro?! Então é isso que é dinheiro, a verdadeira força que rege o universo? Ótimo, preciso dele.
Peguei a caixa preta com todo o dinheiro dentro e sai.
- Ei, irmão. Vai pra onde com isso? - A voz rouca do senhor do sax me condenava tal qual os olhares da multidão.
Eu pensei que por ele achar que eu era seu salvador talvez não se incomodasse se talvez eu precisasse de algum dinheiro emprestado.
Ô, irmão. Trás de volta isso aqui, mané.
Não sei porque mas a palavra irmão me dava uma certa ânsia, queria cuidar para que ele nunca mais chamasse ninguém de irmão. Ele achou que tinha algum poder porque me fez voltar de onde estava para, imaginou ele, lhe devolver a caixa preta. Foi falar alguma coisa, mas antes que ele pudesses construir alguma sentença eu arranquei o saxofone do seu pescoço e o bati contra seu rosto duas vezes. O homem caiu ensangüentado no chão, todos que passavam pela calçada me olharam boquiabertos. Comecei a me sentir realmente como o salvador. Pus o sax na caixa preta junto com o dinheiro e mais uma fez sai andando, dessa vez com a estranha certeza de que ninguém iria me interromper.
De volta ao plano, com o dinheiro eu poderia me adaptar com mais facilidade, mas ainda não havia completa certeza de como deveria me vestir. Não poderia sair por ai fantasiado de Jesus Cristo, por mais confortável que as sirenes me fizessem sentir, sabia que se elas chegassem muito próximas de mim, minha missão se tornaria um pouco mais longa. Preciso de uma outra ideia, enquanto ela não aparece vou pensar no motivo que me fez trazer esse instrumento comigo. Não sei toca-lo, odiaria se soubesse, ele pesa em uma das mãos, o que torna minha caminhada um tanto quanto cansativa... Eu não posso voltar com isso para o inferno, que desculpa daria? Que trouxe isso como como um suvenir para o Boss? Imagino o que ele diria.
“ - O que é isso, garoto? Chama isso de presente? Olha, próxima vez que voltar para o inferno me traga um politico, um coroinha ou o proprio Kenny G. Não me traga uma dessa coisa sem utilidades.”
Definitivamente não poderia leva-lo comigo de volta ao inferno. Ops, ideia chegando, penso sobre o sax mais tarde.
Havia uma loja de esquina na calçada que eu seguia, entrei. Todas as atendentes me receberam com uma enorme surpresa. Coloquei a caixa preta no chão perto dos meus pés, me despi na frente as atendentes, todas elas vestidas de maneira bem curiosa, e disse: - Como vocês acham que uma pessoa como eu deveria se vestir? - Em seguida abri a caixa preta com um dos pés, e algumas notas do dinheiro que estava ali dentro começaram a voar. Dinheiro que milagrosamente havia sido multiplicado enquanto estava dentro da caixa. Quando as funcionarias viram a quantidade de notas de cinqüenta que flutuavam no interior da loja a minha nudez se tornou a segunda coisa mais interessante daquele lugar.
Então, vistam-me.
Foi fácil, como tudo que tentei conseguir desde que aqui cheguei. A loja me vestiu em menos de cinco minutos com roupas tão curiosas quanto as das pessoas que lá trabalhavam. Quando perguntei o que era tudo aquilo, me explicaram que eu havia entrado em uma loja de cultura indiana (e eu lá sabia o que era isso) e que a únicas roupas que elas tinham eram aquelas ou outras bem parecidas. Já havia gastado muito do meu tempo que não tinha importância nem uma, mas achei mesmo que já estava na hora de ir, as roupas não eram das mais bonitas, mas aparentemente eram confortáveis, achei-as frescas demais, mas já era mesmo hora de ir. Tirei todo o dinheiro que ainda havia na caixa e o entreguei a uma das atendentes. Peguei a caixa com o sax dentro e fui embora. As atendentes explodiram em alegria com todo aquele dinheiro em seu poder, eu apenas encarei a rua e pensei como é que ela me levaria ate Mikael Galati. Desde que cai aqui pude perceber que os humanos não sabem pra onde vão, eles não fazem ideia, os humanos apenas seguem um fluxo que alguns depois chamariam de destino. Talvez, se eu tentar não pensar para onde estou indo e apenas tentar seguir o fluxo como um rebanho de cabras, eu possa acha-lo mais facilmente. Segui as primeiras costas que vi. Enquanto andava mais uma vez pela calçada vi que um homem invadira a loja indiana, ele estava armado, disparou alguns tiros, matou algumas atendentes e depois fugiu com algum dinheiro. Humanos... Ganancia... Nunca entendi a relação entre essas duas coisas.
As ruas me levaram para vários lugares, mas nada nunca parecia com o lugar onde eu deveria ficar. Segui varias costas para varias direções diferentes e a essa hora o sol já estava se pondo e o saxofone já tinha deixado um dos meus braços completamente dormente, e quando eu já estava começando a achar que essa seria a primeira tarefa complicada da minha missão algo me atingiu com força. A caixa preta se abriu e o sax caiu no chão, algumas peças rolaram. Vi ali minha oportunidade de me livrar do instrumento incomodo.

