Nona, última.
Fazia muito tempo que não vinha a minha cidade, desde que me mudei sempre evitei voltar e encarar todo o passado. Três anos, quase quatro. Que loucura! Tanta coisa me aconteceu depois de tudo que vive aqui, e agora estou de volta, passeando pelo mesmo parque, pisando nas mesmas folhas secas de outono, admirando as mesmas arvores que me admiravam a anos atrás.
A noite estava fria e agradável como sempre fora, as pessoas passavam, algumas delas se quer lembravam de mim, nada que me incomodasse, muitas delas não significavam nada pra mim, mas mesmo assim elas continuavam ali, passando. A nostalgia me maltratava, isso não era visível a minha companhia, pois estava me esforçando o máximo para transparecer que o passeio noturno ao parque do meu passado estava sendo agradável.
Amor? - Disse ele.
Oi.
Vinha muito aqui?
As vezes, com alguns amigos. Por quê?
O jeito como você olha as coisas, parece que está em casa.
E estou, querendo ou não voltei pra onde tudo começou. É tão irônico que...
O mundo parou, parou a minha voz, o tempo, as pessoas que passavam, parou o coração, a abeça e os meus olhos em você. Eu tinha medos, mas todo eles muito difíceis de acontecer, esse era um deles. Encontrar você no parque onde passávamos as tardes depois de quase quatro anos era, para mim, algo simplesmente impossível. O mundo ainda parado, e só você se movia, lentamente, cortando as pessoas congeladas assim como o tempo. Naquele momento só você tinha vida, e os meus ousados olhos que te seguiam. Tudo voltou a funcionar, me engasguei com algo que não existia, Vitor do meu lado me admirava espantado. Você estava ali, no mesmo lugar que eu, na mesma hora, na mesma noite e eu podia ver o teu sorriso, finalmente, depois de tanto tempo. Havia com você uma moça, sua namorado, noiva, sei lá. Era pra ela que você sorria tanto. Olhos, cabeça, ombros, corpo, todos eles te seguiam pelo parque. O Vitor me perguntava: - Mor, você tá bem? - mas eu sequer estava la para lhe responder. Era lindo como a brisa gelada da noite ainda brincava com os seus cabelos sempre lisos. E tudo parou outra vez. Seu olhar encontrou o meu e de instante se desfez o belo sorriso. Seu corpo ia, mas teus olhos permaneciam nos meus. De lento para mais lento você foi parando, apertou com força a mão de sua companheira e o vento finalmente se afastou dos teus cabelos. Tudo parado, teu olho no meu... A vida voltou a correr depressa quando você desviou o teu olhar pro chão, pensou, exitou, me olhou de novo, acenou e sorrio. Meu coração gelou, tudo lá fora se movia com rapidez, menos meu organismos, meus pensamentos, minha vida, que lentamente exibia um filme diante dos meus olhos. Com muito peso também te acenei e com muito pesar sorri. Feito isso você saiu arrastando a garota que lhe acompanhava e sumiu na multidão de casais a passeio. E em mim, nas minhas veias, corria a agua mais gelada que se possa imaginar no lugar do sangue. Petrificado os pouco fui voltando ao presente do parque frio agradável, seguindo a voz de Vitor que não parava de me chamar.
Amor? Amor?
Quê?
Quem era?
_____!
Sim... Quem era?
Me ex-namorado.
Vitor falava demais as vezes, não era uma coisa que me irritasse, mas tinha dias que acompanha-lo pra qualquer lugar não era tão agradável, esse estava sendo um desses dias.
- ____, de ____ ____?
Isso mesmo.
Aquele sobre o qual você sempre escrevia?
Esse.
Aquele que... - Quando ele falava demais eu simplesmente ignorava o final das frases e julgava o que tinha que responder pelo inicio delas.
Hunrun, isso!
Ele é bonito.
Está mais bonito agora.
E aquela, quem é?
Ouvi dizer que ele estava namorando, mas nunca soube se era verdade. Ela deve ser a namorada de verdade dele.
Nunca acreditei nessa historia de ex-gays.
Eu não gostava quando o Vitor falava das coisas que ele acreditava ou não, mas aquilo nunca tinha me deixado muito zangado até agora. Vê-lo falando de você, te julgando, me fez crescer um estanho ódio dentro do meu casaco de frio.
Quer saber... Porque você não vai até aquele quiosque e nos compra alguma coisa quente pra beber. O tempo esta começando esfriar aqui no parque.
É uma boa ideia, você não vem junto.
Não... Sabe, eu costumava sentar aqui sozinho depois de uma longa caminhada. Era aqui que eu refletia sobre as coisas que me aconteciam. Quero ficar e pensar um pouco.
Refletir?
Isso!
Tudo bem, vou nos comprar alguma coisa.
