Quintas na Minha.
O fantasma que viajou no tempo.
* Essa historia é completamente fictícia.
Minha mãe faleceu em um quinta-feira. Eu ainda era jovem,
tinha lá meus trinta e poucos anos. Eu não aceitei muito bem, não mesmo. No mesmo
dia, pouco antes do velório eu expulsei todas as pessoas de casa e recusei
todos os planos do meu pai para o futuro. Não fui vela-la na mesma hora que as
pessoas e joguei meu celular privada a baixo. Eu estava triste, obvio. Mas estava
pensando na praticidade das coisas, em como eu poderia resolve-las de maneira
simples e objetiva. Me mudar para casa de um amigo por algum tempo, organizar a
casa e prepara-la para aluguel. Eu não iria morar lá, nem as outras pessoas. Eu
não pensei que eu devia resolver o problema das pessoas enquanto a achar um
lugar para elas ficarem. Eu estava resolvendo os meus problemas, eles deveriam
estar resolvendo os deles. Depois do apartamento alugado eu poderia alugar um
lugar para mim e sair da casa do meu amigo e seguir com a vida. Feito. Tinha um
dinheiro sobrando, eu me comprei um terno enquanto as pessoas velavam minha
mãe. Pedi para os rapazes da funerária que encerrassem o velório em um determinado
momento da noite, para que eu pudesse passar a madrugada a sós com a minha mãe.
Odeio a ideia de enterrar as pessoas, sinto sufocante. Não acredito que a carne
podre do corpo humano adube um solo mais fértil ou contribua para a natureza de
alguma maneira. Acredito que a energia dos momentos vividos é que alimenta o
universo, principalmente a energia dos momentos que foram perdidos com a
prematura morte de um ser. O que podia ter sido é mais forte do que o que já
foi. De terno alinhando, sentei ao lado da minha mãe na funerária e chorei. A solidão
me permite o direito de liberdade de reação. Eu não preciso reagir da maneira
que as pessoas esperam que eu reaja, ou choca-las com qualquer outra ação. Chorei
como queria chorar, como uma criança perdida. Em toda a minha vida eu sempre
tive alguém pra conversar, alguém que não estava realmente lá, mas eu a sentia.
Esses alguéns eram meus amigos invisíveis que existiram em todos os momentos da
minha vida. Lembro-me de detalhes simples e de como eles sempre estiveram lá
pra mim. Eu sempre fui uma criança muito solitária. Primeiro porque todas as
pessoas que viviam comigo sempre davam um jeito de ir embora. Meu pai deixou a
casa muito cedo, minha madrinha também foi morar longe na minha infância, todas
as empregadas que tínhamos foram dispensadas por falta de condições de mantê-las,
amigos viajavam, pessoas iam e vinham, mas ainda assim eu sempre estava
brincando. Tchoco era o nome desse amigo imaginários que brincava comigo quando
eu era criança. E a gente se divertia horrores. Sempre correndo, sempre
conspirando, sempre inventando planos mirabolantes de fazer as coisas. Um pouco
mais velho e mais louco Tchoco virou Thiago. Thiago tinha que te ser próprio espaço
no carro, no sofá, e eu não tinha medo de falar dele ou com ele na frente das
pessoas. Thostin durou muito mais e foi bem mais intenso. Como era estranho alguém
quem 12 – 13 anos ter um amigo invisível, Thostin se tornou eu e eu me tornei
ele. Thostin assinava minhas provas, se declarava para as meninas que eu
gostava, aprendeu inglês por mim, me ajudava a fazer coisas que eu tinha medo
de fazer. Thostin era minha coragem. Mais velho eu briguei com Thostin e ele
deixou de ser eu. Isso por causa de uma garota, lógico. Nós tínhamos opiniões diferentes
sobre ela. Mas Thostin nunca me deixou. Na rua, sozinho, as vezes falo em
inglês e é com ele que estou conversando, é pra ele que estou pedindo conselhos
e instruções e foi assim até o dia em que me contaram que minha mãe não teria
resistido ao que a atingiu tão forte. Meus amigos imaginários estavam comigo em
momentos impares na minha vida. Quando eu caí e cortei minha testa, eu estava
perto de alguém que poderia me ajudar. Quando bati minha cabeça em um sofá de
pedra, foi em um consultório medico. Quando eu ia cair de cara no chão e dei
meu primeiro mortal pra evitar a queda, em todos os pulos e superações nas
minhas brincadeira, quando ia caindo da arvore e consegui segurar em uma corda
que ninguém sabia que estava lá, quando fiz rapel e quase morri escorregando em
uma pedra, um galho me segurou impedindo que eu batesse a cabeça em outra
pedra, e quando eu olhei ao redor era o único galho por perto. Sempre estiveram
lá para me proteger as pessoas que supostamente não deveriam existir. E foi
nessas coisas que pensei sentado ao lado do corpo da minha mãe. Me senti bem
por estar livre pra pensar em mim mesmo naquele momento. Foi bom estar sozinho,
mas ao menos tempo eu me senti vazio pela falta dos meus amigos.