- Por favor, me desculpe. Esse deve ser o seu ganha pão. Ando tão distraído ultimamente. Minha mulher me bipou, ela está gravida, sabe? Fica histérica quando não estou em casa quando ela mais precisa. Minha sorte é que trabalho perto de onde moro, assim posso sempre estar lá quando ela chamar. Mas ando tão distraído, meu Deus, me desculpe!


Que figura estranha, enquanto falava recolheu os pedaços do saxofone e os colocou junto com o instrumento inteiro dentro da caixa. Se levantou e me entregou a caixa preta.
Bom, sei como são essas coisas, mas não se preocupe, faço questão de pagar o concerto. Olha, logo ali tem uma loja de instrumentos musicais, eles fazem manutenção também. Vai lá e depois me liga que eu faço questão de pagar, tudo bem por você? Aqui esta o meu cartão. - Ele apalpou os milhões de bolsos que tinha, tempo suficiente pra eu me da conta de que eu não possuía nem um bolso. Finalmente ele achou o seu cartão, entregou e saiu apressado, dizendo: - Amanhã mesmo, me liga. Trabalho aqui nesse prédio e moro apenas a duas quadras daqui. Toma isso como garantia. Tchau, até amanhã.
Que inútil, agora tenho um instrumento quebrado e igualmente pesado.
Eu deveria liga-lo mesmo pela manhã, quem sabe lhe marcar um encontro com a morte. É claro que eu estava desconfortável com toda aquela perda de tempo, agora as ruas estavam desertas não haviam mais costas pra seguir, e nem precisaria, pois quando olhei o cartão que o sujeito me deu, li: Mikael Galate, corretor de seguros.
O meu corpo humano me dizia que eu não deveria segui-lo, não por agora. Dizia que eu devia sentar-me em algum lugar, admirar as coisas, as ruas, respirar... Eu nunca fora acostumado a respirar, de quê me servia? Alem disso, quanto mais rápido o humano fosse morto, mais depressa eu me livraria das obrigações que tinha para com aquele corpo.
Ahh... O silencio das ruas desertas na tão próxima noite... É extremamente irritante. Como não faz nem um sentido um sopro fazer mais barulho que passos.
Sopro que alias eu não fazia ideia de onde vinha, me lembrou o som do saxofone, porem agradável. Ah! O saxofone, finalmente ele começou a fazer algum sentido, mas ainda assim pesava igual.
É logico que vou segui-lo. Quem sabe até possa usar os pedaços do sax para faze-lo sofrer antes de mata-lo.
Que sujeitinho engraçado era o Mikael, me pegava rindo da sua morte antes mesmo de provoca-la. Senti então uma coisa inédita; seguir alguem de longe era bem mais divertido.
Ele dobrou uma rua, e depois parou em frente a uma casa de portão verde, que cor desagradável, apalpou mais uma vez os milhões de bolsos até achar o que procurava: - Chaves, é claro. Como um humano pode entrar em casa sem ter chaves? - Quanto mais os observava mais os achava parecido com um rebanho de cabras. Ele entrou e fechou o portão, acho que pensou que isso o livraria de todo mal, amém. Vou me sentir bastante satisfeito em mostrar pra ele que eu não preciso de nem uma chave. Andei devagar pela calçada que me guiaria até a casa de portão verde, fui quase dançando ao som daquele sopro musical que ficava cada vez mais alto e bonito. Não foi muito e eu já sentia quele corpo humano balançando o esqueleto ao som da musica ritmada que vinha de qualquer lugar. Em outra situação eu me viria preocupado, mas como faltava pouco para eu me livrar dos caprichos daquele corpo irritante, acabei não dando muita atenção pra repentinas coisas estranhas.
“- Por isso que existe uma nuvem tensa entre os humanos, eles se preocupam com coisas demais, coisas que provavelmente seriam irrelevantes, extremamente irrelevantes.” - Pensei.
De frente para a casa de portão verde eu estiquei minha mão em direção ao cadeado, meus pés ainda acompanhavam o ritmo da musica assoprada, o cadeado se abriu, eu abri o portão e me preparei pra entrar. A musica misteriosa simplesmente parou de tocar, nas ruas o silencio xarope se perpetuou, ao menos até eu ouvir:
- Hum... Não é uma boa ideia.
As ruas estavam desertas. Haviam eu, uma musica que de repente sumira, um homem em casa esperando pra ser morto e só. Mas agora me aparecera uma voz doce que me dizia que não era uma boa ideia. Me virei para checar de onde vinha a tal voz. As minhas costas havia um homem, trajava preto e segurava uma maçã estupidamente vermelha em uma das mãos. “Vermelho é uma cor legal.” Pensei. Se eu era o zero dos seres humanos, numa escala até dez ele era nove e meio. Ele sorriu e os meus olhos arderam, saiu fumaça de sua boca, e só depois pude ver seus dentes, que me pareceram bastante agradáveis. Quando olhei em seus olhos tudo parou. O tempo, o mundo, as minhas irritações, até meus pensamentos pararam. Que sençassão mais agradavel. Não senti passar, mas quando o tempo voltou a correr normalmente já era madrugada do dia seguinte. Ele riu e emitiu um som que me lembrou um pigarro.
- Run...
- PUTA QUE PARIU O JEGUE! UM ANJO, PORRA?!
Ele levou a maçã até a boca, deu uma mordida suculenta e ainda mastigando se apresentou.
- Demon, prazer.
...



