Tall
(Uma experiência serial)
Por um motivo ou outro, inconsciente, passei minha vida inteira tentando ser diferente. Tentando chocar ou contradizer pessoas. Fiz isso sem brutos esforços, sem falsas verdades e sem forçar absolutamente nada. E como a vida me entendeu logo de inicio, ela fez o que nunca fez pra nem um outro ser humano: ela facilitou as coisas.
Logo de inicio descobri que era gay, e não tive nem um problema com isso. Logico que outras pessoas tiveram seus muitos problemas com a minha sexualidade. O que eu nunca entendi. Ao final das contas se houvesse algum problema com isso, o problema seria meu e de mais ninguém.
Se você quiser tentar chocar todo mundo, tenha certeza de que começará o fazendo com a sua família. Se obter bons resultados para seu objetivo, bom, o mundo também terá alguns problemas com você. Ao final das contas, o mundo, ele mesmo, é cheio de famílias.
Minha sexualidade foi logo exposta pra qualquer um que quisesse reparar em mim quando comecei a namorar. Meu primeiro amor foi um menino. E assim foi o segundo e terceiro e etc. Sempre foi, pra ele, um problema o nosso relacionamento. Ele não entendia, com 12 anos, como um garoto poderia se apaixonar por outro, mas como eu procurava ser diferente e a vida estava me facilitando as coisas, eu mostrei pra ele que era possível. A gente se gostou bastante por um bom tempo, até a escola começar a se incomodar com o nosso comportamento e por um fim nisso. Ele virou rebelde incompreendido e eu virei... Bom, eu não virei absolutamente nada. Chega esse tempo que os seus pais se acostumam com sua condição e param de te dar atenção. Eu não queria atenção, o que eu procurava mesmo, era ser diferente. Namorei outros caras e sempre achei tudo igual. Choque mesmo aconteceu quando comecei a namorar pessoas mais velhas. De novo um absurdo, mas não durou muito tempo. O que durou um bom tempo foi o meu fanatismo por pessoas mais novas, mas isso só foi virar um problema quando completei 18 anos. Dessa vez sofri com as consequências que a diferença pode causar e não segui em frente. Fiquei estagnado na mesmice durante um tempo. Jovem, depressivo, rebelde, tons de azul e preto. Mudei o estilo de vida e mudei a vida. Mais uma vez estava disposto a voltar a ser diferente sem tentar. Tendo como lema a ridícula frase de um samba “Deixe a vida em levar”. Sabe, o interessante sobre deixar a vida te levar é por que ela acaba te levando mesmo, pra lugares extremamente desinteressantes. Sendo assim, as vezes, é certo interferir. Namorei outra vez com um rapaz, dessa vez da minha idade pra evitar consequências com tons de azul e preto. E como não era novidade, incrementamos algumas coisas. Como me lembro, nós fomos uns dos primeiros casais gays a andar de mãos dadas e trocar carinhos em praça publica, shoppings, restaurantes e etc. Logo todos começaram a fazer o mesmo e o meu namoro de carinhos e mãos dadas foi pro espaço, já que não havia nada de novo que o alimentasse. Fui também um precursor da campanha “Amor Livre” na pequena cidade onde morava. Isso sim bateu como estranheza na cabeça de muitas pessoas. O Amor Livre pregava que você poderia ficar com quem quisesse, fosse homem, mulher ou os dois. E isso causou um grande impacto nas pessoas por que, até hoje, você precisa de rótulos. Se você não for rotulado pela sociedade, você, de certa forma, uma criatura de infinita estranheza. Passei muito tempo nessa de amor livre. E olhe, que ainda hoje, na cidade grande onde moro, muitas pessoas acham isso esquisito. Mas como todo ser humano, chegou o momento em que ser diferente me cansou bastante, e pra ser um pouco igual, apenas pra variar, eu me apaixonei.
Sabe, o lance sobre se apaixonar é que se você e a outra pessoa não tiverem na mesma sintonia, vai ser uma merda sem precedentes. Nos não estávamos na mesma sintonia, mas a vida insistiu em facilitar pra mim. Então namoramos o tempo necessário pra perceber que eu tinha superado meu problema em ser diferente, e que ele estava cansado de ser igual. Então ele decidiu ser o diferente durante o namoro e isso fodeu meu coração em pedaços. Ele aloprou tanto e eu me esforçando pra continuar sendo a base que fortalece o relacionamento. A gente se torna tão estupido quando está apaixonado. E bem mais estupido quando a paixão não é correspondida com a mesma intensidade.
Então eu fui estupido até que acabou. Ele foi tão diferente que se tornou como todos os outros e passou. Assim como eu fiz muitas vezes. Então pensei: Chega de diferença, chaga de igualdade, eu vou plantar uma arvore e escrever um livro. Dessas duas coisas, apenas fiz uma.
Eu pus uma aliança no meu dedo. Um símbolo de compromisso entre mim e a minha estabilidade emocional. Logo tirei a aliança do dedo, mas vamos fingir que ela continuou ali até o momento em que simbolicamente ela vai ter uma importância maior. Passei um bom tempo com a tal aliança no dedo e nosso comprometimento se alimentava de respeito que tínhamos um ao outro. Eu conhecia uma pessoa, ela me lembrava que eu devia manter a estabilidade, qualquer merda acontecia, meu coração não se fodia em pedaços e nos dois, eu e a aliança, ficamos bem. Mas isso não impedia que eu me apaixonasse ou me interessasse por pessoas diferentes ou difíceis. Então, a vida mais uma vez facilitou e eu conheci uma menina. Era bom por que era diferente, fácil e novo. E não era uma menina qualquer, ela era perfeita. Compreensiva enquanto a minha estabilidade emocional e gostava de vídeo games. Namoramos um bom tempo. E foi um tempo bom de namoro, de amizade e de emoções estabilizadas.
Mas a vida é a vida e, é claro, depois de quase dois anos, o nosso namoro chegou ao fim. Foi um pouco difícil, mas a aliança me manteve com a cabeça no lugar por um bom tempo.
Bom, eu gostaria de explicar o que aconteceu depois disso, e por isso que eu contei toda essa historia...
Meses se passaram depois do fim do namoro. Toda a minha juventude badalada tinha sumido de vez da minha vida. Eu estava um solteiro e mal acostumado. Pense por você mesmo. E se a ultima pessoa que você se recorda ter se interessado por você aconteceu ha quase dois anos? Você percebe que agora você não só é solteiro mal acostumado, como também está carente. E ai é que tudo acontece. Você passa meses sem saber se relacionar com as pessoas. Passa dias se perguntando o que foi que aconteceu com você. Passa em frente a uma casa de um amigo, entra, tem uma festa, você conhece um monte de gente bacana, mas ninguém nem te olha de maneira diferente mas e ai... BANG. A aliança se quebra. E é claro que estou falando simbolicamente, já que tinha tirado a aliança do dedo ha muito tempo atrás. Tudo acontece de uma só vez: a vida acorda e lhe facilita alguma coisa, as emoções todas se embaralham, e você conhece uma pessoa diferente de todas as outras. O que a faz diferente, assim, de cara? Ela é incrivelmente alta.
FIM.
Ravi Aynore.
Arrocha Tchê.
Um comentário:
Ta, esse foi muito bom. O que eu mais gosto no seu blog é que eu sou sua amiga e entendo tudo! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk hahahahahahahahaha
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