Era fácil inventar qualquer mentira para o Vitor, na verdade ele nunca soube muito sobre mim, qualquer coisa que fosse dita ele não teria motivos suficientes para desconfiar. O banco onde disse que sentava para refletir nem se quer existia quando eu morava aqui. Sentando, cacei você por algum tempo, pouco tempo. Te achei fácil no meio da multidão como sempre fazia, algo em você sempre me chamou atenção. Era o sorriso, sempre foi. Se um dia parou de sorrir, nesse dia não consegui te encontrar. Passeei com você pelo parque, só nós dois, você e os meus olhos. Anulei toda e qualquer outra coisa que não fossem eu ou você naquele parque. Estávamos os dois, juntos outra vez, passeando pelo parque que adorávamos há tempos atrás. Mais uma vez os teus olhos encontraram os meus, mas não pude admira-los o tempo que gostaria pois o Vitor voltou com duas chicaras de chocolate quente.
Aqui, amor. Cuidado, está quente.
Brigado, Vitor.
Então... Esse ___, ele morava contigo, não era?
Morava sim, ainda tem as chaves do apartamento, eu acho.
E porquê acabaram?
Vitor realmente precisa aprender quando parar. Se nunca tinha falado do ____ para ele, porque ele acha que gostaria de falar agora?
Nós nunca acabamos de verdade. Um dia ele arranjou um emprego em outra cidade não tão longe daqui e teve que se mudar pra lá. Ainda assim, distantes, tentamos ficar juntos. Nas vezes que dava eu ia até a casa dele e passávamos dois, três dias juntos. Depois de algum tempo essa visitas foram ficando apenas pros finais de semana. Algum tempo mais tarde foi minha vez de arranjar um emprego num jornal, mal podia sair, nem os finais de semana. Passamos a nos ver, então, apenas no dia doze de cada mês, foi o dia em que começamos a namorar. Nós nos encontrávamos sempre nesse mesmo parque, logo ali, atrás das arvores. Ali perto tinha um lago, nos ficávamos ali, sentados, abraçados, falando bobagens o dia inteiro. Quando o sol começava a se esconder ele deitava no meu colo, fechava os olhos e eu ficava fazendo carinho nos seus cabelos, ele ficava me ouvindo falar sobre a vida, ficava me ouvindo cantar. Quando o céu estava quase escuro nós brincávamos de ver quem conseguia achar a primeira estrela, ele sempre ganhava. Um dia, no decimo segundo, do sexto mês, eu vim para o parque, como de costume, esperar por ele, mas ele não apareceu. Passei o dia todo fazendo sozinho as coisas que fazíamos juntos. Quando a primeira estrala do céu apareceu, fui eu o primeiro a encontra-la. Daí eu entendi o que tudo aquilo significava. Voltei pra casa, arrumei as coisas e no outro dia de manhã estava dentro de um avião pra o Rio. Três meses depois conheci você.
Que historia! Nós estamos juntos a dois anos e pouquinho, mas já faz mais tempo que nós nos conhecemos.
Vão fazer quatro anos que deixei essa cidade. Foi numa sexta-feira treze, de mês de junho, chovia muito, não foi fácil pra mim arrumar todas as coisas e ir embora de vez.
Ele te deixou no dia dos namorados?
Não faz nem uma diferença, era dia doze, não importa o mês. Ele devia ter aparecido por lá.
Desde então nunca se falaram?
Recebi alguns e-mails, mas nunca os li. Alguns amigos me falavam dele, mas com o tempo eles também foram esquecendo, e foi assim que sumimos um da vida do outro.
Foi surpresa pra mim ver que o Vitor não reagia de maneira negativa a minha historia. Me parecia que eu estava lhe contando uma aventura qualquer, dessa sem nem uma emoção.
Amor, vou me comprar um cachorro quente. Você quer um.
Não, obrigado.
Você não vem, certo?
Fiz que não com a cabeça e ele entendeu o meu: “ Vou ficar bem.”. Foi a um outro quiosque bem mais distante lhe comprar um cachorro quente.
Tive, então, a chance de te olhar mais uma vez, mas diversas vezes percorri o parque com o meu olhar e não consegui te encontrar, naquele momento eu percebi que você não estava mais sorrindo. Fiquei de pé para tentar te procurar melhor, mas nada adiantava, sem o teu sorriso, achar você se tornara a coisa mais complicada. Enquanto o procurava senti uma mão pesar no meu ombro, quando virei me deparei com você na minha frente. Você não exitou, com uma das mãos agarrou a gola do meu casaco, com a outra me laçou o pescoço, me puxou contra seu corpo e então me beijou. Me beijou um beijo molhado de lagrimas. Normalmente não teria como retribuir tal beijo, já que o susto fora tão grande, mas nossos lábios se entendiam tanto que o beijo simplesmente fluiu. Depois você encostou sua cabeça e meu peito e falou mil vezes repetidas: - Eu estava lá. Eu estava lá... -
A única coisa que consegui dizer depois que acompanhei suas costas ao te ver correndo depois de sair do meu abraço foi: - Eu também estava lá.
...
Continua.
Arrocha Tchê!
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