Arrocha tchê.

Que fique claro que...


Bom, sei que demorei a reviver isso aqui,
mas é que tava esperando sonhar com algumas coisas legais pra poder escrever sobre elas.
Agora, depois de muito ter sonhado, existem três projetos que vou começar a postar aqui.
São eles:


1 – Angelus. – Um amigo meu, Spiger, escreveu uma historia sobre anjos e demônios com uma missão curiosa entre os humanos. Decidi transformar esse pequeno conto em oito episódios, que contam com mais detalhes a passagem do demônio aqui na terra.
2 – Salvação Shamanica. – Sonhei uma vez com o fim do mundo, e esse historia sem previsão de final, ainda, conta as coisas que vi acontecer.
3 – Enquanto isso. - É um universo paralelo de Salvação Shamanica, conta a historia de uma garota que vive a confusão de sua vida sem sequer imaginar que o fim do mundo está próximo. Essa historia é contada pelo personagem principal do Salvação Shamanica.


Espero que gostem,
e aproveitem como se o fim estivesse mesmo próximo.
Imagem, até, faz bem.


Arrocha Tchê!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Nono clichê. Parte dois.

" É só mais um fim pra um outro novo começo."

Chovia muito. Porque tinha que chover tanto? As coisas pareceriam bem menos tristes se fosse mais um dia ensolarado. Eram quatro hora da tarde de um dia doze de um mês qualquer e eu estava ensopado, de pé, encarando o pequeno lago que só fazia crescer. Um dia alguem me falou que ali haviam sanguessugas, mas nunca soube se era verdade. Mas em que diabos estou pensando, sanguessugas? Poderia ser qualquer outra coisa, minha cabeça estava se esforçando muito em tirar você dos meus pensamentos naquele momento, mas todas as tentativas frustradas com o fracasso. Pensava que se estava ali era mesmo pra me torturar com os pensamentos em você. Há quatro anos atrás, no dia 12 de um outro mês qualquer, estaríamos juntos nesse mesmo ponto do parque onde estou, falando bobagens, comendo besteiras e caçando estrelas. Fazia tanto frio no lugar onde estava, mas qualquer outro lugar varia o mesmo frio, o vento gelado me escolheu como companhia por quê não haveria ninguém mais pra escolher. Eu estava só no parque, a chuva deve ter impedido as pessoas de saírem de suas casas aquela tarde. Engraçado, não percebi que estava chovendo até chegar aqui e ficar encarando o rio das sanguessugas. Muita coisa é engraçada, mas porquê não estou rindo? Só as mais fortes ironias me fariam rir nesse momento, ou o Vitor com suas milhões de perguntas. Mais um gole e lá se foi o último da minha garrafa de Gin. Eu estava acabado, arruinado, tão perdido que queria me mexer mas não conseguia convencer meu corpo de que seria uma boa ideia, pois não o saberia dizer para onde iriamos. Não havia nada além do barulho repetido da chuva, ao menos alguma coisa naquele parque me deixava confortável. Quando comecei a achar que nada ali mudaria eu levantei o rosto para o céu e tentei, sem sucesso é claro, achar alguma estrala, quem sabe a primeira. Deixei a agua molhar meu rosto machucado das noites mal dormidas e das bebidas. As gotas de chuva se misturavam com minhas lagrimas e salivas de gritos e dançavam como amigas próximas. Não possuía nem um plano ou espectativa, eu iria até lá, iria chorar, como sei que faria, gritar e depois, mais uma vez, fazer sozinho o que costumávamos fazer juntos.
Os céu em forma de destino sempre me reservara surpresas agradáveis, mas você aparecer naquele parque naquele mesmo dia doze, com toda aquela chuva e deserto, fora demais surpreendedor.

- Como soube que estaria aqui?

