Eu queria escrever alguma coisa. E por que não escrever alguma
coisa? Eu sou um dos maiores incentivadores quando alguém chega pra mim e diz
que quer escrever e não consegue. Eu sempre digo : - “Sente e escreva. Não
pense. Apenas sente-se e escreva.” Mas eu mesmo deixo de fazer isso as vezes. Estava
aqui, de frente para o computador com uma incrível vontade de escrever e
pensando que não tinha nada sobre o que falar. Incrível um ser humano que ache que não tem
sobre o que falar. Decidi seguir meu conselho, sentar e escrever. Mas sobre o
que? Sobre o show “How i Met your mother” e com o ele me faz sentir mínimo. É uma
serie sobre relacionamento entre amigos e relacionamentos amorosos, e ela
promete tudo que é mais bacana nessa vida, mas é exatamente tudo que não existe
(ao menos pra mim). Todos os meus amigos estão distantes, se não em uma
distancia física, em uma distancia temporal ou uma distancia diferente. Amigos
vão morar longe em outros bairros, cidades, países desde que eu me entendo por
gente. E eu me acostumei com os comes and goes das pessoas. Mas é diferente. Quando
vejo How i met your mother eu vejo que não seria impossível cultivar velhos
amigos na sua nova vida, amigos do passado que estão com você até hoje, pessoas
com quem você cresceu junto. Eu tenho esse amigo. Oscar. Eu poderia ter muito
mais, mas tomei todas as decisões erradas com o grupo de amigos com quem
cresci. Tive decisões erradas com Oscar também, mas esse dai resistiu, e eu
acredito que resistirá muito mais tempo, mesmo sabendo que essa minha crença
possa acabar com todos os meus sonhos um dia. Os outros amigos, os amigos de
agora... Os conheci quando já estava grande, e por mais forte que seja nosso
laço, é muito mais fácil se criar uma distancia. Porque a gente já sabe como é
a vida sem ter um ao outro, a gente já viu acontecer. E eu vou acumulando
partidas. Jonta, por mais que volte, acho difícil que a gente ainda pisque na
mesma frequência. Jéssica, não se engane, tem um futuro muito mais legal longe
daqui. Luth vai virar sua irmã, vai passar muito tempo fora, se relacionar com
milhões de outras pessoas e vai voltar, vez em quando, achanado que nada mudou
e que ainda temos muito em comum, quando na verdade isso também já vai ter
passado. Eu não acho que Big vá a lugar algum, eu não acho que vamos nos
afastar mais do que estamos hoje ou que um dia ela deixará de ser minha amiga,
mas eu sei que em um determinado momento nos vamos estar tão diferentes que
nossos encontros constantes serão reduzidos a duas ou três vezes no ano. E ai,
ainda tenho minha irmã, que é quem eu acho que vai me segurar no futuro em quem
eu desmorono. Todas as outras pessoas são novas demais, ou foram novas de mais,
ou serão novas demais. Pessoas novas
demais passam muito rápido. Elas tem sua importância, mas elas não ficam, elas
vão e vem e muitas vezes elas não te esquecem porque vocês vivem em uma cidade
pequena. Eu não sei como fazer amigos mais. Eu não tenho mais interesse de
conhecer uma pessoa nova ou coragem de deixar que pessoas novas se aproximem de
mim. As vezes eu tento um pouquinho, mas qualquer problemática no caminho já me
desvia completamente do objetivo. Como esse carinha com quem eu estava trocando
“cartinhas”. Eu tinha um amigo em potencial ali, alguém com quem eu sabia que a gente poderia
construir uma boa amizade baseada em coisas que tínhamos em comum. Éramos
parecidos, ele era mais novo, um pouco tão triste quanto eu. Eu achei que
poderia ajudar com minha experiência em tristeza e que fazendo isso eu estaria
me ajudando também, mas isso foi só até ele descobrir quem eu sou e nunca mais
me responder. Esses são os obstáculos no meio do caminho que me fazem querer
parar, desistir. Eu tive um problema financeiro esse mês e eu achei uma puta de
uma palhaçada, porque gastei mais de 700 reais e não consigo dizer o que foi
que eu comprei pra mim com esse dinheiro. Eu estava e ainda estou vivendo no nível
mais básico de todos pra não ter que enfrentar grandes problemas, pra não que
desistir das poucas coisas que ainda faço nessa vida, mas memo no nível básico
merdas acontecem. Eu acho isso um absurdo. Eu só quero ser deixado em paz,
fazer minhas pequenas coisas e passar despercebido pela vida, mas acho que é
tarde demais. Por ser Ravi Aynore eu sou mais do que um simples passante. Sou um
desses que passar e deixa alguma coisa marcada, boa ou ruim, e a vida já me
percebeu de alguma maneira. Se você pudesse deixar de ser Ravi Aynore então,
para ser outra pessoa despercebida pela vida, você o faria? Todo mundo sabe que
minha resposta é sempre não para essa questão, mas hoje seria sim. Hoje eu
deixaria de ser quem sou por uma vida mais tranquila. Se ao menos eu pudesse
encontrar a paz assim. Mas sou Ravi e por ser Ravi hoje não tenho nem uma
expectativa. O que eu quero fazer? Nada! O que eu gosto? Nada! O que eu odeio?
