Quintas tinha 13 anos quando acordou numa manhã de quinta-feira achando que seria um ótimo dia. Teria prova de matemática no colégio, mas isso não era um problema, pois passara a noite toda estudando, sentia-se seguro em relação ao teste. Depois da prova, Quintas iria para o shopping com os amigos do colégio, passear, pegar um cineminha, rir um pouco. Já à noite, ele teria uma incrível festa de aniversario pra ir. A menina que ele gosta está fazendo 13 anos e ele comprou o melhor dos presentes pra ela. Quintas virou-se de barriga pra cima e encarou o teto. “– Grande dia.”, pensou e arriscou um sorriso. O interfone da casa começou a tocar. Era o transporte que o levaria pro colégio, e Quintas ainda estava de cueca deitado na cama. Chegou atrasado ao colégio, não tomou banho nem nada. O teste já havia começado quando Quintas entrou na sala de aula. A tranqüilidade e segurança foram substituídas pelo nervosismo e Quintas não conseguiu fazer um bom teste.
- Todas as coisas que não estudei foram exatamente todas as coisas que caíram no teste. – Disse ele a um colega logo depois de ter terminado a prova.
Não havia muito com o que se preocupar agora. Quintas estava triste, mas o dia ainda o prometia alguma diversão. Logo depois que as aulas acabaram, Quintas e seus amigos foram de ônibus para o shopping, desceram três ruas antes do destino e seguiram andando. Quintas não era muito popular entre os amigos, por isso andava sempre um pouco mais atrás da massa que ia conversando e rindo na frente. Ele andava bem mais com as meninas, mas como dessa vez só meninos foram, Quintas ficou pra trás. Os amigos atravessaram a rua, o sinal abriu e Quintas teve que esperar o sinal fechar outra vez para poder passar, mas enquanto isso, dois rapazes, maiores que ele, se aproximaram e o assaltaram. Levaram relógio, carteira e até os tênis, relativamente novos. Quintas não reagiu com rapidez, o sinal abriu e fechou varias vezes e ele ficou lá parado por um bom tempo, nem os amigos notaram sua falta. Quanto os rapazes que o haviam assaltada já estavam longe demais para fazer qualquer mal a Quintas, ele correu. Correu de meias em direção ao shopping. Correu o mais rápido que pode, passou voando pelos seus amigos e uma vez dentro do shopping foi direto aos orelhões ligar pra sua mãe.
- Não sai daí, viu? Mando já alguém ir lhe buscar.
A mãe não pode ir, estava no trabalho. Quintas a esperou por algumas horas no lugar onde ela sempre ia buscá-lo. Já perto das quatro horas, Quintas ouviu uma buzina. Seu irmão veio no lugar de sua mãe para levar Quintas em casa. Quintas correu pro carro e entrou, bateu a porta e chorou. Seu irmão nem ligou o carro outra vez.
- Sabe... Ainda da pra pegar um cineminha e coisa e talz. – Falou seu irmão tentando animá-lo. – Posso te emprestar meu tênis e algum dinheiro pra pipoca e coisas do tipo.
Quintas amava o irmão, às vezes. Outras vezes achava que seu choro o chateava bastante e por isso ele sempre fazia algo legal que fizesse Quintas parar de chorar. Quintas levantou a cabeça e arriscou mais um sorriso. Calçou os sapatos folgados dos irmãos, pegou o dinheiro e foi correndo pro cinema. Lembrou que se esqueceu de agradecer. “-De noite eu faço isso.”, pensou. Encontrou com os colegas na entrada do cinema.
- Quintas, e ai?! A gente já comprou os ingressos, vai lá comprar o seu, a gente guarda seu lugar na sala.
Estavam sendo bem legais como Quintas, talvez pelo lance do assalto, ou talvez por que seus novos tênis eram mineiríssimos. Comprou os ingressos do filme e foi correndo para a sala, tropeçou no folgado tênis de seu irmão e caiu de barriga no chão. Quintas, pela ultima vez, arriscou mais um sorriso. Sentiu uma mão a ajudar a levantar, e ainda sentado agradeceu.
- Brigado.
Ajeitou os óculos e tentou enxergar a pessoa que o ajudara. Pessoa não era! Era um esqueleto, puro osso, sem carne, sem pele, só uma enorme capa preta que lhe cobria quase o corpo todo.
- E ai, Quintas. – Disse a morte. – Quinta às 5, lembra? Ou... Não. Quinta às 5 mesmo.
Em uma das mãos a morte segurava uma enorme foice, com uma lamina que brilhava e na outra uma garrafa de coca-cola um litro que parecia estar bem gelada. Deu um enorme gole na garrafa depois que terminou sua frase para Quintas. O liquido batia em seus osso e depois ia parar no chão, mas mesmo assim ela parecia bem satisfeita.
- Ahrr! – Fez a morte.
Quinta levantou em um pulo só e foi correndo direto pra casa, tomando cuidado para não tropeçar nos tênis do seu irmão mais velho. Levou trinta minutos, mas chegou. Trancou-se no quarto e lá ficou dois dias inteiros. Não foi a festa da menina que gostava naquela quinta-feira, e o melhor dos presentes ficou pra depois. Tudo por que a morte lhe tinha dito: E ai, Quintas.
Arrocha tchê!
"- Garoto bobo!"
Um comentário:
eu sempre leio tuuudo, vc precisa escrever mais. um dia vc vai ganhar muita grana com iso, pode ter certeza! e eu serei o primeiro leitor, number one! abraaaço!
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