A verdade é que queria te abraçar, mas como não bancar o durão escondendo os meus verdadeiros desejos depois de tanto tempo?

- Eu não sabia, não haveria como saber.
- E o que faz aqui?
- O mesmo que faço todo dia doze desde que os dias doze começaram a significar alguma coisa.
- E isso foi quando?
- Há muito tempo atrás, quando você me... Não, melhor. Quando nós decidimos que deveríamos namorar, bem ali em um daqueles bancos.
- Isso já faz muito tempo, não é mesmo?
- Faz um tempão, mas nunca foi o suficiente para nos fazer esquecer.

E mais uma vez bancaria o durão mentindo que já teria esquecido tudo aquilo a muito tempo, mas as palavras simplesmente não obedeciam mais os meus comandos.

- Não ouse me dizer que esqueceu. Não estaria aqui se tivesse esquecido de tudo.
- Eu não esqueci. Gostaria de poder, simplesmente apagar cada segundo desse parque em minha mente, mas nunca tentei fazer isso com medo de não conseguir.
- E viveu com isso dentro de você esse tempo todo?
- É o que sempre faço, me engano e me convenço de que é o melhor a se fazer.
- Todos nós cometemos erros, sabe?
- O meu foi achar que você estaria aqui sempre.
- Sempre é o tempo todo.
- NÃO, sempre não é todo dia.
- Sempre nos dias doze você quer dizer?

A conversa começara a ficar intensa, pela primeira vez desde que você chegou consegui te olhar nos olhos. As palavras agora pareciam ofensas afiadas.

- É. Sempre é nos dias em que eramos pra estar.
- Eu sempre estive aqui. E sempre é sempre. Eu estava aqui nos dias doze e nos outros dias também. Eu estive aqui durante uma semana inteira, mas você simplesmente desapareceu, sumiu sem...
- Você não estava aqui naquele dia doze, o dia doze que deveria estar. Não era fácil pra mim, você sabe. Eu tive que suportar a distancia, tive que encher minha cabeça com coisas extremamente fúteis quando a única coisa na qual eu queria pensar era você. Eu nunca acordava feliz a não ser nos nossos dias doze, por quê eu saberia que iria ver você e que durante algum tempo a saudade não ia me cobrar tanta atenção. Naquele dia doze eu acordei muito bem, eu me fiz panquecas para o café da manhã por quê eu sabia que você adorava panquecas. Eu tomei café olhando nossas fotos e outras fotos antigas por quê era isso que fazíamos quando acordávamos de muito bom humor. Eu peguei um maldito ônibus, e você sabe que eu odeio andar de ônibus, por quê me atrasei ensaiando uma maldita musica que eu escrevi pra você e que hoje nem consigo mais lembrar a letra. - Minha voz estava totalmente desafinada, eu te gritava minhas dores enquanto os teus olho se enxiam de lagrimas. Já não haviam espaço para lagrimas nos meus olhos ou rosto. A chuva nunca ajudou pra que tudo parecesse menos triste. - Eu esperei por você, sozinho nesse parque por intermináveis horas, eu esperei por você, mas você nunca apareceu. Você nunca apareceu. Então eu entendi tudo. Assim evitaríamos momentos de chuva como esse.
- E você simplesmente sumiu, sem pistas, telefonemas, não respondeu os meus e-mails, ninguém sabia de você. Você seguiu em frente, eu fiz o mesmo. O QUE VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE?
- Queria que você estivesse estado lá.
- Mas eu estava, MERDA! Eu estava lá. Eu cheguei a hora que deveria chegar e vi você em pé olhando pra essa porra desse lago pensando em sei lá oque e chorando, como você sempre fazia nos outros dias doze. Sempre, sempre! Sempre que eu chegava você estava em pé, encarando a agua e chorando, exatamente como agora. Depois que me via você tentava ridiculamente esconder as lagrimas e mostrar que estava tudo bem. Eu sentia tanto em te ver tão triste. Nunca parei de me culpar por ter começado a nos separar o poucos. Naquele dia eu não suportei te ver daquele jeito. Paguei um taxi de volta e passei o dia na casa da minha irmão. No outro dia a tarde fui até o apartamento... Eu ainda tenho as chaves, sabia disso? Quando cheguei lá não havia ninguém, nada. Suas roupas, livros, fotografias, tudo. TUDO! Não havia mais nada lá. Eu quis morrer de tanta raiva de mim mesmo e de você também naquela cama que costumava ser nossa. NOSSA, MERDA! - Seus olhos não comportavam mais as lagrimas. Você ficava tão lindo chorando. Fora sempre tão perfeito, a natureza sempre lhe ajudara tanto. A chuva em teus cabelos te deixava tão bonito, até o vento mudava de direção para embelezar você. Cada palavra dita parecia uma marretada na minha cabeça dura. - E sabe o que eu achei jogado no chão perto de umas caixas onde você guardava nossas fotografias? O Caco. Você lembra dele. Um maldito leão de pelúcia que costumávamos tratar como filho. E você o deixou lá, jogado, como se fosse algo que...
- Você prometeu cuidar dele e depois me deixou sozinho com todas as lembranças que haviam naquela casa. As lembranças que um dia me deixavam feliz e no outro me faziam chorar. Será que você não percebe que a nossa relação acabou no dia em que você saiu daquela casa?
- Eu sei que a culpa é minha. Eu nunca tentei culpar você pelo fim do nosso relacionamento, mas você fugiu.
- Fugi de todas as coisas que podiam continuar me machucando...
- VOCÊ FUGIU DE MIM!
-DA MESMA MANEIRA QUE VOCÊ PARTIU POR NÃO QUERER ME VER SOFRER EU PARTIR PRA EVITAR SOFRER MAIS. Você sabe que não tinha o direito de decidir isso pra mim, antes sofrendo por você mas ao seu lado do quê ter que sofrer a eternidade longe de você.
- CARALHO. EU SEI QUE EU ERREI MAS VOCÊ NÃO ENTENDE? VOCÊ, RAVI, NUNCA ME DEU A CHANCE DE SER PERDOADO. VOCÊ NUNCA ME DEU A CHANCE DE ACERTAR AS COISAS, DE TE PEDIR DESCULPAS. VOCÊ FUGIU E FAZENDO ISSO ME AMARROU NA CULPA DE TER DEIXADO O AMOR DA MINHA SOFRENDO SOZINHO. Você nunca me deu a oportunidade de te pedir desculpas e isso não foi justo.

