Ultimamente eu tenho escrito aqui nesse blog desejos
suicidas, o que é bastante normal para um blog. E não são desejos, são apenas
pensamentos. Desejos suicidas eu só vim sentir mesmo hoje. Eu já tinha essa
ideia de que ia me matar quando a vida chegasse a um ponto em que o futuro não
seria mais interessante. Quando você vê todas as possibilidades do que pode se
tornar e nem uma lhe agrada, como se manter vivo? É muito absurdo.
Eu nunca entendi a cabeça de um suicida direito, para mim
não fazia o menor sentido. Mas depois que namorei uma cara que tinha certa
fixação por isso e depois que meu primo se matou com uma corda no pescoço o
pensamento foi se reformulando em minha cabeça, não que isso tenha me
influenciado, mas me fez querer entender o que se passava na cabeça dessas
pessoas. Ai sim, ao compreender um pouco do universo suicida foi que as ideias
começaram a me influenciar de verdade. Então eu decidi que vou mesmo me matar. Não
hoje, não agora, não amanhã... Eu não sei quando e quase não sei por que. Mas posso
tentar explicar. Todas as coisas que conquistei pra mim significam nada, minha
vida esta estagnada e eu parei de pensar grande por achar que sou pequeno. Eu sei
que não sou, eu sei que tenho capacidade de ser incrivelmente gigante, mas essa
capacidade de nada serve porque ela não é usada. E não é uma coisa que se um dia eu aprender a
usar... Não. Eu simplesmente não irei usa-la jamais. Sou incapaz de usa-la e
isso já esta estabelecido. Por quê? Porque eu deixei de tentar e só por isso. Eu
deixei de tentar porque eu cansei e porque não vejo mais proposito. Eu simplesmente
não vejo mais proposito em nada. Tentar o que ou pra que? Veja a vida agora e
se imagine daqui a vinte anos fazendo exatamente a mesma coisa miserável. Quem não
pensaria em se terminar? Esperança de que as coisas mudem é para os fortes ou
bobos, eu não sou nem um dos dois. Eu não tenho o futuro brilhante que achei
que teria e nem fiz as coisas que eu queria fazer e nem vou fazer. E por que
não faz agora? Pra isso se precisa de um potencial que eu não tenho mais ou que
não vou usar. O cenário mais provável do meu futuro é um velho sozinho e extremamente
magoado que vai descontar as pancadas do tempo e toda a frustração nos únicos contatos
que ainda tem e em crianças. Porque não sai da minha cabeça que eu vou envelhecer
pra me tornar um velho pedófilo descuidado que vai ser facilmente descoberto
pela policia. Isso porque eu vou realmente acreditar que eu e tal criança
estaremos apaixonados de verdade. Eu vou crescer para ser mais burro e ignorante
do que já sou. E foi isso que entendi no meu primo. Que futuro ele tinha? Eu não
consigo imaginar, talvez nem ele. Talvez ele tenha imaginado um futuro caótico como
eu imagino o meu agora. Pra que viver pra ver isso? Foi o que ele pensou. Já eu,
quero evitar que o ser toxico que vou me tornar contamine a vida de pessoas
inocentes. Ainda há tempo de mudar. Não há. Eu já sou esse ser toxico há muito
tempo e já tenho destruído vidas por ai. Eu achei que se eu pudesse ajudar as
pessoas então me tornaria menos toxico e mais acessível. Mentira. A gente
tropeça, a gente cai e não há nem uma lição nisso. Uma queda é só uma queda,
não te torna especial, inteligente, ou melhor. Você cai, todo mundo cai. Levanta
quem tiver paciência pra cair outra vez lá na frente, eu não tenho mais paciência.
O melhor do mundo é que ele não liga se você levanta ou não. Uma vez que você
cai e não levanta, o mundo faz questão de se certificar de que, mesmo você no
chão, volte a cair. E tem gente ainda
que acredita em deus. Deus é uma criança com uma lente de aumento. Eu aqui
pensando em morrer, achando que não tem mais nada nesse planeta pra usufruir,
nada que valha a pena e deus matando meu cachorro aos pouco com uma doença
filha de uma puta. Eu devia estar morrendo, sofrendo as consequências dos meus
atos, dos meus roubos, dos meus planos e pensamentos. Eu que sou o toxico e não
o meu cachorro. E por que é ele que esta morrendo e eu não? Por que ele tem que
ser sacrificado e eu ficar recebendo segundas chances o tempo todo. Eu já
mandei meu potencial à merda, agora eu quero a vida do meu cachorro em troca da
minha. Porque aquele animal trás mais alegria do que uma reunião de amigos. Talvez
seja uma lição a morte do seu cachorro, Ravi. Talvez seja só a maldade do
mundo. Desse deus cu, desses espíritos idiotas que se quer existem, mas a gente
insiste em sua existência pra ter quem culpar de nossas incapacidades, desse
universo cu que não tem absolutamente nada pra me oferecer. Porque tudo que a
gente pode ter é humano, e tudo que é humano e toxico. E que especei de deus sádico
é esse que usa o sacrifício de uma criatura inocente para ensinar uma lição a
um humano que ser quer tem capacidade de acessar o seu potencial pra se tornar
uma pessoa melhor. Universo, eu não valho a pena. Desista de mim porque eu já
tomei minha decisão e já desisti de você.