Nada O que estou fazendo? Nada! A única coisa que continuo fazendo é mentir. Sou
bom em mentir e não vou parar. Do mesmo jeito que não vou parar de pegar coisas
emprestada, por que a vida parece estar querendo me ensinar alguma coisa, mas
eu estou tentando ensinar uma coisa pra ela também: Pare de perder seu tempo
comigo e se concentre em outra pessoa que lhe consiga resultados melhores,
porque eu não vou render, não porque eu não possa, mas porque eu não quero. Eu
gostaria de casar. Eu sonho em casar e ter filhos. Já falei milhões de vezes da
casa com muitas janelas, muita luz e um jardim, mas como isso é possível se eu
saio nas ruas e encontro com cem mil pessoas e nem uma delas me interessa, nem
uma delas representa pra mim uma possibilidade de futuro? Por mais, ontem
pensei no meu outro ponto fraco, um que faz de mim parte da completa escoria da
humanidade. Eu não sei em que classe essa situação se encaixa. Não sei se é uma
condição, uma doença, uma neura, um carma ou um demônio. Hoje eu ainda tenho
meus desejos impuros sob controle. Hoje consigo dizer que não é um desejo
é apenas uma admiração, o que já é suficientemente
doentio, mas se eu crescer e ficar mais amargo do que eu devia e se eu perder
meu controle e me enganar achando que é natural? Eu não acho que seja natural. Eu
não quero crescer e me transformar em um pedófilo escroto, que sem noção possa
fazer um mal qualquer à uma criança. Eu não vou me permitir chegar a isso. Mesmo
com todas as pessoas me dizendo que isso iria mudar desde os meus 16 anos, esse
é um dos meus maiores medos, crescer sozinho como estou agora e me transformar em
um monstro sem consciência. E é assim que vou morrer, quando me ver desejando o
que não devo e quando eu vou me jogar do lugar mais propicio a mortes de
pessoas que a vida não conseguiu ensinar. Eu queria um marido, um filho, uma
casa com muitas janelas, luz e jardim, mas me afastando das pessoas, como faço
hoje em dia, só me vejo futuramente como o velho pedófilo a beira de um precipício
com medo de machucar algum inocente. Eu me vejo andando para esse fim por não
ter outro lugar pra ir, por olhar pra cem mil pessoas e não enxergar nem uma
possibilidade de relacionamento, por andar pelas ruas e não me permitir fazer
amigos, por ser grande e ainda assim permanecer fazendo coisas pequenas pra não
ter que enfrentar problemas maiores. Eu me vejo andando direto para o fim da
esperança e não posso fazer nada, porque pareço não querer fazer nada, porque eu
já estou perdido, porque meus sonhos eram muito maiores que minha capacidade,
porque eu quero que se acabe logo, porque pessoas parem de me responder quando
descobrem que sou eu, porque tomei todas decisões erradas quando ainda andava
com meu velho grupo de amigos, porque eu já machuquei uma criança inocente uma
vez, porque eu deixei algumas pessoas se afastarem de mim e as outras
simplesmente foram, porque a vida é esse comes and goes de pessoas que passam
pela minha vida e me transforam completamente, porque quando eu amo alguém é
pra sempre, porque eu nunca esqueço, porque meu pai sumiu por um tempo na
minha vida e eu nunca disse que isso
fazia uma diferença, porque eu tenho medo que ele suma outra vez, porque minha
mãe é insegura e parece ser a única coisa que ela me ensinou direito, porque
minha família é estupida e preconceituosa e eu não faço nada pra mudar isso,
porque sou miserável no amor e no jogo, na guerra e no trabalho, na cama, na
cozinha, na vida, porque eu nunca realmente pedi desculpas para as pessoas que
eu magoei. Eu não vou me matar, não agora, mas eu vou um dia, e viver sabendo
que você já desistiu e que esta só esperando o fim é como parar inteira no
cinema e só chegar na hora dos casts finais. E tudo isso por que eu queria
escrever e dizer pra Jonta que eu o amo e que sinto falta dele.
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