Eu nunca o culpei por nada, sempre achei que o fato dele não ter aparecido naquele doze de junho foi o mundo nos tentando dizer que já era hora de cada um seguir seu caminho, mas nesses últimos segundos consegui o culpar por muita coisa, e agora já não conseguia colocar a culpa em mais ninguém exceto em mim mesmo.

- Meu Deus, Ravi. O que aconteceu com você?
- Eu andei bebendo esses dias, não consegui dormi também.
- E onde está aquele seu amigo que...?
- Ele me deixou. Quando acordei antes de ontem ele não estava mais lá. Ele deixou um monte de papeis, achei que fosse um carta ou algo assim, mas haviam poucas coisas escritas. Ele disse: - Escreveu até a oitava, já está na hora de viver a nona.- E foi só. Eu tentei fazer o que ele disse, mas não consegui escrever nada nos papeis que ele deixou, então comecei a beber, mas... De que diabos estamos falando? Você agora tem sua chance de se desculpar, o que esta esperando?
- Desculpa, Ravi. Desculpa por não ter tido coragem de te ver chorar e enfrentar isso com você. Desculpa por ter sido um covarde e ter deixado que nosso amor fosse levado pelo vento e pela distancia. Desculpe por ter feito as escolhas erradas e de ter te ferido diretamente com elas. Desculpe pelo nosso fim.

Ah, os teus olhos. Eu nunca te culpara por nada, o que me faria não aceitar suas desculpas agora?

- Desculpas aceitas.

Você sorriu e um raio de luz atravessou uma nuvem negra que cobria o céul, isso sempre acontecia quando estávamos juntos. Agora o dia parecia um pouco menos triste.

- É minha vez, então. Eu parti e foi a pior decisão que eu poderia ter tomado. Achei que não teria mais você do meu lado para me ajudar a lhe dar com a vida. Precisava me livrar de tudo e começar do zero.
- Depois que sai do apartamento vim correndo pra cá...
- Eu viajei e bloqueei totalmente todas as minhas memorias das coisas que vivi aqui, mas nunca fui capaz de esquece-las.
- Procurei você pelo parque todo, mas não te encontrei em lugar algum...
- Ainda no avião me prometi que nunca mais apareceria aqui.
- Começou a chover e eu abracei o caco nos meus braço e prometi que nunca o deixaria outra vez...
- Eu construí uma vida lá, arranjei um bom emprego e fiz alguns bons amigos. Eu podia sorrir a vontade, mas sempre que estava tudo bem eu sentia que alguma coisa estava faltando, me apareceria um grande vazio dentro de mim.
- Passei a semana vindo para o parque na esperança de um dia encontrar você, as semanas viraram dias em que eu sentia sua falta e esses dias viraram mais um vez o dia doze de cada mês. Quando ouvi dos seus amigos que eles também não tinham noticias de você eu decidi que era hora de começar a caminhar para o futuro outra vez...
- Me envolvi muito com outras pessoas, mas o Vitor era tão presente que quando deixou de ser meu amigo para ser meu namorado eu não senti nada mudar.
- Mudei de volta pra cá, arranjei um outro emprego e comecei a viver como fazia antes de te conhecer. Foi difícil pois eu não conseguia me lembrar muito da minha vida sem você...
- Namoramos muito tempo, mas ele nunca soube das coisas que eu realmente sentia. Nunca me permitir um aproximação muito intensa com outra pessoa que não fosse você.
- Eu conheci a Mirela nas aulas de espanhol, ela sempre fui muito legal comigo, achei que uma hora eu teria que seguir em frente de uma vez. Escolhi ela pois sabia que nem um outro homem seria capaz de viver comigo as coisas que vivi com você...
- Um dia o Vitor me pediu para vim conhecer minha historia, eu não tive motivos pra negar, achava que poderia lhe dar com a cidade antiga e esse parque com muita facilidade.
- A vida era calma, muitas vezes chata, mas era bom vive-la. Até que um dia...
- Foi ai que um dia passeando nesse parque...
- Você voltou, voltou pra...
- Eu te vi, e o meu coração parou junto com todas as outras coisas nesse parque...
- Fiquei tão confuso...
- Fiquei maluco...
- A ultima coisa que me lembro...
- Você me beijando e dizendo...
- Que eu estava lá.
- Que você estava lá.
- Agora estamos ambos aqui.
- Juntos mais uma vez.