Fez-se clarão na sala e eu senti uma coisa forte, muito
forte mesmo. Eu não sou religioso, mas acredito nos espíritos. Não dessa forma
dependente que as pessoas gostam de acreditar. Acredito em energias e que elas
são centralizadas no universo e não nos seres humanos. Uma dessas energias
estava em pé atrás de mim. Eu não a via, estava de costas, mas sentia com maior
certeza de que lá estava ela, minha mãe. Eu não quis virar, não quis olha-la,
tive medo que a energia se desprendesse do momento com a minha pretensão. Não
olhei. Juntei as mãos uma na outra, apertei meus dedos com força tentando
conter a tremedeira da emoção, juntei algumas palavras no cérebro, mas antes
que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ela me respondeu.
- Oi, filho.
O ar tornou-se o mais puro de respirar, e eu pude enfim
falar.
- É você mesmo, mãe?
- Sou.
Eu só pude sorrir.
- Mas... O que você...
- Eu não sei o que sou. Sou uma ideia, um pensamento, uma
vontade.
- Energia.
- Pode ser.
- Você está bem?
- Eu não estou nada. Não sentimos mais... coisas.
- Deve ser chato.
- Eu não sinto que é chato. Eu me sinto tranquila. Confiante.
Como se pudesse fazer qualquer coisa.
- Eu acho que eu desrespeitei algumas pessoas hoje, mãe. Me
desculpe.
- Bobagem. Com o tempo as pessoas vão entendendo e
perdoando.
- O que é isso? Você? Um fantasma? Um espirito? O que vai
acontecer com você?
- É uma espécie de passagem de uma coisa à outra.
- Você sabe o que vai acontecer?
- Sei. Sou sabedoria agora.
- Você sempre foi. Mãe... Eu nunca tive a oportunidade de
dizer que te amo uma ultima vez.
- Isso não é verdade.
- Posso te ver? Eu quero te ver.
- Pode.
- Promete que você não vai sumir? Promete que não vai ser só
uma coisa da minha cabeça?
- Não.
Então eu virei. E olhei para um nada luminoso. Não havia forma,
cor ou qualquer outra coisa que me fizesse identificar a minha mãe naquela luz,
mas eu podia senti-la. Eu tinha completa certeza de que ela estava lá. Meus
olhos não podiam ver, mas meu corpo sentia um abraço. Um abraço de verdade.
- Eu tenho que voltar logo.
- Voltar? Pra onde? Não vá.
- Voltar atrás.
- Eu não entendo.
- O que você vê?
E foi ai que eu notei aquela forma de luz não era só minha
mãe. Eram todos os meus amigos invisíveis, todos aqueles que sempre passaram
todas as coisas ao meu lado. Então tudo fez sentido. O mais absurdo sentido. “Voltar
atrás”... Ela estava falando sobre o passado. Viagem no tempo é um dos meus
temas favoritos em ficção cientifica e minha mãe é uma viajante do tempo, ao
menos o seu fantasma. Ela transportou sua energia para o passado para que
pudesse ficar ao meu lado para que eu não me sentisse sozinho. Minha mãe foi o Tchoco,
o Thiago e o Thostin. Foi ela que me protegeu de todos aqueles acidentes, ela
era minhas cordas e meus galhos. Minha mãe viajou no tempo e se tornou minha
coragem. O fantasma que viajou no tempo.
- Você...
- É filho. É. E eu devo voltar agora. Esta quase na hora de
te ver crescer outra vez.
- Obrigado por tudo.
- Não... Você é que é o maior dos meus orgulhos. E eu que
agradeço pela oportunidade de te ver brilhar outra vez, desde o seu começo. Eu
te amo, filho.
- Eu te amo, mãe.
E ela se foi. O quarto voltou a ser escuro e o ar voltou a
ser pesado. Minha mãe tinha me deixado pela ultima vez, para que pudesse ficar
comigo outra vez, em um tempo diferente pra me ajudar a criar forças pra chegar
até aqui, nesse exato momento, e enfrentar essa situação. Ela me preparou pra
isso. Ela se foi e eu me vi, pela primeira vez em minha vida, realmente
sozinho.
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