Vou me matar. Prometi pra mim mesmo que se fosse o fazer ia
contar para meus pais primeiro. Apenas que decidi que vou me matar. Não direi
quando ou como. Não poderia dizer quando, porque realmente não faço ideia de
quando vai acontecer. Pode ser amanhã, podia ter sido hoje e pode ser daqui a
40 anos, quando eles já estarão mortos. E não direi como porque isso não é uma
coisa que se diga, mas eu vou falar pra vocês como farei. Vai ser um dia
qualquer. Um dia simples e inesperado. Eu vou voltar pra casa, essa ou qualquer
outra, qualquer lugar onde casa seja, vou colocar umas musicas tristes e vou me
trancar no banheiro por horas. Eu, as musicas, o chuveiro ligado e só. Eu não
me importo se vai ter gente em casa ou não, não me importo de eles vão
perguntar se eu estou demorando ou não, eles podem até me tirar de lá com vida,
mas, a não ser que alguma experiência quase morte me mostre alguma coisa maravilhosa,
eu voltarei a tentar mais tarde. Um dia eu vou conseguir. Chama “gêmeos” quando
você corta os dois pulsos ao mesmo tempo. É do jeito que vou fazer. Eu pensei
em outras maneiras, como enforcamento, mas meu primo já fez essa. Pensei em
pular de algum lugar, mas nem um lugar é muito poético pra me jogar aqui e é
bem trash esse treco de você se esbagaçar no chão. Arma é complicado,
barulhento e sujo. E eu ainda teria que roubar o revolver de alguém ou do lugar
onde trabalho. Então vai ser “gêmeos” mesmo. Sentado no chão do banheiro, com
uma musica, eu ainda não decidi se estarei sob efeito de alguma substancia, eu
prefiro estar sóbrio, mas talvez não tenha coragem, chuveiro aberto que impede
que a ferida se feche e já deixa o banheiro meio limpo. E assim vai ser. Eu não vou terminar as coisas
que comecei, mesmo que permaneça vivo por muito tempo. Eu não terminarei a
historia em quadrinho chamada “Quase Gente” que estou escrevendo agora. Não terminei
e nem terminaria “Acampamento Shamanico” e nem “Angelus” que comecei há muito
tempo atrás. Todos os livros e filmes que desenhei na minha cabeça nunca serão
escritos. “O pior lugar pra acabar” nunca será filmado e “Hambúrgueres
Espaciais” nunca será publicado. Ninguém nunca vai ler meu livro de poesias, e
nem os meus contos. Eu não casarei, não terei filhos, não morarei em uma casa
com um jardim bonito. Eu não vou ser feliz e nem vou ver o final da minha serie
favorita “Doctor Who”. Eu não vou ao casamento dos meus amigos e não serei
padrinho dos filhos deles. Eu nunca vou gravar um CD e nunca vou fazer um show
só de musicas minhas. Eu não vou dar palestras, não vou morar no exterior, nem
vou ser produtor de uma serie britânica. Não serei um ator conhecido, não terei
feito papeis na globo e nem terei gravado nem um longa metragem. Meu único filme
vai ser o “Romalone”, que nunca vai passar em lugar algum. Meu único feito vai
ser o “Grávidos” que nem é tão conhecido pra que alguém diga: O cara do
Grávidos se matou. Eu serei lembrado, mas logo esquecido. As pessoas vão seguir
com suas vidas, menos minha mãe que não terá em que se agarrar. Eu poderia
viver por ela, mas nem ela esta fazendo isso, por que eu o faria? Eu não sei o
que vai acontecer com ela depois. Eu tento não pensar nisso. Eu não realizarei
grandes sonhos como o de cantar em um musical e ser host de alguma premiação.
Todas essas coisas não aconteceriam nem que eu estivesse vivo. E ai eu pergunto
outra vez: Por que permanecer? Não existe o porquê, só existe a inercia e a
tola e tão desejada esperança.
Essa não é minha carta suicida oficial, mas é uma delas
explicando bem mais do que a que ainda
vai ser escrita e deixada na pia do banheiro onde vai acontecer.
Não é o fim ainda.