E a chuva parou. Sabíamos o que significava mais eu me recusava a acreditar.

- Sabe, ___. A distancia, o tempo que passamos sem nos ver, todas as coisas que aconteceram nas nossas vidas, hoje já não significam muito para mim. O agora, esse exato momento não significa nada pra mim. O que vou fazer depois é o que realmente importa. Pois nada mudou desde que deixei esse parque querendo começar um vida nova, nada mudou desde que beijei você naquele dia na rua, nada mudou desde que sai de casa pra te desenhar um coração de areia e nada vai mudar nunca, por quê não importa se vamos ficar juntos ou não, eu vou te amar. Sempre e sempre eu vou te amar. Posso me deitar com pessoas, posso me deitar com mil delas, mas é com você que eu desejo acordar todo dia. Eu posso namorar, casar, passar anos do lado de uma outra pessoa, mas passarei esses anos pensando o quanta seria melhor se fosse com você. Eu posso morrer agora e minhas energias vão ser canalizadas para um tarefa simples, a de mostrar a você que ainda assim te amo, e vai nascer uma arvore no quintal de sua casa e essa arvore vou ser eu. É por quê esse mundo decidiu que eu iria te amar pra sempre e eu aceitei a decisão do mundo como a minha decisão, a melhor das minhas decisões. E quer saber, eu não ligo! Eu não ligo para o que o mundo decide, não ligo para o amor que sinto, não ligo para o que vou amar depois de morto. Eu não ligo para nada.

Você estava assustado com a reviravolta das palavras, não sabia como ou com o que reagir.

- Esse é teu jeito de dizer adeus?
- ADEUS? - Agarrei teus braços com a força das duas mãos e olhando nos teus olhos te revelei qual era a única pra qual eu sempre liguei. - Não, essa é mais uma das minhas maneiras de dizer que EU TE AMO.

Beijei-te e foi magico. O céu se abriu num clarão e os últimos raios de sol daquele dia nos banharam de luz.

- Então...
- Estar com você é a única coisa para qual ligo, não vou deixar de estar com você jamais.
- Só ligo para o espaço que sua vida preenche na minha.

Olhamos pra cima encaramos juntos um céu limpo, um estranho brilho piscou diante dos nossos olhos. Pela primeira vez tínhamos achado a primeira estrela do céu juntos, ou será que foi ela que nos achou?

- Vamos pra cara, Ravi?
- Sua casa?
- Nossa casa. Você precisa de um banho.
- Preciso escrever minha nona maneira, fica bem mais fácil depois de vive-la.
- Você precisa é cuidar do Caco e ele precisa do seu outro pai. Vamos.

Saímos abraçados e encharcados do parque, sorrindo abestalhados e sentindo o vento frio do começo da noite.

- Espera.
- O que foi, Ravi.
- Eu te amo, _____.
- E eu te amo junto, Ravi Aynore.

E juntos nós fomos viver as nossas vidas “juntos”.


" Eu sei que as vezes sou pra sempre mesmo que sempe não seja todo dia." O.M

A ultima, amor.
do Blog, é claro. Pois ainda vou descobrir mil outras maneiras de dizer o quanto te amo. =)

TE AMO!.

Eronya.

Arrocha Tchê!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Nono clichê.

Nona, última.

Fazia muito tempo que não vinha a minha cidade, desde que me mudei sempre evitei voltar e encarar todo o passado. Três anos, quase quatro. Que loucura! Tanta coisa me aconteceu depois de tudo que vive aqui, e agora estou de volta, passeando pelo mesmo parque, pisando nas mesmas folhas secas de outono, admirando as mesmas arvores que me admiravam a anos atrás.
A noite estava fria e agradável como sempre fora, as pessoas passavam, algumas delas se quer lembravam de mim, nada que me incomodasse, muitas delas não significavam nada pra mim, mas mesmo assim elas continuavam ali, passando. A nostalgia me maltratava, isso não era visível a minha companhia, pois estava me esforçando o máximo para transparecer que o passeio noturno ao parque do meu passado estava sendo agradável.
- Amor? - Disse ele.
- Oi.
- Vinha muito aqui?
- As vezes, com alguns amigos. Por quê?
- O jeito como você olha as coisas, parece que está em casa.
- E estou, querendo ou não voltei pra onde tudo começou. É tão irônico que...

O mundo parou, parou a minha voz, o tempo, as pessoas que passavam, parou o coração, a abeça e os meus olhos em você. Eu tinha medos, mas todo eles muito difíceis de acontecer, esse era um deles. Encontrar você no parque onde passávamos as tardes depois de quase quatro anos era, para mim, algo simplesmente impossível. O mundo ainda parado, e só você se movia, lentamente, cortando as pessoas congeladas assim como o tempo. Naquele momento só você tinha vida, e os meus ousados olhos que te seguiam. Tudo voltou a funcionar, me engasguei com algo que não existia, Vitor do meu lado me admirava espantado. Você estava ali, no mesmo lugar que eu, na mesma hora, na mesma noite e eu podia ver o teu sorriso, finalmente, depois de tanto tempo. Havia com você uma moça, sua namorado, noiva, sei lá. Era pra ela que você sorria tanto. Olhos, cabeça, ombros, corpo, todos eles te seguiam pelo parque. O Vitor me perguntava: - Mor, você tá bem? - mas eu sequer estava la para lhe responder. Era lindo como a brisa gelada da noite ainda brincava com os seus cabelos sempre lisos. E tudo parou outra vez. Seu olhar encontrou o meu e de instante se desfez o belo sorriso. Seu corpo ia, mas teus olhos permaneciam nos meus. De lento para mais lento você foi parando, apertou com força a mão de sua companheira e o vento finalmente se afastou dos teus cabelos. Tudo parado, teu olho no meu... A vida voltou a correr depressa quando você desviou o teu olhar pro chão, pensou, exitou, me olhou de novo, acenou e sorrio. Meu coração gelou, tudo lá fora se movia com rapidez, menos meu organismos, meus pensamentos, minha vida, que lentamente exibia um filme diante dos meus olhos. Com muito peso também te acenei e com muito pesar sorri. Feito isso você saiu arrastando a garota que lhe acompanhava e sumiu na multidão de casais a passeio. E em mim, nas minhas veias, corria a agua mais gelada que se possa imaginar no lugar do sangue. Petrificado os pouco fui voltando ao presente do parque frio agradável, seguindo a voz de Vitor que não parava de me chamar.
- Amor? Amor?
- Quê?
- Quem era?
- _____!
- Sim... Quem era?
- Me ex-namorado.

Vitor falava demais as vezes, não era uma coisa que me irritasse, mas tinha dias que acompanha-lo pra qualquer lugar não era tão agradável, esse estava sendo um desses dias.

- ____, de ____ ____?
- Isso mesmo.
- Aquele sobre o qual você sempre escrevia?
- Esse.
- Aquele que... - Quando ele falava demais eu simplesmente ignorava o final das frases e julgava o que tinha que responder pelo inicio delas.
- Hunrun, isso!
- Ele é bonito!
- Está mais bonito agora.
- E aquela, quem era?
- Ouvi dizer que ele estava namorando, mas nunca soube se era verdade. Ela deve ser a namorada de verdade dele.
- Nunca acreditei nessa historia de ex-gays.

Eu não gostava quando o Vitor falava das coisas que ele acreditava ou não, mas aquilo nunca tinha me deixado muito zangado até agora. Vê-lo falando de você, te julgando, me fez crescer um estanho ódio dentro do meu casaco de frio.

- Quer saber... Porque você não vai até aquele quiosque e nos compra alguma coisa quente pra beber. O tempo esta começando esfriar aqui no parque.
- É uma boa ideia, você não vem junto.
- Não... Sabe, eu costumava sentar aqui sozinho depois de uma longa caminhada. Era aqui que eu refletia sobre as coisas que me aconteciam. Quero ficar e pensar um pouco.
- Refletir?
- Isso!
- Tudo bem, vou nos comprar alguma coisa.

Era fácil inventar qualquer mentira para o Vitor, na verdade ele nunca soube muito sobre mim, qualquer coisa que fosse dita ele não teria motivos suficientes para desconfiar. O banco onde disse que sentava para refletir nem se quer existia quando eu morava aqui. Sentando, cacei você por algum tempo, pouco tempo. Te achei fácil no meio da multidão como sempre fazia, algo em você sempre me chamou atenção. Era o sorriso, sempre foi. Se um dia parou de sorrir, nesse dia não consegui te encontrar. Passeei com você pelo parque, só nós dois, você e os meus olhos. Anulei toda e qualquer outra coisa que não fossem eu ou você naquele parque. Estávamos os dois, juntos outra vez, passeando pelo parque que adorávamos há tempos atrás. Mais uma vez os teus olhos encontraram os meus, mas não pude admira-los o tempo que gostaria pois o Vitor voltou com duas chicaras de chocolate quente.

- Aqui, amor. Cuidado, está quente.
- Brigado, Vitor.
- Então... Esse ___, ele morava contigo, não era?
- Morava sim, ainda tem as chaves do apartamento, eu acho.
- E porquê acabaram?
- Vitor realmente precisa aprender quando parar. Se nunca tinha falado do ____ para ele, porque ele acha que gostaria de falar agora?
- Nós nunca acabamos de verdade. Um dia ele arranjou um emprego em outra cidade não tão longe daqui e teve que se mudar pra lá. Ainda assim, distantes, tentamos ficar juntos. Nas vezes que dava eu ia até a casa dele e passávamos dois, três dias juntos. Depois de algum tempo essa visitas foram ficando apenas pros finais de semana. Algum tempo mais tarde foi minha vez de arranjar um emprego num jornal, mal podia sair, nem os finais de semana. Passamos a nos ver, então, apenas no dia doze de cada mês, foi o dia em que começamos a namorar. Nós nos encontrávamos sempre nesse mesmo parque, logo ali, atrás das arvores. Ali perto tinha um lago, nos ficávamos ali, sentados, abraçados, falando bobagens o dia inteiro. Quando o sol começava a se esconder ele deitava no meu colo, fechava os olhos e eu ficava fazendo carinho nos seus cabelos, ele ficava me ouvindo falar sobre a vida, ficava me ouvindo cantar. Quando o céu estava quase escuro nós brincávamos de ver quem conseguia achar a primeira estrela, ele sempre ganhava. Um dia, no decimo segundo, do sexto mês, eu vim para o parque, como de costume, esperar por ele, mas ele não apareceu. Passei o dia todo fazendo sozinho as coisas que fazíamos juntos. Quando a primeira estrala do céu apareceu, fui eu o primeiro a encontra-la. Daí eu entendi o que tudo aquilo significava. Voltei pra casa, arrumei as coisas e no outro dia de manhã estava dentro de um avião pra o Rio. Três meses depois conheci você.
- Que historia! Nós estamos juntos a dois anos e pouquinho, mas já faz mais tempo que nós nos conhecemos.
- Vão fazer quatro anos que deixei essa cidade. Foi numa sexta-feira treze, de mês de junho, chovia muito, não foi fácil pra mim arrumar todas as coisas e ir embora de vez.
- Ele te deixou no dia dos namorados?
- Não faz nem uma diferença, era dia doze, não importa o mês. Ele devia ter aparecido por lá.
- Desde então nunca se falaram?
- Recebi alguns e-mails, mas nunca os li. Alguns amigos me falavam dele, mas com o tempo eles também foram esquecendo, e foi assim que sumimos um da vida do outro.

Foi surpresa pra mim ver que o Vitor não reagia de maneira negativa a minha historia. Me parecia que eu estava lhe contando uma aventura qualquer, dessa sem nem uma emoção.

- Amor, vou me comprar um cachorro quente. Você quer um.
- Não, obrigado.
- Você não vem, certo?

Fiz que não com a cabeça e ele entendeu o meu: “ Vou ficar bem.”. Foi a um outro quiosque bem mais distante lhe comprar um cachorro quente.
Tive, então, a chance de te olhar mais uma vez, mas diversas vezes percorri o parque com o meu olhar e não consegui te encontrar, naquele momento eu percebi que você não estava mais sorrindo. Fiquei de pé para tentar te procurar melhor, mas nada adiantava, sem o teu sorriso, achar você se tornara a coisa mais complicada. Enquanto o procurava senti uma mão pesar no meu ombro, quando virei me deparei com você na minha frente. Você não exitou, com uma das mãos agarrou a gola do meu casaco, com a outra me laçou o pescoço, me puxou contra seu corpo e então me beijou. Me beijou um beijo molhado de lagrimas. Normalmente não teria como retribuir tal beijo, já que o susto fora tão grande, mas nossos lábios se entendiam tanto que o beijo simplesmente fluiu. Depois você encostou sua cabeça e meu peito e falou mil vezes repetidas: - Eu estava lá. Eu estava lá... -
A única coisa que consegui dizer depois que acompanhei suas costas ao te ver correndo depois de sair do meu abraço foi: - Eu também estava lá.
...

Continua.

Arrocha Tchê!